Maduro volta a acusar oposição de sabotagem no sistema elétrico e diz que fará justiça

Depois de quatro dias de apagões, transporte interrompido e comércio fechado, Assembleia Nacional declara “estado de emergência”

Pai e filhos carregam galões de água em Caracas
Pai e filhos carregam galões de água em CaracasH. GUERRERO

Nicolás Maduro insiste que a grave crise do sistema elétrico que afeta a Venezuela desde a última quinta-feira, 7, foi causada por sabotagem incentivada pela oposição. O presidente venezuelano prometeu justiça e criticou os supostos autores intelectuais do blecaute, que descreveu como "golpe eletromagnético".

"Somente através da justiça consolidaremos a paz, somente através da justiça haverá paz na Venezuela. E acredito que chegou a hora da justiça. Justiça contra o responsável por este ataque criminoso contra o sistema elétrico venezuelano. Seus líderes internos", enfatizou na noite de segunda-feira, em pronunciamento no Palácio de Miraflores.

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Embora não tenha especificado quando o serviço será normalizado, depois de ter sido parcialmente restabelecido no domingo, Maduro mostrou-se convencido de que "nos próximos dias" vencerá o que considera uma batalha contra a interferência dos Estados Unidos. Nesse contexto, convocou uma "resistência ativa" por parte das organizações de base do chavismo, incluindo forças de choque conhecidas como coletivos. Maduro informou que já há duas pessoas presas pelo ocorrido e acusou o Parlamento, presidido por Juan Guaidó. "Houve um grave crime de traição à pátria; este ataque foi uma tentativa de gerar um estado de desespero, de necessidade geral, de confronto entre venezuelanos e de justificar, a partir da Assembleia Nacional oligárquica, opositora, um chamado para uma intervenção militar norte-americana e uma ocupação de nosso país", disse.

Fazia referência à possibilidade de que a Câmara, que na manhã de segunda-feira declarou "estado de emergência em todo o território nacional", aplique o artigo 187 da Constituição. Seria uma fórmula para abrir as portas ao pedido de intervenção internacional, já que um de seus itens autoriza a atuação de "missões militares venezuelanas no exterior ou estrangeiras no país". O protagonismo dos EUA nesta crise tem contribuído para alimentar esse fantasma desde o início e também deu um argumento para o regime, que insiste em culpar a Administração de Donald Trump por todos os reveses do país.

A emergência, após quatro dias de apagão, interrupções no sistema de transporte e comércio fechado, provocou uma tensão social. Em meio à batalha entre o chavismo — que atribui a falta de eletricidade à sabotagem dos EUA — e a oposição — que responsabiliza o sucessor de Hugo Chávez e sua gestão —, milhões de venezuelanos se preocupam com o que é urgente: além da escassez de alimentos, agravada pela situação, na segunda-feira a população passou a enfrentar uma preocupante falta de água. Diante do caos, ocorreram vários saques e tentativas de assalto em Caracas. Desesperadas, dezenas de pessoas se abasteceram com água do poluído rio Guaire.

Nesse contexto, Guaidó solicitou ao poder legislativo que declarasse estado de emergência, "como modalidade do estado de exceção" e deu ordens às forças armadas e de segurança que, apesar das centenas de deserções, continuam, em sua maioria, leais a Maduro. Guaidó exigiu que não reprimissem os protestos dos cidadãos e que protegessem as instalações da rede elétrica. O presidente da Assembleia também instruiu seus representantes no exterior a buscarem cooperação internacional e exigiu a colaboração de funcionários do Estado. Guaidó, reconhecido como presidente interino da Venezuela por mais de 50 países, procura demonstrar a utilidade das iniciativas da oposição. No entanto, suas consequências ainda são eminentemente simbólicas, já que Maduro mantém as rédeas dos recursos da Administração.

Guaidó também convocou novas manifestações em todo o país nesta terça-feira, com a intenção de manter nas ruas o enfrentamento contra o Governo chavista. "Amanhã [terça-feira], às 3h da tarde [14h em Brasília], toda a Venezuela deve ir às ruas", disse o presidente da Assembleia Nacional. "Não há normalidade na Venezuela, e não vamos permitir que a tragédia se normalize", afirmou em referência à crise sem precedentes que afeta o país. "Por isso, o decreto", completou.

ONU envia delegação a Caracas

Uma missão do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos chegou neste fim de semana à Venezuela, a fim de realizar reuniões com vários representantes do país, incluindo membros do Governo de Nicolás Maduro e do Parlamento, liderado por Juan Guaidó, segundo a agência EFE. Nesta segunda-feira, a missão se encontrou com o chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza.

Segundo um comunicado da ONU, a missão oficial tem como objetivo "garantir que a alta comissária [Michelle Bachelet] obtenha acesso irrestrito a todas as pessoas e lugares que queira visitar, a fim de obter uma clara visão da situação dos direitos humanos no país"