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Geração Greta: como são os jovens que disseram basta à destruição do planeta

Inspirados pela adolescente sueca Greta Thunberg, os mais novos lideram hoje a luta contra o aquecimento global

Numa tarde ensolarada do final do verão europeu, Roger Pallàs, um universitário catalão de 22 anos, cabelos loiros e corpo franzino, dirige sua van rumo à Costa Brava enquanto cantarola: “The people gonna rise like the waters, we’re gonna face this crisis now... [o povo vai se erguer como as águas, vamos enfrentar esta crise já]” —um dos hinos que ele e seus companheiros tentaram propagar nas greves pelo clima em Girona. Eles compartilharam a música no quilométrico grupo de WhatsApp, mas as pessoas têm dificuldade para aprender, afirma Roger, que pouco depois para o carro e pega Lucas Barrero, colega de classe e de batalhas climáticas, um andaluz de 22 anos e discurso sólido. Quando retomam o caminho em direção ao mar, Barrero fala do livro que acaba de publicar, El Mundo Que Nos Dejáis (o mundo que vocês deixam para nós, na tradução livre em português), que é na verdade um “manifesto” com o qual espera “sacudir um pouco as consciências”, diz ele. No livro, escreve coisas como esta: “Somos a primeira geração que sofrerá, ou melhor, que já sofre, os efeitos da crise ecológica e climática. No entanto, somos a última que pode fazer algo para deter este desastre”.

Depois, à medida que o Mediterrâneo vai aparecendo por trás dos pinheiros, a conversa caminha para para o veganismo (Roger, que cresceu em uma região amplamente dedicada à indústria suína, é vegano) e para a Lei de Mudança Climática proposta pelo Governo espanhol  —“nasceu morta”, dispara Lucas. Falam também da ministra belga de Meio Ambiente, que sugeriu que as greves estudantis pelo clima que têm sacudido o mundo nos últimos meses não são um “movimento espontâneo”, e sim uma campanha orquestrada (ela garantiu ter informações do serviço secreto sobre o assunto). Foi forçada a renunciar. Barrero cita então uma informação-chave sobre as manifestações iniciadas pela adolescente sueca Greta Thunberg há um ano: elas são protagonizadas por crianças e jovens, é verdade, mas para cada um deles há, potencialmente, dois pais e quatro avós. Ou seja: cada milhão de estudantes aglutinaria até seis milhões de adultos por trás. O que o torna um movimento juvenil, mas de influência exponencial. E nisso está o bate-papo quando Roger vira, entra numa trilha e para às portas de uma escola de mergulho ao lado da praia de Sant Pere Pescador, onde trabalha o terceiro dos amigos que trouxeram para a Espanha o movimento de Greta. Do meio das roupas de mergulho surge Ander Congil, um basco de 22 anos e sorriso expansivo, e os três se abraçam porque, devido ao verão, já faz algum tempo que não se veem.

A semente de Girona

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Ander Congil, Roger Pallàs e Lucas Barrero (da esquerda para a direita) na praia de Sant Pere Pescador, em Girona, na Catalunha. Têm 22 anos e foram os primeiros a organizar, em janeiro, uma greve pelo clima na Espanha, imitando Greta Thunberg. Barrero cresceu na serra de Aracena (Huelva), Congil em Tolosa (Gipuzkoa) e Pallàs em Folgueroles (Barcelona). Apaixonados pela natureza, conheceram-se como alunos do curso de Ciências Ambientais e Biologia da Universidade de Girona. “Quando vimos o movimento na Europa, dissemos: ‘Temos de pegar isso e trazer para cá, porque isso é muito forte”, recorda Pallàs. “Ficamos plantados em frente à Generalitat [Governo] de Girona, éramos três amigos, chegaram mais duas amigas, outras duas pessoas pararam... até que divulgamos nas redes e isto explodiu”, acrescenta Congil. “Nós, os jovens, é que temos saído às ruas porque somos os mais prejudicados”, explica Barrero. “Reivindicamos nosso futuro, senão seremos levados a um colapso.”

