Seleção feminina de futebol

Vadão, o contestado treinador da seleção feminina que vai para sua segunda Copa do Mundo

O escolhido pela CBF para trabalhar em seu segundo Mundial com o Brasil tem carreira modesta, perdeu nove dos últimos dez jogos e tratou a Jamaica como uma equipe africana

Vadão em treinamento da seleção brasileira.
Vadão em treinamento da seleção brasileira.Rafael Ribeiro (CBF)

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Oswaldo Alvarez, o Vadão, não está entre os nomes ou apelidos mais populares do futebol brasileiro. Apesar da longeva carreira no esporte, o treinador de 62 anos não acumula muitas glórias na profissão além de ser o responsável pelos primeiros minutos de Kaká no futebol profissional. Fora isso, ganhou um torneio Rio-São Paulo, alguns estaduais e passou por Mogi Mirim, Guarani, Ponte Preta, São Paulo e Corinthians. Na última semana, durante a convocação como treinador da seleção feminina para a Copa do Mundo, ele ganhou as manchetes ao analisar de forma equivocada a primeira adversária do Brasil no Mundial “a Jamaica é uma seleção que não foge ao estilo de jogo africano” e se defender dos péssimos resultados de sua equipe, que perdeu nove dos 10 últimos amistosos. Dono de uma carreira pouco expressiva, responsável por jogos recentes ruins do Brasil e autor de gafes ditas em público, Vadão chega à França para disputar sua segunda Copa pela seleção mais contestado do que nunca.

A confusão geográfica a Jamaica fica na América Central, não na Áfricanão foi o único momento polêmico protagonizado por Vadão naquela entrevista coletiva. Quando perguntado sobre as diferenças entre controlar um vestiário masculino e um feminino, o treinador não titubeou ao dizer que “é um pouco mais difícil acalmar mulheres do que homens”. “Achei que eu sabia lidar com mulher. Estou casado há 38 anos e tenho uma filha, mas quando você mexe com 30 é completamente diferente”, completou. As respostas, que trazem certos tons de despreparo e preconceito, despertam o questionamento sobre o que ele fez para merecer o cargo de treinador da seleção brasileira feminina.

Vadão era preparador físico do Mogi Mirim quando foi convencido pelo presidente do clube a ocupar o cargo de técnico, em 1991. O trabalho no interior paulista foi seu primeiro e mais longo da carreira do treinador, que permaneceu até 1994 lá e se tornou nacionalmente conhecido em 1992 pelo time apelidado de “Carrossel Caipira”. Se baseando no estilo de jogo da seleção da Holanda, conhecido como “carrossel holandês”, Vadão venceu a Copa Paulista daquele ano com o Mogi do jovem Rivaldo, futuro melhor do mundo e camisa 10 da seleção pentacampeã. Seu trabalho, no entanto, não foi o suficiente para colocá-lo em um grande clube nos anos seguintes; peregrinou por Guarani, XV de Piracicaba e Athletico Paranaense na década de 90.

O auge da carreira em clubes esteve entre 2000 e 2001, quando teve curtas passagens por Corinthians e São Paulo e venceu um Torneio Rio-São Paulo pelo último, revelando outro futuro melhor do mundo, camisa 10 da seleção e campeão da Copa: Kaká. Nos anos seguintes, dois clubes da mesma cidade marcaram a trajetória de Vadão: Guarani e Ponte Preta. Foram, ao todo, cinco passagens pelo time verde e quatro pelos alvinegros, sem perder sequer um dérbi nome dado ao clássico envolvendo as duas equipes de Campinas. Pelo Guarani, foi vice-campeão do campeonato brasileiro da segunda divisão em 2009 e vice do Paulistão de 2012. Estava treinando a Ponte antes de ser convidado pela CBF para assumir a seleção feminina pela primeira vez, em 2014. Demitido em 2016, assumiu o Guarani, de onde saiu para voltar ao cargo da seleção em 2017.

Quando foi chamado para dirigir as mulheres do Brasil pela primeira vez, Vadão substituiu Márcio Oliveira para ser o comandante da seleção na Copa do Mundo 2015 e Olimpíadas 2016. Caiu nas quartas da Copa, para a Austrália, e terminou em quarto nos Jogos do Rio. Na época, foi trocado por Emily Lima, a primeira mulher a assumir o comando da seleção feminina. Ela chegou com o discurso de aproximar o público da seleção e evoluir o esporte, com sete vitórias nos sete primeiros jogos. Acabou empatando um e perdendo os cinco jogos seguintes, entre eles, uma goleada por 6 a 1 para a Austrália. Foi a primeira treinadora desde 2004 a ser demitida com menos de um ano de trabalho na seleção feminina. Em entrevista posterior à sua demissão para a ESPN, Emily disse que nunca teve o apoio de Marco Aurélio Cunha, coordenador técnico de futebol feminino da CBF. “Ele [Cunha] diz que está em transição. Ia fazer uma transição com quem? Com o Vadão? Que não sabe nada de futebol feminino? Eu podia fazer uma transição com alguém que está há 20 ou 30 anos no futebol feminino, sendo que eu estou há 25”. Vadão, que havia sido demitido do Guarani, foi o escolhido para voltar.

Novo ciclo e má fase

Anunciado em setembro de 2017, Vadão tinha como primeira missão a Copa América, no início de 2018. Com sete vitórias em sete jogos contra seleções de um nível bem abaixo, o Brasil se tornou heptacampeão (em oito edições). Nos jogos mais exigentes em sequência, no entanto, as derrotas se tornaram frequentes. O Brasil jogou contra Austrália, Japão (duas vezes), EUA (EUA), Canadá, França, Inglaterra (duas vezes), Espanha e Escócia. Só ganhou uma vez, por 2 a 1, das japonesas. Os resultados deixaram a seleção em 10º lugar no ranking da FIFA. “O que vale é o presente: o Mundial”, se defendeu Vadão.

Após a nona derrota em 10 jogos, jogadoras e comissão técnica se reuniram para discutir melhorias antes da Copa do Mundo. Para Marco Aurélio Cunha, a conversa trouxe a certeza de uma boa campanha. “Faremos uma grande competição e somos candidatos ao título”, reforçou. No entanto, a seleção optou por não realizar nenhum amistoso preparatório antes do torneio na França, a única entre as 24 participantes a adotar esta estratégia. E, para aumentar a preocupação, Marta, principal jogadora e atual melhor do mundo da FIFA, se recupera de lesão na coxa esquerda a uma semana da estreia. Dores de cabeça que Vadão precisará superar caso queira ter um sucesso jamais visto em seus 30 anos de carreira.

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