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Wagner Moura: “Espero que ‘Marighella’ seja maior que o Governo de Bolsonaro”

O ator estreia como diretor com biografia do líder da resistência contra a ditadura militar.

Segundo a estrela de 'Narcos' e 'Tropa de Elite', filme serve de “paralelo com a situação atual”

'Marighella' filme Wagner Moura
Wagner Moura ao lado de Maria Marighella (dir.), neta de Carlos Marighella, em Berlim. AFP/Getty Images
Enviado especial a Berlim

O festival de Berlim sempre foi propenso aos filmes políticos. Por isso, o fato de Marighella ter sido o último filme na seção oficial — embora fora de concurso — da última edição sob a batuta de Dieter Kosslick, que dirige o concurso há 18 anos, faz todo o sentido para a Berlinale. Marighella é a estreia como diretor do ator Wagner Moura, que já tem uma longa carreira marcada por seu Pablo Escobar da série Narcos e escolheu, para seu salto, ilustrar os cinco últimos anos de vida — de 1964 a 1969 — de Carlos Marighella, político e escritor, líder do Partido Comunista Brasileiro, que foi expulso da sigla quando, depois do golpe de Estado de abril de 1964, decidiu passar para a luta armada.

Moura se deu muito bem como cineasta. Seu Marighella é vibrante, cheio de ação — o ator sabia bem a lição depois de estrelar Tropa de elite e sua continuação —, filmado com brio, com personagens com nuances... Pode ser que o filme padeça de certo maniqueísmo, mas, diante da conjuntura brasileira, Moura deu prioridade ao óbvio paralelo que vive o país meio século depois que Marighella foi executado pela polícia, após acabar de escrever o Minimanual do Guerrilheiro Urbano.

Daí que na entrevista coletiva, na qual Moura foi acompanhado por 30 membros da equipe artística e técnica do filme, houvesse muita raiva e emoção. Alguns atores chegaram a chorar. Moura disse que não ia dirigir o longa: “Meu primeiro instinto, depois de ler a biografia em que se baseia o roteiro, foi produzir o filme. Como não encontrei um diretor, eu me arrisquei, já que não achava que ia ser tão complicado. Só me considero um ator que dirige. Por outro lado, foi a experiência artística mais importante da minha vida”. Sobre o momento de estreia de seu thriller, o cineasta disse: “Nós o iniciamos em 2015, depois do golpe de Estado [o impeachment de Dilma Rousseff]. Não é uma resposta a um Governo em particular. Espero que meu filme seja maior que o atual Governo de Bolsonaro, e é a primeira resposta da cultura a esta situação. Marighella fala de alguém que resistiu naquela época e se dirige a quem resiste agora: a comunidade LGBTI, os negros, os moradores das favelas...”.

Moura falou inglês na maior parte da coletiva, buscando pausadamente suas palavras, nervoso. Sobre o paralelismo da sua história com a atualidade, algo salientado em diversos momentos (por exemplo, alguém pega uma câmera e olha para a câmera que filma, para o espectador), ele explicou: “Marighella, líder social negro, foi assassinado em 1969 dentro de um carro por disparos da polícia. Meio século depois, uma ativista social negra [refere-se a Marielle Franco] foi assassinada no Rio dentro de um carro por membros das forças de segurança. A situação de torturas e assassinatos é a mesma. É o Estado que não mudou, e ele escolhe seus inimigos. Os paralelismos são muito claros para mim. Não é um documentário, os personagens são amálgamas de gente real, mas as situações e os sentimentos são reais”.

Cartaz do filme 'Marighella', protagonizado por Seu Jorge, lançado no Festival de Berlim 2019.
Cartaz do filme 'Marighella', protagonizado por Seu Jorge, lançado no Festival de Berlim 2019.

E aumentou sua contundência: “Sofremos uma situação horrorosa, a pior que o Brasil vive desde a ditadura. Hoje há um genocídio contra a população negra, contra quem vive nas favelas. Temos um presidente homofóbico. Sei que quando voltarmos ao Brasil nos cobrirão de merda, mas não me preocupa; o mais importante era estrear este filme”. Ele está propondo uma luta armada? “Não, não quero que ninguém se levante em armas, Não, o filme fala do sacmrifício, daquilo que esses homens e mulheres deixaram para trás em nome do bem comum. Em momentos decisivos há pessoas que decidem ficar em casa, e outros que fazem o que têm que fazer. E eu os admiro. Lanço uma mensagem ao público para que resista. É como o diálogo final entre um dos amigos de Marighella, do seu grupo ALN [Ação Libertadora Nacional], com o policial que o está torturando e que lhe informa que mataram Carlos: ‘Perdeu’, provoca. E o guerrilheiro responde: ‘Não, você perdeu’. Porque há vitórias morais, porque a resistência então e agora será imparável, porque viverá em cada garoto que receber essa mensagem.”

O resto do elenco e as duas produtoras presentes na sala já avisaram sobre a grande dificuldade de estrear Marighella em seu país. “Gostaríamos de lançá-la depois de sua exibição aqui em Berlim. Mas talvez tenhamos que recorrer inclusive a um crowdfunding”. O músico Seu Jorge, um dos mais importantes do Brasil, que encarna Marighella na tela, falou sobre as dificuldades de se preparar para o papel e sobre como considera importante “que o filme estreie neste momento”. Moura acrescentou: “Bolsonaro faz como todos os governos fascistas brasileiros: primeiro criminalizas a cultura, depois muda o significado das palavras... nos colégios, especialmente nos privados, fala-se da Revolução Francesa, e não se dedica nenhuma linha a falar da brasileira, uma revolução negra. Esconde-se a história. Temos que repensar nosso país”.

Ao final, depois de comentar que sua maior influência, “acreditem ou não”, foram os irmãos Dardenne, Moura voltou a falar da estreia do filme no Brasil e em como o cinema é caro no país: “Temos que pensar em algo, porque seria triste que as pessoas na qual Marighella pensava não vissem o filme. Se a projetariam a Lula na prisão? Não tinha pensado nisso, mas adoraria”.

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