Sua paixão pela natureza os uniu: conheceram-se no curso de Ciências Ambientais e Biologia, que tem poucos alunos e é oferecido apenas pela Universidade de Girona (entre as públicas). Compartilharam apartamento, caminhadas pelos montes, viagens. Os três ficaram impressionados com o protesto daquela sueca e seu discurso “impactante” para os líderes mundiais em Katowice (Polônia) no final de 2018, durante a conferência da ONU sobre mudança climática: “As desculpas de vocês acabaram”, repreendeu-lhes Thunberg, “e o nosso tempo está acabando”.

E foi assim que, numa sexta-feira de janeiro, véspera do dia de São Canuto, um andaluz, um basco e um catalão decidiram sentar-se em frente ao edifício da Generalitat (Governo) de Girona com um cartaz que dizia: “Greve pelo clima”. A primeira na Espanha. Naquele dia, duas amigas se juntaram a eles e dois curiosos pararam para ver o que estava acontecendo. Em poucas semanas, gente de outras cidades estava ligando para eles e perguntando como se unir ao movimento Fridays for Future (“sextas-feiras pelo futuro”). Enquanto a onda verde ia colorindo o mundo, eles participaram de reuniões de coordenação regionais, nacionais e internacionais, encontraram-se com cientistas, viajaram para o Parlamento Europeu e conseguiram levar centenas de pessoas às ruas de Girona, às quais tentaram ensinar este hino: “The people gonna rise like the waters...”. Como resume Roger Pallàs, sentado nas dunas da praia enquanto o sol se esconde atrás das colinas e uma bruma púrpura se desenha sobre o mar escuro: “Houve um boom que não esperávamos. Isso nos deu muita força, e a partir daí não paramos mais”.

Talvez um movimento de massas nunca tenha se espalhado tão rápido antes. A ativista sueca fez seu primeiro protesto em 20 de agosto de 2018. Começou sozinha. Sete meses mais tarde, na primeira greve mundial pelo clima, em 15 de março, 1,4 milhão de pessoas saíram às ruas, segundo os organizadores. Mais de duas mil de cidades de 128 países se somaram, e Thunberg se consolidou como o símbolo de uma geração bastante internacional, costurada pelo inglês e pelas redes sociais e também, segundo a maioria de entrevistados para esta reportagem, pela frustração acumulada com a passividade dos adultos e dos líderes políticos diante de um planeta ameaçado. Greta aglutinou os mais jovens com uma mensagem e uma missão. Sua visão do mundo ultrapassou fronteiras. Viaja da Oceania às Américas. De Nova York a Tomelloso, em Castela-Mancha. Nas palavras de Hugo Abade, um universitário de 19 anos originário desta localidade agrícola manchega: “Quando vi Greta, senti esperança. Esperança porque somos muitas Gretas pelo mundo, movendo-nos com uma só voz e uma única demanda: deixar um planeta habitável”. Ele se integrou ao movimento em Madri, onde estuda. E neste verão setentrional, quando voltou para casa de férias, lançou pelo Instagram as sementes de uma mobilização neste município de 36.000 habitantes. Em agosto, centenas de crianças se concentraram em Tomelloso e pediram à administração municipal a declaração de “emergência climática”, uma reivindicação habitual do movimento.

‘Fridays’ rurais

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O efeito Greta não conhece fronteiras e passou das capitais para as áreas rurais. Na foto acima, membros da Juventude pelo Clima de Tomelloso, um município agrícola de 36.000 habitantes da província de Cidade Real, na comunidade autônoma de Castela-Mancha. Os jovens posam em um campo colhido perto da cidade manchega. Há poucas semanas, registraram na Prefeitura um pedido de declaração de emergência climática, uma das iniciativas promovidas por Greta Thunberg. “É inspirador que alguém tão jovem possa mover tantas pessoas no mundo”, diz Alicia Serna, de 20 anos. O grupo também está preparando uma lista de propostas concretas. Entre elas, recuperar o mercado municipal para poder comprar produtos locais. “Nas grandes áreas não podemos ter acesso a esses produtos que estão sendo cultivados a poucos quilômetros daqui”, reclama Hugo Abad, de 19 anos.

