Crise na Venezuela

Leopoldo López se refugia na Embaixada da Espanha em Caracas

Líder oposicionista venezuelano se dirigiu à legação diplomática após ser libertado nesta terça-feira por militares apoiadores de Juan Guaidó

Juan Guaidó (à esquerda), junto a Leopoldo López, se dirige à multidão nesta terça-feira
Juan Guaidó (à esquerda), junto a Leopoldo López, se dirige à multidão nesta terça-feira

O Governo espanhol confirmou nesta quarta-feira que o líder opositor venezuelano Leopoldo López, junto com sua mulher, Lilian Tintori, e uma filha se encontram na Embaixada da Espanha em Caracas, capital da Venezuela. Os três estão abrigados na residência do embaixador Jesús Silva Fernández, que constitui um território inviolável, como as embaixadas e consulados, de modo que o político não pode ser detido lá. Mas Lopez não pediu asilo, como confirmam fontes do governo espanhol.

Um dos dirigentes opositores mais perseguidos pelo chavismo, López cumpria pena de prisão domiciliar desde julho de 2017, quando foi condenado por incitação à violência. Ele foi solto nesta terça, 30, por militares venezuelanos apoiadores de Juan Guaidó, que foi declarado presidente interino do país. Os confrontos entre forças do Governo chavista e opositores deixaram cerca de cem feridos ao longo do dia. Tanto Guaidó como o Governo de Nicolás Maduro conclamaram a população a sair novamente às ruas nesta quarta-feira.

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A situação de López coloca a Espanha em apuros diplomáticos. Madri não rompeu relações com o regime de Nicolás Maduro, mas reconheceu Guaidó como presidente encarregado de convocar novas eleições. O ministro espanhol de Relações Exteriores, Josep Borrell, manteve sua agenda de trabalho habitual, com uma viagem à Jordânia prevista para esta quarta-feira.

Depois de dirigir-se inicialmente à embaixada do Chile em Caracas, López, sua mulher e uma das filhas – o casal tem outra filha e um filho – manifestaram seu desejo de ir à legação espanhola, e o Executivo de Pedro Sánchez deu seu aval a esse deslocamento.

O chanceler chileno, Roberto Ampuero, foi o primeiro a informar sobre esses movimentos. "Lilian Tintori e sua filha ingressaram como hóspedes na residência de nossa missão diplomática em Caracas. Há alguns minutos, somou-se seu cônjuge, Leopoldo López", disse Ampuero pelo Twitter.

Horas depois, Alberto Ravell, chefe do Centro de Comunicação Nacional, que funciona como assessoria de imprensa de Guaidó, informou no Twitter que Leopoldo López não tinha solicitado asilo ao Governo do Chile e já não se encontrava naquela residência diplomática. O próprio Ampuero atualizou na mesma rede social: "Lilian Tintori e Leopoldo López se transferiram para a Embaixada da Espanha. Trata-se de uma decisão pessoal, considerando que nossa Embaixada já tinha hóspedes".

Livre da prisão domiciliar

López explicou após sua libertação que os militares encarregados de vigiar sua detenção domiciliar tinham decidido dar as costas a Maduro e apoiar Guaidó. O líder opositor foi detido em fevereiro de 2014 e condenado em setembro de 2015 a cumprir uma sentença de quase 14 anos de detenção por formação de quadrilha, instigação e destruição de bens públicos, em episódios ligados a manifestações populares contra o chavismo. Esteve confinado na penitenciária de Ramo Verde até ganhar o benefício da “casa como prisão”, em julho de 2017

Economista, formado pela Escola de Governo John F. Kennedy, com mestrado em Políticas Públicas pela Universidade Harvard, Leopoldo López Mendoza nasceu em Caracas, em 29 de abril de 1971. Em 2000 fundou, com Julio Borges, Henrique Capriles Radonski, Carlos Ocariz e outros jovens dirigentes, o partido Primeiro Justiça, um dos símbolos da oposição ao Governo de Hugo Chávez. Obteve na época uma cômoda vitória como prefeito do município de Chacao, uma das jurisdições da classe média-alta em Caracas e um dos bastiões oposicionistas do país.

López é líder do Vontade Popular, partido fundado em 2009. Apesar da origem conservadora e acomodada de sua família e das influências de sua formação, o político se empenhou em dotar seu partido de uma identidade social-democrata como alternativa ao chavismo.

Por causa da origem espanhola da família, a Espanha concedeu nacionalidade aos pais de Leopoldo López – o Partido Popular (direita) inclusive inscreveu recentemente Leopoldo López, pai do líder oposicionista, como um de seus candidatos à eleição europeia de 26 de maio – e a outros familiares deles. Além disso, acolhe outros dirigentes da oposição, como Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas que fugiu da Venezuela, e o ativista Lorent Saleh, que foi liberado.

Manifestações no Dia dos Trabalhadores

Guaidó convocou nesta terça-feira "toda a Venezuela" a tomar as ruas coincidindo com a comemoração do 1º de Maio, numa "rebelião pacífica" para derrubar o Governo de Maduro. O presidente interino pediu aos venezuelanos que se manifestem pelo fim da “usurpação” da presidência pelo sucessor de Hugo Chávez.

Maduro, por sua vez, em sua primeira mensagem depois da libertação de López e após dar como derrotada a "escaramuça golpista" desta terça, convocou os venezuelanos a manterem a "resistência ativa" e a protagonizarem "uma mobilização de milhões" por ocasião do Dia do Trabalho.