76ª Mostra de Veneza

O noticiário incendeia o Festival de Veneza

Filme de Soderbergh sobre os Papéis do Panamá e o de Assayas sobre espionagem cubana confirmam o interesse do cinema atual pelas histórias baseadas em fatos recentes

Da esquerda, o diretor Olivier Assayas e os atores Penélope Cruz, Edgar Ramírez, Gael García Bernal, Wagner Moura e Leonardo Sbaraglia, na noite deste domingo em Veneza.
Da esquerda, o diretor Olivier Assayas e os atores Penélope Cruz, Edgar Ramírez, Gael García Bernal, Wagner Moura e Leonardo Sbaraglia, na noite deste domingo em Veneza.Alberto Pizzoli (AFP)

Um enorme porco observa os transeuntes a partir do Lido. Na sua posição privilegiada, os olha a cada dia com ar de superioridade. Literalmente porque está alguns metros acima. Mas, sobretudo, porque sua vida transcorre num Eldorado onde esses plebeus jamais serão admitidos. O rechonchudo cofrinho triunfou: usa óculos de sol, biquíni, e esmaga um maço de dinheiro. O cartaz de A Lavanderia resume assim o que Steven Soderbergh pretende mostrar com seu filme, que disputa o prêmio principal do Festival de Veneza: os ricos lutam por seus bolsos com qualquer estratagema, como revelaram os chamados Panamá Papers. O filme prometia reconstruir o vazamento que em 2016 despiu os truques fiscais de milhares de políticos, empresários, esportistas e criadores. Só que não passa de um resumo gracioso, embora escolástico: um manual para os interessados em empresas offshore.

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Mesmo assim, já no final, Soderbergh lança seu manifesto: o dinheiro sujo não é lavado só em ilhas paradisíacas e bananeiras. “Os EUA são na prática o maior paraíso fiscal do mundo. Delaware é o terreno perfeito para a criação de empresas de fachada, onde confluem criminosos de todo tipo”, afirmou Jake Bernstein, autor de Secrecy World, o livro que inspirou A Lavanderia. O público tomou nota no seu caderninho. E algum aluno observaria estupefato que a denúncia procede de um filme da Netflix, acusado na esquivar impostos na Europa.

Em todo caso, durante um dia, as poltronas de Veneza viraram carteiras escolares. E, na tela, foram proferidas aulas de história. Wasp Network, de Olivier Assayas, também na competição, recordou a trama de espionagem cubana que se infiltrou entre os terroristas anticastristas exilados em Miami, nos anos noventa. Conversas Entre Adultos, de Costa-Gavras, encenou como os inflexíveis lobos de Bruxelas devoraram a Grécia e seu ex-ministro de Finanças, Yanis Varoufakis. E American Skin, do ressuscitado Nate Parker, gritou que o racismo nos EUA não é uma lembrança, e sim parte do cotidiano. Justamente enquanto a Itália tenta formar um novo Governo, Veneza debate, reflete, aclama e se indigna. É a política.

“O sistema precisa mudar. No Reino Unido aprovaram uma norma que põe a lupa sobre gente rica que apareceu do nada para comprar grandes patrimônios. Isso jamais passaria nos EUA. Hoje, o 1% controla metade do bem-estar. É insustentável. E a transparência é a única solução. Embora em muitos lugares o sistema judicial seja corrupto e um cidadão não possa perseguir os criminosos nem protestar em modo eficaz. Então, falar disso é o princípio”, afirmou Soderbergh. Para contar isso, o diretor escolheu o veículo do humor. E encarregou as piadas de Gary Oldman e Antonio Bandeiras, na pele dos dois fundadores da Mossack Fonseca (o escritório panamenho que tirava empresas do forno sem parar), o desafio de explicar o sistema que engorda suas contas. Como A Grande Aposta, de Adam McKay, mas sem sua profundidade. “A comédia era a melhor abordagem para que um argumento complexo ficasse na mente do público”, acrescentou Soderbergh. “É um filme divertido, mas muito importante. As pessoas morrem e continuam morrendo por causa destas investigações”, argumentou Meryl Streep, a outra protagonista.

Steven Soderbergh e Meryl Streep posam para fotos no domingo de manhã.
Steven Soderbergh e Meryl Streep posam para fotos no domingo de manhã.VINCENZO PINTO (AFP)

Mensagens e estrelas, assim como em Wasp Network. O filme de Assayas também parte de um livro: Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do brasileiro Fernando Morais. E conta com outro elenco extraordinário: Penélope Cruz, Gael García Bernal, Wagner Moura, Edgar Ramírez e Ana de Armas. Acaba frustrando as expectativas também: limita-se a contar com fluidez como cinco homens fingiram trair Fidel Castro para proteger sua revolução. Correto, mas insuficiente: da competição de Veneza se deve exigir qualidade muito alta e/ou riscos igualmente elevados.

“Era difícil falar do passado, das últimas décadas. Não percebia uma grande liberdade na hora de compartilharem o que sentem”, disse Penélope Cruz sobre sua experiência em Cuba. “Rodamos em um período de tensão entre a ilha e os EUA, e notamos esta turbulência. Quando terminamos de filmar, já não havia voos diretos entre ambos os países”, contou Assayas. A atriz rememorou o prazer e a dificuldade de aprender o sotaque cubano; compartilhou também seu temor com certa tendência mundial “ao individualismo”. E afirmou: “Nem sempre escolho um personagem com o qual esteja 100% de acordo. Não preciso ser como eles nem tenho que gostar deles”.

A lição valeria, em geral, para todos os filmes projetados. Despertaram consciências, discordâncias, conversas. Sobre a moral dessas cadeias infinitas de empresas offshore que só servem para que a Fazenda perca de vista o primeiro elo: seu proprietário. Sobre os limites do patriotismo e da soberania. Ou sobre a tensa relação entre a polícia e a população negra dos EUA. A própria volta de Nate Parker suscita dilemas: o diretor estreou em 2016 com O Nascimento de Uma Nação, transformou-se imediatamente em favorito ao Oscar, mas desapareceu do mapa quando veio à tona um antigo julgamento por estupro. Ele foi absolvido; seu amigo, condenado e depois inocentado. Mas a vítima acabou se suicidando anos depois, e a carreira de Parker foi enterrada. Não ajudou que o cineasta declarasse que não se sentia culpado nem queria se desculpar. Apesar disso, Veneza o resgatou. Erro ou acerto? A resposta é política.

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