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COLUNA i

O ministro da Educação pode ser alguém insensível ao choro de uma criança?

Não são os grandes gestos os que fazem de uma pessoa um exemplo de admiração e respeito, mas sim os pequenos pormenores em nossa relação com o próximo

Cerimônia de posse do ministro da Educação, Abraham Weintraub.
Cerimônia de posse do ministro da Educação, Abraham Weintraub.

Não são os grandes gestos os que fazem de uma pessoa um exemplo de educação, e capaz de compaixão, e sim às vezes os pequenos pormenores em nossa relação com o próximo. São esses gestos menores os que melhor refletem o fundo de nossa alma.

Foi um desses gestos minúsculos, mas significativos, que revelou há alguns dias a falta de empatia e de compaixão do ministro da Educação do Brasil, Abraham Weintraub.

Ocorreu em um voo comercial de São Paulo a Brasília. A jornalista Bela Megale contou o fato em sua coluna do jornal O Globo. Era um voo entre São Paulo e Brasília. No avião viajava o ministro da Educação, o que é digno de elogios dada a alergia que os políticos importantes manifestam a usar voos normais, lado a lado com as pessoas comuns. Preferem a independência dos aviões militares e dos particulares de seus amigos empresários seja por comodidade, seja para evitar que possam ser importunados pelas pessoas.

Não sou dos que aplaudem os passageiros que incomodam um político e um magistrado que viajam como um cidadão comum. Pelo contrário, nos tempos que vivemos de irritação política, esses personagens públicos importantes deveriam receber aplausos por seu gesto de preferir viajar sem privilégios. Ao mesmo tempo, justamente, essas pessoas importantes com cargos de responsabilidade na esfera do Estado, têm maior obrigação de ser solidárias e dar exemplo de empatia com o próximo em qualquer lugar em que se encontrem.

Não são os grandes gestos os que fazem de uma pessoa um exemplo de admiração e respeito, e sim às vezes os pequenos pormenores em nossa relação com o próximo. São esses gestos menores os que melhor refletem o fundo de nossa alma.

É o que faltou, na história contada pela jornalista, ao ministro da Educação, já dentro do avião antes de decolar. Uma aeromoça perguntou delicadamente ao ministro se ele não se importava de trocar de lugar, que além disso era mais confortável do que o seu, para que o pai e a mãe de uma menina de cinco ano, que estavam separados, pudessem viajar juntos. Enquanto a menina chorava porque queria estar ao lado de seus pais, o ministro respondeu que ele não trocaria de lugar. Não se comoveu com a dor da menina e de seus pais.

É verdade que o ministro não tinha nenhuma obrigação de trocar de lugar. Mas é nesses momentos que se reflete o que chamamos de compaixão, que significa saber se colocar no lugar do sofrimento do outro, algo que parece que está se perdendo em nossa sociedade cada vez mais desumanizada.

Nesse caso concreto me impressionou o fato de que justamente um ministro da Educação, que carrega em suas costas a responsabilidade de formar milhões de crianças não só em matemática como também em sua maneira de conviver entre eles em paz e harmonia, se sentisse indiferente à dor da pequena. Não vamos nos esquecer que o Brasil é um dos países do mundo que mais sofre a praga do bullying nas escolas.

Um ministro da Educação que é incapaz de sentir a dor de uma menina que sofre por medo de precisar viajar no avião separada de um de seus pais, e que é incapaz de aceitar o pequeno incômodo de se levantar para trocar de assento, cria no mínimo dúvidas sobre sua sensibilidade humana para presidir um ministério tão importante e delicado como o da formação da infância.

Se essa história, que pode parecer menor, mas que possui uma grande carga simbólica, me causou mal-estar, não me deixou melhor a maioria dos comentários sobre a notícia que defendiam a atitude do ministro. Hoje se fala mais do que nunca que a definição de “brasileiro cordial”, criada por Sérgio Buarque de Holanda em seu famoso livro Raízes do Brasil que correu o mundo, nunca foi verdade. Já se questiona se o brasileiro alguma vez foi cordial já que sua idiossincrasia continuou viva, da colonização à escravidão mal resolvida, da sobrevivência das castas e a dificuldade de aceitar os diferentes.

Como Maira Streit escreveu na revista Fórum, basta abrir os olhos hoje para observar que esse brasileiro cordial, se alguma vez existiu está morrendo asfixiado pelo rancor, o ódio e o medo ao diferente, seja de gênero e ideologia. “Casos como o da menina de 11 anos apedrejada por seguir o Candomblé, a apresentadora negra atacada com ofensas na internet, os adesivos que colocam a primeira presidenta do país em poses sexuais vexatórias, o homem amarrado a um poste e linchado no Maranhão, as estatísticas crescentes de assassinatos de LGBTs e jovens da periferia mostram que, definitivamente, estamos longe de ser o país do respeito às diferenças”.

Maira tem razão quando é categórica no julgamento sobre a sociedade brasileira que estamos vivendo e que um Governo de extrema direita está sendo fomentado. Ela se refere ao repúdio e até à perseguição a tudo que é diferente e à obsessão pelas armas e pelo assédio aos que não pensam como eles como se tratassem de feras que devem ser abatidas: “Uma coisa é certa: caíram as máscaras até hoje tão utilizadas para esconder as formas mais perversas de preconceito e exclusão. O que resta é a face nua do autoritarismo, escancarada por um setor da sociedade que trabalha diuturnamente para golpear a democracia, conquistada a duras penas. E acrescenta: “A raiva agora exposta se revela ávida por colocar em prática seus delírios mais violentos contra grupos historicamente vulneráveis, ensinados a viver entre as paredes do medo. E não nos enganemos. Esta é uma guerra, como todas as outras, em que todos saem perdendo”.

Nesse contexto não é de se estranhar que possa parecer normal o gesto do Ministro da Educação que se sentiu insensível diante das lágrimas da pequena que não queria se separar de seus pais no avião. Melhor cada um pensar em seu próprio conforto.

Alguém será capaz nesse país intranquilo política e espiritualmente, de levantar sua voz com autoridade para deter essa onda de loucura que lhe percorre, para que possa voltar a ser admirado e amado fora de suas fronteiras por sua capacidade de aceitar o estrangeiro, sua sensibilidade humana e sua alegria de saber viver sem guerras com todos sentindo-se respeitados e acolhidos?

Um pequeno exemplo de minha parte.

Quando há quase 20 anos cheguei como jornalista desse jornal ao Brasil o que mais me assombrou, após ter percorrido o mundo, foi a simpatia e até carinho com que nós estrangeiros éramos acolhidos. Hoje, até muitos leitores meus me pedem, mal-humorados, que volte para a Espanha. Não irei, ainda que sinta falta e me doa não ter mais aquele Brasil, que espero que esteja dormindo e anestesiado.

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