Pastoral Carcerária teme novo banho de sangue em prisão de Altamira

Pastoral visitou o local e recebeu reclamações dos presos e seus familiares sobre a redução de cuidados básicos após o massacre que matou 58 detentos, em meio ao receio de uma revanche dos presos pelos colegas assassinados

A Pastoral comunicou às autoridades que o clima dentro da unidade ainda é de tensão, com o receio de que haja um novo banho de sangue protagonizado pelas facções criminosas em retaliação aos presos massacrados. Apesar de não ter tido acesso a toda a unidade - o Governo alegou que por questões de segurança parte do presídio não poderia ser visitado -, a Pastoral colheu relatos dos familiares e dos presos, que apontam uma falta de cuidados básicos que podem aumentar o clima de ansiedade no local.

Uma das denúncias mais graves feitas pela pastoral - e negada pelas autoridades - foi com relação à suspensão do atendimento médico no Centro de Recuperação desde o massacre. Familiares dos presos relataram à entidade que este serviço havia sido suspenso. Em reunião com a irmã Pfaller, a promotora de Justiça Paloma Sakalen afirmou que não houve nenhuma comunicação "oficial" com relação a este ponto.

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Os presos também descreveram à Pastoral um esquema de venda de comida com sobrepreço na cantina do presídio. Segundo reclamam, eles acabavam sendo induzidos a comprar alimentos comercializados a um preço elevado na cantina, uma vez que visitantes estavam sendo impedidos de entrar na unidade levando comida de casa para fornecer a seus familiares presos. Ainda segundo os internos, funcionários da Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe) ficariam com parte dos lucros da venda de comida no Centro de Recuperação. A reportagem procurou a Susipe por email e telefone para indagar sobre as denúncias feitas pela Pastoral, mas não obteve resposta até o momento.

Tragédia anunciada

Os familiares contaram que antes da barbárie do final de julho houve diversas evidências de que uma tragédia estava prestes a acontecer.  De acordo com eles, as famílias que estiveram no Centro de Recuperação durante a visitação no final de semana que antecedeu o massacre disseram que os presos afirmaram que o clima "estava tenso" na unidade, e que algo poderia ocorrer em breve. "Pairava um silêncio e tensão na casa penal", de acordo com os relatos. Segundo a Pastoral, funcionários do presídio teriam tomado ciência do clima propício para uma tragédia: um áudio teria sido enviado por um dos carcereiros para parentes dos internos alertando para este fato.

Por fim, a tensão culminou com presos ligados à facção Comando Classe A, aliada do Primeiro Comando da Capital, originária de São Paulo, rompendo as celas de seu bloco e invadindo a área destinada aos rivais do Comando Vermelho. Este último grupo ficava confinado em celas adaptadas feitas à base de contêineres. De acordo com a coordenadora da Pastoral, o local é insalubre, sem ventilação, sujo e com um cheiro ruim. "Os presos de um grupo subiram nos contêineres e atearam fogo em quem estava embaixo", conta Pfaller. "Ainda há muito o que ser explicado". No entanto, é certo que se tratou de mais um embate entre CV e PCC, travado via facções aliadas (como o Comando Classe A) na região Norte do país.

Para prevenir que isso se repita, o Governo transferiu algumas dezenas de internos para outras unidades. Mas as quatro mortes por asfixia ocorridas em um caminhão-cela que levava presos para Marabá mostram que o problema está longe do fim. Estes assassinatos, cometidos de acordo com o Governo pelos próprios detentos sem o conhecimento dos agentes que faziam a escolta do veículo, ainda estão sendo investigados. Algumas das vítimas teriam tido um papel ativo no massacre.