Greve tem adesão parcial e segue toada crítica contra a Previdência e o Governo Bolsonaro

Paralisação e bloqueios nas ruas de São Paulo culminam em ato na avenida Paulista. Enquanto isso, o ministro Paulo Guedes criava ruídos com o Congresso ao criticar parecer de relator

Manifestantes reunidos no Rio de Janeiro.
Manifestantes reunidos no Rio de Janeiro.RICARDO MORAES (REUTERS)

A babá Maria Silva, 50 anos, chegou cedo à estação de metrô Corinthians-Itaquera, na zona leste de São Paulo. Pronta para ir trabalhar, deu de cara com os portões fechados. “Eu já sabia que haveria greve, mas não sabia quem exatamente ia parar”, diz. Ela foi de ônibus até o Metrô e ficou mais de uma hora na estação esperando os portões se abrirem, até desistir e voltar para casa. Assim como Maria Silva, milhares de pessoas tiveram suas rotinas modificadas —bastante ou parcialmente— nesta sexta-feira, data em que trabalhadores de diversas categorias cruzaram os braços em ao menos nove Estados e o Distrito Federal contra a reforma da Previdência, em defesa da educação e por mais empregos.

De acordo com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), entidade que organizou a greve geral juntamente com Força Sindical e outras centrais, as paralisações afetaram ônibus, trens e metrôs, bancos e escolas “em mais de 300 cidades brasileiras”. As entidades estimam que 45 milhões pessoas aderiram à paralisação em todo o país, incluindo a totalidade dos bancários, trabalhadores portuários, fabris e as montadoras automotivas do ABC paulista. Não está claro como chegaram a esse número, que equivaleria a cerca de um quarto da população brasileira, mas não há outro tipo de contagem oficial. Nas ruas de São Paulo, o transporte público, em especial o Metrô, foi o setor mais afetado. “Acho que eles têm razão de fazer greve, mas deveriam parar tudo, não só algumas linhas”, diz Maria Silva. Apesar de apoiar a paralisação, ela confessa não saber exatamente a razão da greve. “Estão reivindicando alguma coisa, mas não sei o quê”.

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Na zona Sul de São Paulo a paralisação quase não se fez sentir. Durante a manhã, ônibus circulavam normalmente e a linha lilás do Metrô operou sem interrupções. Uma manifestação organizada pela Frente Povo Sem Medo, que agrega movimentos sociais, reuniu pouco mais de 200 pessoas, segundo a Polícia Militar, e marchou do terminal João Dias até o outro lado da ponte. Apesar da baixa adesão, Jussara Basso, 42, militante do MTST, defendeu a paralisação: "A população precisa ver que essa reforma não está aí para atacar privilégios de políticos e dos ricos". Ela criticou também alterações no programa de moradia Minha Casa Minha Vida propostas pelo Governo. O trânsito em São Paulo, um termômetro clássico da adesão a greves, ficou dentro da média até as 10h, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego. Após esse horário, houve um aumento nos congestionamentos, e a situação voltou ao normal por volta das 13h30.

Enquanto as ruas protestavam, o Governo de Jair Bolsonaro, também estava longe de celebrar o passo dado em prol da reforma da Previdência nesta quinta-feira, quando o relator da comissão especial que a analisa, o deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), apresentou seu parecer. A contraproposta dele, feita com base em discussões entre os parlamentares, não agradou o ministro da Economia, Paulo Guedes, por retirar pontos que para ele era cruciais da proposta enviada pelo Governo ao Congresso. Em entrevista, ele afirmou que o parlamento cedeu a lobby de servidores e que o novo relatório "pode abortar a Nova Previdência",especialmente por retirar do texto a proposta de capitalização que o economista tanto priorizava. "Eles [parlamentares] mostraram que não há compromisso com as novas gerações. O compromisso com os servidores públicos do Legislativo foi maior do que o com as novas gerações", afirmou no Rio após deixar um evento.

Além de retirar a capitalização da reforma, Moreira alterou o tempo de transição e retirou mudanças no BPC (Benefício de Prestação Continuada), aposentadoria rural e alterou o tempo mínimo de contribuição para mulheres. Mas manteve pilares considerados essenciais, como a idade mínima e a contribuição progressiva para servidores, prometendo uma economia de mais de 900 bilhões de reais. "As pressões corporativas de servidores do Legislativo forçaram o relator a abrir mão de 30 bilhões de reais para os servidores do Legislativo que já são favorecidos no sistema normal", acrescentou Guedes.

