futebol

Racismo se entrincheira nas arquibancadas italianas

Novo episódio de ódio racial contra jogadores da Serie A confirma problema crônico e alarma a FIFA

Dalbert Henrique, lateral esquerdo brasileiro da Fiorentina, foi vítima de xingamentos racistas no jogo do último fim de semana do campeonato italiano
Dalbert Henrique, lateral esquerdo brasileiro da Fiorentina, foi vítima de xingamentos racistas no jogo do último fim de semana do campeonato italianoGabriele Maltinti (Getty Images)

No domingo passado aconteceu de novo, como em quase todo fim de semana em tantos estádios na Itália. Às vezes imitam o som do macaco. Outras jogam uma banana. Foi a vez de Dalbert Henrique, lateral esquerdo brasileiro da Fiorentina. Seu time jogava contra a equipe lombarda da Atalanta e aos 31 minutos ele se cansou dos insultos racistas. Dalbert foi até o árbitro, se queixou e este parou o jogo por três minutos. O megafone do estádio lembrou que são proibidos insultos racistas e territoriais — ofender equipes ou jogadores do sul da Itália, como aconteceu recentemente com o goleiro do Milan, Donnarumma. Mas o público começou a vaiar e nem se pôde ouvir uma mensagem que, na verdade, em cada rodada fica sepultada pelo barulho.

Mais informações

O racismo vive entrincheirado nos estádios da Itália há décadas. No ano passado, foram os torcedores da Lazio que inundaram a Curva Roma com adesivos de Anne Frank vestindo a camiseta do eterno rival. A confusão foi enorme e a Itália explodiu contra o antissemitismo. Algumas rodadas depois, porém, aconteceu novamente no sentido oposto. Houve dezenas de outros incidentes que escandalizaram apenas fugazmente. Moise Kean, jogador da Juventus, por exemplo, foi insultado no campo do Cagliari. Depois de encarar os torcedores nas arquibancadas, foi inclusive criticado por companheiros de equipe como Bonucci, que julgaram sua reação um tanto exagerada. O inimigo em casa.

A temporada começou igual este ano, no mesmo estádio da Sardenha e com semelhante incompreensão da própria torcida. Desta vez, vieram dos ultras [torcedores mais exaltados] da Inter. Lukaku, nova estrela da equipe milanesa, foi gravemente insultado em Cagliari. Depois de seu protesto, foi sua torcida que lhe escreveu uma carta humilhante defendendo seus adversários e garantindo que ele não havia entendido nada do que estava acontecendo no campo. Se ele pensou ter ouvido insultos, disseram-lhe, não se tratava de uma questão racista. Somente de um “modo” de incentivar e “ajudar” sua equipe. Uma visão bastante difundida e difícil de extirpar.

Fiona May, campeã mundial de salto em distância, foi contratada pela Federação de Futebol para buscar soluções. Logo depois deixou o cargo, desiludida com o que encontrou. “É inútil falar disso, é algo que acontece toda semana. Esperemos que medidas duras sejam tomadas em todas as instâncias. Muitíssimas coisas devem mudar. Eu saí há dois anos porque não acontecia, não se decidiu nada. Não era prioridade deles. Foi uma experiência decepcionante a esse respeito. Não é justo para os jogadores ou para o resto dos torcedores, que são contrários a um modo de fazer. É uma questão de educação, também do nível cultural do esporte. Não é uma maneira de se comportar na frente das crianças”, diz ao telefone.

A situação, no entanto, está fora de controle. Ninguém toma medidas e são os jogadores que são obrigados a parar o jogo, sob o risco de depois serem acusados de fazer jogo de cena (como aconteceu com Kean). No domingo, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, condenou a escalada e pediu uma mudança de leis. “O racismo se combate com educação, condenando-o, falando sobre isso... não o tolerando. Na Itália, a situação não melhorou e isso é grave. É necessário identificar os autores e retirá-los dos estádios. Deve ser como na Inglaterra, que as sanções sejam impostas. Não se deve ter medo de condenar os racistas.”

Enquanto alguns países superaram essa fase da história nas arquibancadas do futebol, a Itália ainda mantém um problema cultural em claro contraste com outras ligas. Antonio Conte, técnico da Inter de Milão, disse neste fim de semana que a situação está “cada vez pior”. “Tive a sorte de trabalhar na Inglaterra por três anos. Se algo assim acontece, eles colocam os dois ou três responsáveis na cadeia. Aqui as pessoas vão ao estádio para insultar”, explicou em entrevista ao Corriere della Sera.

O veneno não vem apenas dos fundos dos estádios, onde ficam os ultras. Às vezes, os cantos racistas também vêm de lugares onde as famílias se sentam com seus filhos. Inclusive da tribuna de imprensa ou dos estúdios de televisão que comentam a rodada. Na semana passada, o jornalista Luciano Passirani quis elogiar Lukaku e acabou insultando-o. “Atualmente não vejo na Itália um jogador como ele. Não há ninguém mais forte, eu gosto muitíssimo. A única maneira de pará-lo seria dando-lhe dez bananas para comer.” O outro jornalista soltou uma gargalhada. Minutos depois, desta vez sim, foi demitido ao vivo.