Adelaïde Charlier, uma belga de 19 anos, líder visível das greves em Bruxelas, marchou pela capital europeia com Thunberg e foi recebida, entre outros, pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Ela se sensibilizou com o primeiro vídeo de Thunberg que viu no Facebook, no qual a ativista exortava políticos, banqueiros e empresários do Fórum Econômico Mundial de Davos. “Nossa casa está em chamas. (…) Quero que entrem em pânico” —afirmava também que, segundo o IPCC, o painel científico da ONU que reúne mais de 700 especialistas em mudança climática, “restam menos de 12 anos para podermos corrigir nossos erros”. “É tão poderoso o que ela diz!”, diz por telefone a jovem belga. “Todas essas frases... Quando você as escuta em uma garota tão jovem, quer fazer a mesma coisa, unir-se a ela, e acredita que todo mundo deveria fazer isso. Acho que esse discurso mudou a mentalidade dos jovens. Já tínhamos consciência do problema, mas não víamos a urgência. É importante perceber que é uma crise, uma emergência. E a única forma de ser ouvidos e pressionar os adultos é por meio da greve.”

O movimento continua se espalhando. Neste verão europeu, 400 crianças do Fridays for Future originárias de 38 países se juntaram em Lausanne (Suíça) para tentar encontrar pontos em comum e coordenar ações iminentes, como a próxima greve mundial pelo clima, na sexta-feira. A declaração acertada no encontro de Lausanne pede que o aumento da temperatura global seja mantido “abaixo de 1,5 grau em relação aos níveis pré-industriais”. E lança um grito de alerta geracional: “O colapso da nossa sociedade e dos nossos ecossistemas está no horizonte e o tempo está se esgotando. O que acontecer nos próximos meses e anos determinará o aspecto da humanidade no futuro. Nossa extinção coletiva é uma consequência possível. (…) Nós nos reunimos em Lausanne porque nossos medos e objetivos comuns nos unem, e porque a hora de agir é agora”.

Kelmy Martinez, suíço de 21 anos e um dos organizadores da cúpula, acredita que há elementos comuns que definem sua geração: “Nossos pais cresceram em um mundo no qual tudo estava indo bem. Era o final da Guerra Fria, a economia crescia. Nós vimos outra face. O 11 de Setembro, os atentados de Madri e Londres, a crise econômica de 2008, a crise da dívida de 2011”, enumera. “Começamos a perguntar a nós mesmos: será que essa é a forma certa de viver e fazer negócios? E fomos percebendo que há uma crise humana e ambiental, que algo falha no sistema, porque isto não ocorre em um que funciona.” Sobre a garota sueca e o que significou sua aparição, ele afirma: “Greta chegou em um momento-chave. As pessoas estavam prontas para se unir e sair às ruas”.

Salto para o México

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Clara Martínez, Camila González, Jorge Martínez e Valeria Cruz em um parque da Cidade do México. Pertencem ao movimento Fridays for Future deste país, um dos mais ativos da América Latina, com presença em 60 cidades.

Camila González, por exemplo, nunca tinha participado de uma marcha, mas decidiu aderir a este movimento, gerado a quase 10.000 quilômetros de sua casa na Cidade do México. Com 15 anos, estava farta de sentir que sua opinião não contava, e o fato de ter sido uma garota de sua idade que ergueu a voz a fez abrir os olhos, destaca. “Antes era mal visto que uma criança reclamasse de um adulto, mas os papéis estão se invertendo”, afirma González, que se tornou uma das participantes mais ativas do Fridays for Future no México. “Hoje, nossa geração tem voz e poder para melhorar as coisas.” E desta vez as garotas assumiram a liderança. Há três mulheres para cada homem na coordenação mexicana do movimento. “É uma revolução total”, diz Clara Martínez, de 22 anos, uma das organizadoras do protesto mundial de março. Tudo foi preparado em menos de um mês, em chats no WhatsApp, publicações no Instagram e chamadas de vídeo. “Meu coração batia muito rápido, não sabíamos o que esperar”, lembra Martínez, emocionada.

A representação mexicana se estabeleceu como a mais ativa da América Latina, com 220 atividades realizadas e presença em 60 cidades. Mas o México não é a Suécia e importar o Fridays for Future implica reconhecer uma realidade muito diferente neste país com 52 milhões de pobres, onde a corrupção permite abusos terríveis e a violência mata dezenas de milhares de pessoas por ano. Vinte e um ambientalistas foram assassinados em 2018, segundo o Centro Mexicano de Direito Ambiental. A América Latina é a região onde é mais letal defender o meio ambiente: nela ocorrem mais de 50% dos homicídios de ativistas ambientais no mundo, alerta a Global Witness.

