Champions League

Moise Kean, um ‘centennial’ na Champions

Atacante da Juve, de 16 anos, vira fenômeno midiático e de mercado ao ser o primeiro jogador do ano 2000 a jogar na principal competição europeia

Moise Kean celebra o gol de Bonucci contra o Sevilla.
Moise Kean celebra o gol de Bonucci contra o Sevilla.José Manuel Vidal (EFE)

O pensamento mágico atua pelo bem pecuniário do imberbe Moise Kean e seu séquito. Os fatos são estridentes. Joga na Juventus, o que lhe confere um prestígio imediato. É forte, ágil, e, com o pé direito, tem o poder de explosão de uma mula. A idade, 16 anos, leva a crer que se trata de um prodígio, como costuma acontecer com todos os esportistas prematuros. Mas essas circunstâncias, que, por si sós, já deixariam qualquer um em uma boa posição no mercado do futebol, não são as que fazem desse rapaz uma espécie de bem-aventurado. A bênção é casual, como a forma das nuvens. Porque quase todo o valor de Moise Kean decorre da sua data de nascimento: 28 de fevereiro de 2000. Nesta terça-feira, em Sevilha, ele se tornou o primeiro jogador da geração nascida no atual milênio a jogar na Champions League.

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Filho de costa-marfinenses nascido em Vercelli, pequena localidade do leste do Piemonte, virou um fenômeno midiático ao estrear no sábado contra o Pescara. A Juve o trouxera das categorias de base do Torino, ele atuava no sub-19, mas as lesões de Higuaín e Dybala o promoveram acidentalmente para o time principal. “Isso é apenas o começo: penso sempre mais alto”, disse ele, ao deixar o campo, e ninguém no clube se surpreendeu com sua ousadia.

Moise Kean é um espírito livre. Tão livre que fugia das concentrações do time por não aguentar ficar fechado em um lugar. Sua facilidade era visível quando jogava na ponta. Combinado com a força natural, o atrevimento o transformou em um atleta impressionante. A pepita de ouro que chamou a atenção de Mino Raiola, o agente mais agitado do planeta. Um buscou o outro, na verdade. Raiola foi atraído pelo potencial que Kean representava em termos de lucro líquido. O rapaz ficou fascinado com a possibilidade de ser agenciado pelo empresário de seu ídolo, Paul Pogba.

A corda começou a esticar rapidamente. A mãe, mais próxima de Raiola, se propôs a encaminhar sua carreira longe da Juventus, em um programa que previa primeiro o Zwolle, da Eredivisie, onde ficaria pouco tempo, e depois o Manchester City. No outro lado, o pai se aproximou da Juve e da proposta do seu diretor de esportes Giuseppe Marotta, que lhe ofereceu um contrato de três anos. Algo bastante razoável quando se sabe que aos 16 anos de idade a imensa maioria dos jovens nem sequer definiu, ainda, se chegará a ser profissional.

A entrada de Kean no lugar de Pjanic aos 39 minutos do segundo tempo do jogo disputado entre a Juve e o Sevilha no Sánchez Pizjuán ativou a bomba. O atacante, que pulou para dentro do campo se diferenciando por sua crista amarela, em homenagem a Pogba, mostrou sua ousadia logo na primeira vez em que tocou na bola. Em plena onda de euforia, La Gazzetta dello Sport festejou a disputa de uma bola aérea que ele teve com Marcano.

“Ele ainda está crescendo”, arfou o técnico, Massimiliano Allegri, tomando cuidado para não inflar a bolha além da conta; “ele teve um pico e depois caiu, como sempre acontece com os jovens. Nestes dias, pagou pelo gasto de energia mental da estreia na série A”.

“Ele tem a sorte”, alertou Allegri, “de treinar com grandes campeões que podem ser modelos de comportamento”.

Allegri fez um esforço para se mostrar empírico e racional. Remou como em um barquinho contra um furacão. Não interessa que o menino atlético ainda não tenha feito nada de realmente importante. Não importa que milhares de grandes promessas acabaram desaparecendo do mapa um mês depois de ficar famosas, atormentadas pela fantasia, tanto a sua como a dos outros. O espetáculo Moise Kean é real. A torcida quer ver o jogador com nome de profeta fazer um gol no Gênova no próximo fim de semana. O povo espera que os números mágicos corroborem o advento de um novo ídolo.