Tribuna
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Movidos a sangue

Na Suíça, um leilão se transforma na vitrine da indecência de uma ditadura, escancara os crimes de corrupção e arrecada 100 milhões de reais com carros de luxo

Ferrari Enzo exposta no pátio do leilão em Chéserex, na Suíça.
Ferrari Enzo exposta no pátio do leilão em Chéserex, na Suíça.DENIS BALIBOUSE (Reuters)

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O sol de um domingo de outono na Suíça parecia trazer uma luz especial para os vitrais de uma abadia do século 12. Com uma vista única sobre o lago Leman e sobre o Mont Blanc, o local que deu origem a uma ordem beneditina seria um palco pouco comum para um leilão de carros.

E não eram veículos quaisquer. “Esses não são carros. São obras de arte”, exclamaria o leiloeiro ao tentar atrair mais ofertas de um grupo de milionários excêntricos, acompanhando atentamente cada detalhe das peças que eram oferecidas.

À venda estava uma coleção única no mundo: 25 carros de luxo, provavelmente sem igual em um só lugar. Nos telões que mostravam os preços em seis moedas diferentes aos compradores, havia um detalhe que não aparecia: o fato de que cada um daqueles carros fora obtido às custas da miséria de um povo.

A coleção era de Teodorin Obiang, filho do ditador da Guiné Equatorial, Teodor Obiang. No total, a venda neste domingo na Suíça rendeu 26 milhões de dólares (108 milhões de reais), um contraste radical com a realidade de um país onde dois terços da população vivem com menos de 1 dólar por dia, 90% da população não tem acesso à internet e a expectativa de vida é de apenas 53 anos, o equivalente à Europa há mais de cem anos.

Teodor Obiang, o pai do colecionador de carros, chegou ao poder em 1979, em um sangrento golpe de Estado no qual tirou da presidência o próprio tio. Hoje, ele é o presidente africano com mais anos no poder.

Com apenas 720.000 pessoas, o minúsculo país enriqueceu graças ao descobrimento de petróleo. Mas esse dinheiro jamais chegou à população. O governo destina 0,6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para a educação e 20% das crianças estão em um estado de desnutrição profundo.

As crianças de Obiang, porém, jamais tiveram esse problema. A coleção de carros não é a única extravagância do regime. Em 2015, a escola de samba Beija-Flor homenageou a Guiné Equatorial em seu samba-enredo. Meios de comunicação como a BBC, The Wall Street Journal e outros europeus indicaram como a escola de samba teria sido financiada pelo ditador Teodor Obiang, algo negado pela direção da Beija-Flor e pelo embaixador da Guiné no Brasil.

Ao completar 48 anos em junho de 2017, Teodorin Obiang organizou uma festa em sua mansão de Malabo, capital guineense. Naquele momento, ele já era o vice-presidente do país. Portanto, para o evento, chamou decoradores renomados e levou da Itália alguns dos melhores cozinheiros. Mas era o tema de festa que chamou a atenção: os convidados deveriam ir com fantasias de “gangsters de Nova Iorque dos anos 30”.

Quem viajou até lá se deparou ainda com garrafas de champagne Louis Roederer Cristal. Mas também com uma “ordem” do “patrão”, como ele gosta de ser chamado: nenhum dos convidados deveria entrar com seus celulares ao local da festa.

Mas as extravagâncias também chamaram a atenção e, nos últimos anos, o clã passou a ser alvo de investigações. Obiang declarou à Justiça francesa que tinha uma renda de apenas 80.000 euros por ano. O que ele não explicou é como pagou 25 milhões de euros em 2004 para comprar um imóvel na luxuosa Avenue Foch, em Paris. Ele acabou sendo condenado no ano passado a três anos de prisão e uma multa de 30 milhões de euros.

Em apenas dois iates, as estimativas dos investigadores é de que a família Obiang tenha gastado quase 200 milhões de dólares, mais de dez vezes o orçamento anual do Ministério da Saúde de seu país. No pais africano, 57% da população não tem acesso a saneamento e água potável. Oficialmente, um dos barcos –o Ice– está registrado em nome do Ministério da Defesa da Guiné.

Nos EUA, a polícia se surpreendeu quando entrou em sua mansão de Malibu e encontrou, na garagem, 35 carros de luxo. Num aeroporto nas proximidades, um avião de 38 milhões de dólares também estava em seu nome.

No Brasil, a família também é alvo de inquérito. Em São Paulo, eles chegaram a comprar um triplex na Rua Haddock Lobo, nos Jardins. Há um ano, o Brasil ainda apreendeu uma bagagem milionária de sua comitiva ao desembarcar em Viracopos. O grupo transportava mais de 16 milhões de dólares.

