Tribuna
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A primavera do DEM

Com status de primeiro-ministro, partido caminha para ser peça estratégica na sustentação do Governo Bolsonaro

Na entrega da proposta da Nova Previdência, três democratas ao lado de Bolsonaro: o ministro Onyx Lorenzoni (E), e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (C), e do Senado, David Alcolumbre (D).
Na entrega da proposta da Nova Previdência, três democratas ao lado de Bolsonaro: o ministro Onyx Lorenzoni (E), e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (C), e do Senado, David Alcolumbre (D).Divulgação (Onyx Lorenzoni)

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As voltas que o mundo político dá é impressionante. O Democratas, aquele mesmo que o ex-presidente Lula tentou extirpar do quadro partidário brasileiro, retorna ao centro do poder com força invejável.

O partido preside, simultaneamente, as duas Casas do Congresso Nacional pela primeira vez na história: Rodrigo Maia na Câmara e Davi Alcolumbre no Senado.

É a única legenda com nome civil dentro do Palácio do Planalto (Onyx Lorenzoni na chefia da Casa Civil), além de comandar outros dois portentosos ministérios: Agricultura (Tereza Cristina) e Saúde (Mandetta).

O DEM, antigo PFL, ressurge das cinzas como uma fênix não por acaso. O avanço do partido é consequência direta da coesão programática cultivada na arena política. Foi a principal força partidária que se contrapôs sem nenhuma dubiedade ao modelo de governo petista durante longos 14 anos; agora, naturalmente, colhe os frutos.

Na oposição, capitaneou a derrubada da CPMF, a maior derrota política do governo Lula no Congresso; liderou a criação de CPIs marcantes, como a dos Correios e da Petrobras; combateu as tentações bolivarianas de alas do PT, como a tentativa de controle da imprensa e a busca de um terceiro mandato para Lula.

Distante do poder, o DEM passou anos na escassez, a pão, água e forte desidratação. Viu suas bancadas congressuais minguarem. Foi a legenda que mais perdeu parlamentares na década passada: uma sangria de 45 deputados federais entre 2003 e 2016.

O confronto com o PT lhe rendeu protagonismo nacional. Das poltronas do Parlamento, lideranças democratas reverberavam as mais ácidas críticas ao projeto de poder petista. A partir de 2013, ao contrário do que fez o PSDB, o partido mobilizou suas estruturas internas e tornou-se sócio dos protestos de rua que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff.

Hoje, após doze anos desde a mudança de nome, o DEM vive sua primavera. O início da virada foi sentido nas eleições municipais de 2016, quando o PT perdeu mais de 50% das suas prefeituras, enquanto o DEM cresceu 16% no número de cidades governadas. Desde 1996 o partido não apresentava crescimento no total de prefeituras conquistadas.

Das eleições de 2018, em contraposição ao desmanche dos grandes partidos nas urnas, o DEM emergiu como um dos poucos vitoriosos. Ganhou os governos de Goiás (Ronaldo Caiado) e Mato Grosso (Mauro Mendes), elegeu os vice-governadores de São Paulo e Mato Grosso do Sul e no geral comandará 10,3 milhões de habitantes. Em 2014, o partido não havia ganhado em nenhum estado.

Na Câmara Federal, foi o terceiro partido que mais progrediu quando comparado ao pleito de 2014, com crescimento de 38% no número de assentos. No Senado, conquistou a quinta maior bancada da Casa. Hoje, o partido lidera o maior bloco político da Câmara, com 301 deputados — algo inimaginável quatro anos atrás.

Com status de primeiro-ministro, o DEM caminha para ser peça estratégica na sustentação do Governo Bolsonaro, ofertando-lhe experiência, moderação e ímpeto reformista, característico da legenda.

Na era FHC, sob a liderança de Luís Eduardo Magalhães, o partido tornou-se peça-chave na aprovação de reformas para a modernização do país, como a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), a abertura econômica e a agenda de privatizações. No governo Temer, foi a única legenda da Câmara a entregar 100% dos votos favoráveis à reforma trabalhista.

Hoje, como na época do “pefelê”, o Democratas será o principal fiador das reformas estruturais no Congresso Nacional, sobretudo a da Previdência — a mais urgente de todas no atual cenário.

Não é pequena a oportunidade que se apresenta ao partido. Com expertise política acumulada, o DEM pode ocupar o espaço partidário que já foi do PSDB e do PT e encabeçar um novo polo político, distante de radicalismos ideológicos, capaz de entregar estabilidade institucional, governabilidade e convicção na aprovação de reformas liberalizantes.

De credencial reformista e visão doutrinária liberal, o Democratas pode ser o próximo centroavante da política nacional. A conferir.

Murilo Medeiros é cientista político (UnB) e assessor legislativo no Senado Federal. É pós-graduando em Democracia, Direito Eleitoral e Poder Legislativo pelo Instituto Legislativo Brasileiro (ILB).

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