O continente tem uma longa tradição de luta pela defesa do clima, dos ecossistemas, dos recursos naturais. De fato, antes que Greta fosse Greta, os mais novos também enfrentaram os adultos na Colômbia com o objetivo de preservar o pulmão do mundo: em 2017, 25 crianças e jovens entraram com uma ação coletiva de tutela para proteger a Amazônia. Encorajados pelo DeJusticia, um centro de estudos jurídicos e sociais, protagonizaram um caso visionário: processaram o Estado por não garantir seus direitos à vida e ao meio ambiente no futuro. Para surpresa de todos, no ano passado a Corte Suprema da Colômbia lhes deu a razão.

Pacto pela Amazonia

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Da esquerda para a direita e de cima para baixo, Yurshell Rodríguez, de 24 anos, Aymara Cuevas, de 10, Laura Jiménez, de 23, e Pablo Cavanzo, de 14. Os quatro são parte de um grupo de 25 crianças e jovens colombianos que, diante do avanço do desmatamento da Amazônia, entraram em 2017 com uma ação legal coletiva contra o Estado exigindo que ele garanta seu direito futuro de desfrutar o meio ambiente. A Corte Suprema lhes deu a razão neste processo revolucionário, exigindo que o Governo construa “um pacto entre gerações” e alertando para o “prejuízo iminente e grave para todos os colombianos, para as gerações do presente e do futuro”, se não foram tomadas medidas para frear a destruição do pulmão do mundo. Após a vitória, os autores da ação se transformaram em símbolos de uma juventude ativa contra a passividade dos mais velhos. Pablo Cavanzo, um dos mais jovens, explica seus motivos: “Os mais velhos não estão abrindo os olhos. Nossa geração está brigando com os adultos para que tomem decisões razoáveis, pois quando estivermos em posição para mudar a situação, já será tarde demais. Estamos a tempo”.

Graças a eles, hoje a Amazônia colombiana é reconhecida como sujeito de direito; o Estado tem a obrigação de construir um “pacto entre gerações”, e o Governo é advertido de que o desmatamento provoca “um prejuízo iminente e grave para todos os colombianos, para as gerações do presente e do futuro, pois amplia incontrolavelmente a emissão de dióxido de carbono para a atmosfera”.

Os 25 demandantes, em maior ou menor grau, tornaram-se símbolos da causa verde. A pequena Aymara Cuevas, de 10 anos, que vive em Itagüí, perto de Medellín, é hoje a voz do comitê ambiental de sua escola e se coloca na primeira fila das marchas de que participa com outras crianças. Yurshell Rodríguez, de 24 anos, nasceu no meio do Caribe, no arquipélago de San Andrés, Providencia e Santa Catalina. Semanas atrás, alertou mais de mil empresários e acadêmicos em uma cúpula sobre sustentabilidade em Bogotá: “As previsões dizem que 17% da minha ilha estarão cobertos de água em 2070. Ou seja, as praias em que estive, e provavelmente minha cultura de raiz [o povo indígena de San Andrés], podem desaparecer. Não podemos permitir isso”. O furacão Greta chegou à Colômbia para unir forças, segundo Laura Jiménez, de 23 anos, outra das demandantes: “Quando Greta apareceu, percebemos que há muitas formas de mobilização. Eu, por exemplo, não gosto de estar na linha de frente, minha forma de me manifestar foi a ação de tutela. Na verdade, não importa se você não é um ambientalista puro. Não precisamos de 100 ativistas perfeitos, e sim que todos sejamos ativistas imperfeitos conscientes de que cada um, de sua posição, em sua casa, pode fazer algo”.