Coube a Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados e principal articulador da reforma na Casa —um papel que Bolsonaro renunciou a fazer—, rebater. "Nós blindamos a reforma da Previdência de crises que são, muitas vezes, geradas quase todos os dias pelo Governo. Cada dia um ministério gerando uma crise", disse o político. Ele reforçou a imagem do Congresso como "bombeiro" de uma gestão que é uma "usina de crises". Sozinho, ressaltou, o Executivo teria apenas 50 votos a favor da reforma. E elogiou Moreira. "Hoje, infelizmente, é o meu amigo Paulo Guedes, gerando uma crise desnecessária", acrescentou.

Oposição

Diante desse cenário, a oposição se dividiu entre a articulação da greve geral desta sexta e a estratégia para protelar ao máximo a data da votação da proposta na Câmara. Do outro lado dessa queda de braço, está a ala governista, que correrá contra o relógio para votar a proposta antes do recesso parlamentar, que se inicia na segunda quinzena de julho. Em São Paulo, à tarde, milhares de pessoas ocuparam alguns quarteirões da avenida Paulista —de forma bastante espaçada, com maior aglomeração em frente ao edifício da FIESP— para um ato convocado por partidos, sindicatos e movimentos sociais. Do carro de som, lideranças centravam seus discursos em três questões: contra a reforma da Previdência, que para elas deve ser retirada por completo apesar das mudanças "positivas" na Câmara; contra o ministro da Justiça Sérgio Moro, a quem pediam que renunciasse após o The Intercept ter publicado mensagens do então juiz com procuradores da Lava Jato; e pelo "Lula Livre" e a anulação de sua condenação.

"É evidente que é positivo que ter retirado das mudanças no BPC, a capitalização e ataques a aposentadoria rural. Mas nós queremos que retirem a idade mínima, o aumento no tempo de contribuição...", discursou Guilherme Boulos do carro de som. O líder do MTST também disse que "se a reforma quer combater privilégios", deve-se então aprovar impostos para grandes fortunas, cobrança para os devedores do INSS, entre outras medidas. "Hoje nós fomos às ruas contra a reforma da Previdência, mas não só. Fomos às ruas contra os cortes na educação e moradia. E também para dizer que não aceitamos o absurdo dos últimos dias. Sérgio Moro tem que sair, tem que pegar as malas e ir embora. Não tem condição moral e política pra continuar como ministro da Justiça. Se a lei é pra todos, que o Código de Processo Penal seja cumprido e que a sentença de Lula seja anulada", acresceu ele, que foi candidato à presidência pelo PSOL.

O ex-prefeito Fernando Haddad também discursou contra a nova Previdência, mas, ao contrário das outras lideranças, não se posicionou contra pontos específicos como idade mínima. Centrou seu discurso em Bolsonaro: "Qual é a moral de um presidente que se aposentou aos 33 anos de propor uma reforma da Previdência sem se sentar com os trabalhadores?", questionou. "E depois Bolsonaro ficou 28 anos no Congresso e não fez nada", acrescentou. Ele também afirmou que a reforma não atende aos anseios dos trabalhadores porque "pune" os mais pobres e "mantém os privilégios" dos que estão no andar de cima. "Se os empresários da FIESP assinassem a carteira dos trabalhadores, não ia ter déficit", discursou o ex-ministro da Educação e ex-candidato do PT à Presidência. "A FIESP congrega os sonegadores do país".

O discurso contra a reforma da Previdência se mostrou efetivo para a oposição na hora de mobilizar seus militantes nas ruas, mas o alcance da paralisação não parece se igualar aos dos dias 15 e 30 de maio. As ruas foram então tomadas de forma mais ampla contra os cortes na Educação, ainda que a crítica contra a reforma da Previdência também estivesse presente. Resta agora saber se a contundência nas ruas contra a Reforma será a mesma no Congresso, em um momento que até governadores da esquerda admitem a necessidade de alguma mudança.