Crise na Venezuela

Grupo de Lima se reunirá na sexta para discutir situação da Venezuela

Em nota, conglomerado de países pediu que Força Armada da Venezuela "mostre lealdade ao presidente Guaidó". Pelo Twitter, Bolsonaro reafirmou "seu apoio à transição democrática"

Juan Guaidó conversa com militares na base de La Carlota, em Caracas.
Juan Guaidó conversa com militares na base de La Carlota, em Caracas.CARLOS GARCIA RAWLINS (REUTERS)

O Governo brasileiro recebeu com satisfação e prudência o apoio público de militares a Juan Guaidó, reconhecido pelo Brasil e por mais de 50 países como presidente interino da Venezuela, mas logo no início da crise afirmou que queria saber quantos são e qual a dimensão desse respaldo. "Nos parece positivo que haja um movimento de militares na Venezuela que reconhecem a constitucionalidade do presidente Juan Guaidó. Cumprem seu dever constitucional de lealdade ao presidente legítimo", declarou em Brasília o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo. "Precisamos ver a dimensão disso (o apoio castrense)”, acrescentou o chanceler em Brasília, segundo o site G1.

O presidente Bolsonaro fez uma reunião de emergência nesta terça-feira, em Brasília, para abordar a situação no país vizinho. Participaram do encontro, além de Ernesto Araújo, o vice-presidente, Hamilton Mourão, que foi adido militar na embaixada de Caracas, e os ministros da Defesa, Fernando Azevedo, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno. Por meio de sua conta no Twitter, Bolsonaro afirmou que o Brasil "acompanha com bastante atenção" a situação na Venezuela e "reafirma o seu apoio na transição democrática". Já no final da tarde, afirmou que a situação "preocupa a todos", mas que "qualquer hipótese seria decidida exclusivamente pelo Presidente da República, ouvindo o Conselho Nacional." Na sequência, foi contrariado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também via rede social: "é competência exclusiva do Congresso Nacional autorizar uma declaração de guerra pelo Presidente da República".

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Em declaração à imprensa após a reunião, em Brasília, o general Augusto Heleno descartou intervir militarmente no país vizinho, embora o Brasil considere o Governo venezuelano "uma ditadura". “Não vamos intervir militarmente. É um preceito constitucional que o Brasil vai manter, de não interferir em assuntos internos”, afirmou. Ele ponderou que a ação desta terça-feira não parecia ter valor "qualitativo". Não teve nenhum chefe militar que a gente tivesse assistido ou ouvido em um apoio explícito ao presidente Guaidó”, completou.

Já o general Hamilton Mourão avaliou que a oposição venezuelana ao governo Nicolás Maduro partiu para o “tudo ou nada”. Quando indagado qual era o diagnóstico para a crise na Venezuela que escalou vários degraus, afirmou: “O Guaidó e o Leopoldo Lopez foram para uma situação que não tem mais volta, não há mais recuo. Ou eles vão presos ou o Maduro vai sair”.

O chanceler Araújo, que nesta segunda-feira havia se reunido em Washington com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, afirmou, após a mesma reunião, que era preciso "ser prudente" e manter “a pressão diplomática em todas as frentes” para “continuar avançando no processo deslegitimação de Maduro".

Desde o início, o Brasil deu apoio político a Guaidó, foi um dos primeiros países a reconhecê-lo como presidente interino, vem repetidamente exigindo o "restabelecimento da democracia” e tem sido ativo na ofensiva diplomática, mas participou sem muito destaque da operação de ajuda humanitária e, até agora, em conformidade com o Grupo de Lima, rejeitou o uso da força para derrubar o regime. Na noite desta terça, o Grupo, um conglomerado de países do continente americano, divulgou uma nota em que afirmou que irá se reunir na próxima sexta e renovaram o chamado à Força Armada da Venezuela para que manifeste sua lealdade ao Presidente Encarregado Juan Guaidó."

Fronteira

A fronteira entre o Brasil e a Venezuela está fechada há dois meses. Maduro decretou o fechamento em retaliação ao plano de Guaidó de introduzir caminhões com ajuda humanitária a partir de vários países vizinhos, um plano que fracassou. Os únicos dois caminhões com material sanitário e alimentos que se aproximaram da fronteira, na única passagem nos 1.200 quilômetros que os dois países compartilham, nunca conseguiram atravessar a barreira de agentes sob as ordens do regime chavista para entrar no país e distribuírem os artigos.

Como os demais países da região, o Brasil tem recebido um número crescente de venezuelanos que deixam seu país quase sem levar nada. No ano passado, foram cerca de 130.000 (dos quais três quartos pediram a regularização de sua situação); em 2017, chegaram 70.000.