Thunberg conseguiu tornar o discurso sólido e homogêneo. Não importa o lugar do mundo, todos pedem igualmente que os cientistas sejam ouvidos, e ressaltam a situação de urgência: “Este não é um problema do futuro. Já estamos vivendo a emergência climática”, sustenta, por exemplo, a brasileira Nayara Almeida, de 21 anos, que ajudou a promover no Rio de Janeiro um grupo semelhante ao da ativista sueca. O grupo participou da greve mundial de 15 de março, quando os protestos se espalharam por 24 cidades do país. “Organizamos tudo em quatro dias, falando com amigos e conhecidos. Hoje, o movimento tem cerca de 2.000 jovens em 50 cidades”, conta Almeida. Nestes dias em que a Amazônia queima, os grupos do Fridays for Future de todo o planeta convocam manifestações em frente às Embaixadas brasileiras e a maré verde exibe sua capacidade de mobilização em tempo recorde.

As vozes do Brasil

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Membros do movimento Fridays for Future do Rio. Da esquerda para a direita, Juliana de Araújo, de 23 anos, Nayara Almeida, de 21, Ana Gil, de 24, Tua Frank, de 26, e Manu Amaral, de 24. No Brasil, o movimento reúne 2.000 pessoas. E as retratadas explicam por que Greta foi fundamental na criação de um movimento global: “Sua mensagem tem muito poder. É a narrativa de toda a juventude do mundo”.

“Em 2050, o planeta será inabitável”, alerta um cartaz diante da embaixada brasileira em Buenos Aires. É sexta-feira, é claro, 23 de agosto, dia de protestos em cidades ao redor do mundo. Entre os manifestantes está Bruno Rodríguez, de 18 anos, estudante de Ciências Políticas e Direito. Veste uma camiseta dos Jovens pelo Clima, grupo ao qual pertence —e que ele representaria na Cúpula da Juventude para o Clima, realizada neste sábado na sede da ONU em Nova York. Dos cem participantes que receberam bolsas da ONU, 13 são latino-americanos, e Rodríguez é o único argentino. “A ideia é levar uma proposta como região para que se entenda o que acontece nos nossos países”, diz ele.

Esse encontro juvenil antecedeu o oficial, que começa nesta segunda-feira: a Cúpula de Ação Climática da ONU em Nova York, o encontro que motivou a odisseia atlântica de Greta. A adolescente, por coerência, evita o avião para reduzir sua pegada de carbono, de modo que, para chegar a Manhattan, navegou duas semanas em um veleiro. A revista The Economist aproveitou a travessia para publicar um artigo intitulado “O efeito Greta”, explicando como cresceu, desde sua ascensão midiática na Suécia, o flygskam  —uma palavra que resume a “vergonha de voar” de avião e que, segundo o gráfico que ilustra o texto, provocou consideráveis reduções no número de viajantes aéreos em seu país.

Greve climática em Buenos Aires

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À esquerda, Julieta Itzcovich, de 17 anos, uma entre as dezenas de jovens que saem às ruas em Buenos Aires (Argentina) todas as sextas-feiras replicando as greves pelo clima iniciadas na Suécia há um ano. “Somos a geração que mais será afetada”, diz. “Se nada for feito, em 2030 vamos chegar a um ponto sem retorno”. À direita, Bruno Rodríguez, de 18 anos, cofundador da organização Juventudes pelo Clima de Buenos Aires e representante da Argentina na Cúpula da Juventude para o Clima, realizada neste sábado em Nova York.

O efeito Greta talvez explique em parte o resultado histórico dos Verdes nas últimas eleições europeias: as pesquisas de boca de urna indicaram que os ecologistas foram a primeira opção para os jovens na Alemanha, Áustria e França. Mas não foi só um lampejo geracional. Uma pesquisa pós-eleitoral do Parlamento Europeu apontou que “combater a mudança climática e proteger o meio ambiente” foi a principal motivação para ir votar em sete países: Dinamarca, Suécia, Holanda, Alemanha, Luxemburgo, Áustria e França. E em um ano esse assunto subiu do quinto para o segundo lugar entre as principais preocupações da população da União Europeia.

O conceito do Fridays for Future já não apenas uma questão juvenil. Ele se ampliou para todos os tipos de coletivos. Segundo Miriam Leirós, uma professora de 42 anos que lidera o Teachers for Future (“professores pelo futuro”) na Espanha, o movimento lhe deu “esperança e vergonha” em partes iguais: “Esperança porque você vê que as gerações não estão dormindo e são capazes de lutar. E vergonha porque os jovens é que tiveram de nos dar um puxão de orelha”.

