“É preciso falar sobre pornografia em sala de aula desde a infância”

Pioneira no ensino de igualdade de gênero nas escolas da Islândia, Hanna Björg Vilhjálmsdóttir defende que a cultura pornô normaliza a violência no sexo e as crianças já estão expostas a ela

A professora islandesa Hanna Björg Vilhjálmsdóttir
A professora islandesa Hanna Björg Vilhjálmsdóttircarolina salas

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Pergunta. Como começou a dar aulas de igualdade de gênero?

Resposta. Pedi ao meu tutor, quando me contrataram, recém-formada, se eu poderia tentar um novo projeto sobre igualdade de gênero. Fui corajosa e insistente, e simplesmente o fiz.

P. Como se preparou para dar aulas sem que houvesse um programa específico?

R. Li alguns artigos, reuni vídeos e outros recursos para meus alunos. Mas, em primeiro lugar, e mais importante, conversei com eles. Usei o método do debate. Eu os fiz analisar a cultura popular na qual se movimentavam. Nós conversamos e nos ouvimos. Mostrei a eles o amplo espectro das relações de poder na sociedade e como a desigualdade é sistemática em todos os setores.

P. Qual foi o resultado?

R. Rapidamente me dei conta do bom material que tinha em mãos. Uma espécie de ovo de ouro. Os alunos responderam muito bem ao curso e me incentivaram a continuar. Então, comecei a divulgá-lo. Conversei com professores de sociologia e com a mídia, escrevi artigos...

P. Qual é a mudança nos estudantes no final do curso?

R. Eles adquirem óculos de gênero, que os tornam conscientes do ambiente cultural, do quão perigoso pode ser, e da misoginia existente. Como meninos e meninas (agora tenho mais gêneros, mas, para simplificar) são criados de maneira diferente, e eles se dão conta disso. O curso os prepara para se protegerem de uma cultura que causa danos, especialmente para as meninas. Os garotos aprendem a respeitá-las e a respeitar o que consideram feminino. A saúde sexual é importante também. Os alunos aprendem que a cultura do pornô é realmente sua inimiga, pois lhes ensina a normalização da violência no sexo. Eles acabam olhando de modo crítico o que o pornô realmente é.

A professora, durante uma aula em uma escola de Reykjavik
A professora, durante uma aula em uma escola de Reykjavikana alfageme

P. Além disso, o que mais se consegue?

R. Os alunos se empoderam. Aprendem que é importante identificar a si mesmos por suas habilidades e não por sua aparência. As garotas são treinadas para não se objetificarem. E os garotos aprendem a não olhar para elas como objetos. Não estou dizendo que todos os meus alunos fazem isso. Mas muitos fazem. Sei que o curso mudou a vida dos meus alunos em termos de fortalecê-los e adquirirem pensamento crítico, só para dar um exemplo.

P. Houve descobertas surpreendentes?

R. Sim, o interesse dos garotos. Agora o curso é obrigatório. Eu lhes perguntei se o teriam escolhido. Dizem que não, mas estão satisfeitos por terem feito. Apreciam o despertar que experimentaram. Porque ninguém quer ser mau e eles veem como a cultura em que vivem os faz maltratar meninas e mulheres, os ensina a serem sexistas. Veem o que há no pornô, como a prostituição é realmente horrível e coisas assim. E também descobri que o curso teve um significado muito importante para muitas meninas, que me disseram que mudou radicalmente a vida delas, para melhor. Elas mesmas, seus relacionamentos e sua visão do mundo.

P. Há resistências?

R. Sim, mas sinto que são cada vez menores. Sempre há vozes que proclamam que isso é feminismo extremista, sempre se disse isso. Mas a maior parte da resistência vem de pessoas (professores, estudantes e políticos de direita) que não sabem do que o curso trata.

P. Fez alguma pesquisa com os estudantes?

R. Não, mas dois estudos com professores. No entanto, sempre peço a meus alunos que escrevam no final de cada curso como o vivenciaram e que me digam se influenciou suas vidas e como. O resultado é claro. Sentem que o curso tem um enorme efeito neles, para melhor. A maioria me diz que nenhum curso foi tão importante para eles. Então, eu sei, já que a pesquisa mostra.

P. Em que idade se deveria começar a ensinar igualdade de gênero?

R. No jardim da infância. Você precisa desconstruir estereótipos em uma idade muito jovem. E esses cursos precisam continuar em todos os estágios educacionais, com diferentes perspectivas. Por exemplo, se os meninos começarem a assistir pornografia aos 11 anos, precisamos começar a falar sobre pornografia nessa idade.

P. Quais as diferenças entre garotos e garotas na experiência de aprender sobre igualdade de gênero?

R. A principal é que as garotas se empoderam e os garotos aprendem a respeitar mais as meninas. Além disso, eles aprendem como a chamada caixa da masculinidade (a socialização à qual os homens são submetidos, pela qual devem ser poderosos, sem medo e dominando as mulheres) é perigosa, por exemplo, quando se trata de demonstrar emoções. Eles não são ensinados a expressar emoções, exceto a raiva, e isso causa danos tanto a eles como aos que estão ao seu redor.