Pelas ruas de Genebra, não era raro ver um Rolls Royce cor creme percorrer a cidade com seu irmão, Justo, sempre vestido no melhor estilo dos cantores de rap. Os filhos do presidente do país conheciam bem a Suíça. Em sua infância, Teodorin e seu irmão frequentavam os colégios destinados aos filhos das monarquias europeias e dos maiores empresários do mundo, na pequena cidade de Rolle. A juventude dos herdeiros ainda incluía longos períodos na estação de esqui de Gstaad, uma das mais caras do mundo.

Em 2009, Obiang tentou comprar a propriedade que era da monarquia saudita. Mas o projeto não se concretizou diante das restrições que os suíços impuseram, impedindo que os projetos de novas obras desejados pelos africanos fossem feitos no terreno. Em 2013, a família teve de se contentar em comprar apenas uma mansão em Anieres. Pagaram 6,7 milhões de dólares, à vista.

Para as autoridades suíças, o que ainda levantava suspeitas era a quantidade de voos entre a Guiné e Genebra. Em 2016, um jato oficial do governo africano havia pousado na cidade suíça 43 vezes.

Mas era um avião de carga russo que chamou a atenção dos investigadores. Entre 2016 e 2017, ele pousou em Genebra em quatro ocasiões, todas elas a pedido de Obiang. Os suíços decidiram agir e encontraram um carregamento com sua coleção de carros de luxo.

O confisco sem precedentes incluía um Bugatti Veyron, quatro Ferraris, incluindo uma Enzo e outra modelo 599GTB, um Porsche 918 Spyder, uma Lamborghini Veneno, outro Maybach, um Koenigesegg, um Aston Martin e até uma McLaren P1.

Naquele ano, o filho do ditador tentou embarcar os carros de luxo da Suíça, depois que o Ministério Público de Genebra iniciara um processo contra ele por suspeita de corrupção. Temendo o confisco, seu objetivo era o de embarcar sua fortuna em um avião de carga alugado às pressas. Mas a polícia foi mais rápida.

Lamborghini com iniciais de Teodor Obiang gravadas na porta.
Lamborghini com iniciais de Teodor Obiang gravadas na porta. (Jamil Chade)

Os advogados de Obiang entraram com um recurso, argumentando que a coleção era de “propriedade do Estado”. Os carros seriam usados, segundo eles, como “veículos oficiais” do governo e foram comprados “por ordem do Ministro do Interior”.

Mas a Justiça rejeitou o argumento.“Parece ser pouco provável que veículos esportivos possam ser usados como carros oficiais”, apontaram os juízes suíços, destacando ainda que eles estavam registrados em nome do suspeito, não do Estado. “A aquisição dos veículos seria um ato de lavagem de dinheiro”, apontou.

As autoridades suíças consideraram que os carros confiscados teriam sido adquiridos com fundos desviados e serviriam a fins pessoais. Para completar, os juízes estimam que o salário oficial do vice-presidente seria “insuficiente” para adquirir tais carros de luxo.

A opção dos suíços, diante do confisco, foi o de colocar os veículos à venda. A promessa é de que o dinheiro será usado para programas sociais organizados por ONGs, justamente no país africano lesado. Uma boa notícia, rara no país africano.

Num local originalmente destinado a outras idolatrias, o que se viu neste domingo foi o desembarque de milionários de várias partes do mundo em busca de obter os carros dos ditadores africanos. Carros de luxo, roupas extravagantes e champanhe marcaram o evento longe da realidade da Guiné.

Uma Lamborghini acabou sendo vendida por 7,2 milhões de dólares, mais de duas vezes o preço inicial oferecido. O veículo era apenas um dos três daquele modelo no mundo. Mas o comprador, cuja identidade não foi revelada, terá de buscar uma forma de retirar as iniciais TO desenhadas no carro, numa referência à Teodor Obiang.

Um Koenigesegg ainda saiu por 4 milhões de dólares, contra 1,3 milhão por um Aston Martin, com menos de mil quilômetros circulados. “Esses não são carros. São obras de arte”, dizia o leiloeiro, enquanto descrevia os aspectos tecnológicos dos carros.

Para uma plateia que se excitava com as máquinas que lhes eram apresentadas, o leiloeiro parecia estar em êxtase ao descrever os 500 cavalos de um motor, o couro de animal do banco de outro carro e a elegância de um Rolls Royce.

Na abadia, porém, não houve tempo para um minuto de silêncio pelas vítimas. Nenhuma palavra sobre como aqueles carros chegaram ali. Nem sobre os secretos compradores. Não eram poucos os que ironizavam sobre a possibilidade de a própria família Obiang estar por trás da recompra de seus próprios carros.

Fora dos muros do prédio da Idade Média, onde os cobiçados carros eram expostos, o que mais importava para os seguranças não era exatamente o que aquela família havia feito. Com panos brancos e sempre atentos, os organizadores circulavam pelo local para garantir que o vermelho de uma Ferrari não tivesse manchas. Pelo menos não visíveis.

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