Mudança e esperança em Madri

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Um grupo do movimento Fridays for Future de Madri, inspirado pelas greves das sextas-feiras pelo clima de Greta Thunberg. De pé, a partir da esquerda: Manuela Martín, de 16 anos, Matías Spatz, de 17, José Ferreras, de 23, e Koro López de Uralde, de 23. Sentados, Alejandro Martínez, de 25, Marta Macías, de 20, e Pablo Sallabera, de 23. Os sete posam no dia do protesto convocado no final de agosto em frente à Embaixada do Brasil em Madri para denunciar a queima descontrolada da Amazônia. Martín, a mais jovem, conta que é “relativamente nova” no movimento. “Entrei de cabeça assim que o conheci, considerei que era uma coisa muito necessária e estou me dedicando totalmente há quatro meses”, diz ela. Ferreras, representante de Madri, acrescenta: “O essencial é a esperança de que pode haver uma mudança. Somos muitas pessoas e isto está crescendo”. Macías reflete sobre seu impacto: “Graças à difusão do que fazemos, estamos colocando a questão da mudança climática, da emergência climática, na ordem do dia”.

Ao meio-dia de 23 de agosto, no centro de Madri, jovens ativistas preparam esse puxão de orelha a um passo da embaixada brasileira. Saúl Flores, poeta e estudante universitário, orienta um grupo de novatos na arte do die-in, algo como uma morte simulada que deixa o manifestante deitado na rua, obstruindo de forma pacífica o trabalho da polícia. Essa “morte” se tornou uma das marcas registradas do Extinction Rebellion (“rebelião da extinção”), outro movimento ambientalista nascido em Londres em 2018. Não é tão juvenil. E tem métodos mais contundentes: em abril, seus ativistas paralisaram o centro da capital britânica durante dias, e mais de 1.000 deles foram detidos. Em Madri, começaram a organizar oficinas de introdução à desobediência civil, nas quais, entre outras coisas, um participante brinca de deitar no chão enquanto outro, no papel de policial, tenta retirá-lo.

“Rebelião ou extinção!”, gritam em coro os convocados para a manifestação em frente à embaixada. Três adolescentes chegam, sentam-se e aprendem slogans com brilho nos olhos. Neles se percebe o romantismo das primeiras manifestações. “Não é fogo, é capitalismo!”, exclamam. Uma mulher foi com suas filhas, de 12 e 16 anos. “Greta é um modelo a seguir, uma pessoa muito valente”, dizem as meninas. E a mãe: “Sou fã absoluta. Mas tenho medo do que a superexposição na mídia possa provocar”.

No dia seguinte, no Centro Social Okupado La Ingovernable (“a ingovernável”), transformado em QG dos ativistas pelo clima, um grande grupo de membros do Fridays for Future de Madri se reúne em assembleia. Eles não permitem o acesso, mas no intervalo para o almoço (em tupperware) vários concordam em ser entrevistados em uma sala de aula presidida pelo grafite de um Mickey enorme com cara de quem consumiu LSD. Na mesa há gaspacho, salada de grão-de-bico, macarrão com legumes. Todos estão se esforçando para mudar seu estilo de vida.

Alejandro Martínez, de 25 anos, explica por que os mais jovens é que se rebelaram: “Até agora, as mensagens das gerações anteriores sempre foram de esperança. Mas a emergência climática é real. Segundo o IPCC, temos apenas 10 anos para evitar que a temperatura global suba acima de 1,5 grau. Crescemos com consciência do perigo e vendo como não se fazia nada a respeito”. Koro López de Uralde, de 23 anos, com experiência em ambientalismo desde o berço (é filha do líder do partido ecologista Equo e ex-diretor do Greenpeace na Espanha Juantxo López de Uralde), acrescenta: “Havia muita gente que estava preocupada com este assunto, mas não sabia como contribuir. Foi uma maneira de canalizar toda essa energia”. Manuela Martín, que com 16 anos é a mais jovem e tem a mesma idade da menina que deu início a tudo, resume esse sentimento geracional em uma palavra: “Raiva”.

O EL PAÍS faz parte do Covering Climate Now, uma iniciativa global de mais de 220 veículos de comunicação, enfocada em dar atenção à crise climática.

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