Crise Política na Venezuela

Abandono e corrupção no sistema elétrico da Venezuela, os culpados pelo apagão que deixou o país na escuridão

A falha na central hidrelétrica de Guri e a incapacidade do Governo Maduro de construir um sistema termoelétrico alternativo provocam o maior corte de energia das últimas décadas

Hospital Miguel Perez Carreno, em Caracas, sob a penumbra durante o apagão que deixou maior parte da país sem luz nesta sexta-feira.
Hospital Miguel Perez Carreno, em Caracas, sob a penumbra durante o apagão que deixou maior parte da país sem luz nesta sexta-feira.MATIAS DELACROIX (AFP)

A maior parte da Venezuela ficou sem energia por mais de 24 horas, no que já é o maior apagão das últimas décadas. A falta de fornecimento afeta hospitais –a infraestrutura mais sensível à queda de energia– e a refrigeração de alimentos, levou à suspensão das aulas nesta sexta-feira, deixou sem abastecimento de água milhares de lares, causou interrupções na rede telefônica –voz e dados– e provocou o cancelamento de voos no aeroporto de Caracas. A falta de luz em uma das capitais mais violentas do mundo tem outro ingrediente: o pânico quando cai a noite. A população encontra as ruas às escuras e não tem um celular para ligar em caso de emergência.

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Mas nem sempre foi assim. A Venezuela foi durante várias décadas a nação que mais produzia eletricidade na América Latina e com maior cobertura territorial na região. Mas a situação mudou: o colapso atual da rede revela grandes problemas de investimento e na concepção e implementação dos planos para atualizar o sistema elétrico, como também uma grave deterioração da infraestrutura do país, que sofre uma das maiores crises econômicas no mundo até o momento no século XXI. Apesar das alegações de sabotagem, o blecaute foi precedido por vários sinais sem resposta que chegaram ao próprio presidente Nicolás Maduro. O mais recente, há poucos dias: um corte de energia no próprio Palácio de Miraflores durante uma coletiva de imprensa.

Os apagões, uma dor de cabeça nacional, tiveram um enorme impulso depois da saída de empresas privadas e regionais do negócio. Depois do fracasso nacional no fornecimento que ocorreu em 2007, produto de uma sobrecarga do Sistema Elétrico Nacional, Hugo Chávez anunciou a criação, em 2008, da Corporação Elétrica Nacional (Corpoelec). Com ela os serviços elétricos do país foram centralizados e também teve início uma progressiva decadência do serviço.

Mas a falta de investimento, o êxodo de profissionais qualificados, a má gestão do sistema de eletricidade venezuelano e a incapacidade da rede de centrais termoelétricas que deveria atuar como respaldo quando houvesse queda do fornecimento da hidroelétrica de Guri (a maior do país, no Estado de Bolívar) agravaram a situação a ponto de que se tornou impossível prever quando a energia retornaria às residências e ao comércio.

Todos os olhares estão voltados desde quinta-feira para a represa do Guri, construída há quatro décadas como um dos maiores projetos hidrelétricos do mundo e, de longe, a maior geradora de energia do país –embora a ausência de dados oficiais confiáveis impossibilite o cálculo de quanta energia gera hoje. É a origem do apagão nesta quinta e sexta-feira: apenas 11 das 20 turbinas de geração de energia estão em funcionamento, de acordo com dados de Leonardo Vera, professor da Escola de Economia da Universidade Central da Venezuela (UCV). "O sistema vem arrastando problemas importantes há muitos anos", diz esse especialista em políticas públicas. Diego Moya-Ocampo, da consultoria de riscos IHS, concentra a sua análise na falta de investimento em energia hidrelétrica e nos projetos fracassados no setor da energia termelétrica, que deveria fornecer suporte para o sistema ante o colapso do Guri. "A partir do momento em que Chávez começa a estatizar as empresas de eletricidade, tem início um processo de falta de investimento e manutenção em toda a rede", enfatizou, por telefone.

A falta de investimento é mais perceptível no Guri: a escassez de recursos destinados à manutenção e melhorias nos últimos anos resultou em "vários colapsos" desde 2010. "No entanto, este é o colapso de maior escala: não foi só Guri que falhou, mas também os sistemas alternativos", acrescenta Moya-Ocampo. "Simplesmente não está gerando o suficiente para atender a demanda". O Governo de Maduro, que através de dois ministros e da empresa pública Corpoelec atribuiu a falta de energia a supostas "sabotagens", prometeu na quinta-feira à noite o pronto restabelecimento do fornecimento. Mas depois do meio-dia de sexta-feira, a corrente ainda não tinha voltado ao normal.

A falta de investimentos e manutenção, o fator mais repetido desde que grande parte do país com as maiores reservas de petróleo do mundo ficou sem eletricidade, no meio da tarde de quinta-feira, explica, no entanto, apenas parte do problema: "Seria uma simplificação dizer que é unicamente por isso. A falta de investimentos tem sido importante nos últimos anos, mas os problemas remontam a um período bem mais atrás”, diz Vera, da UCV. A debacle na Edelca –que chegou a ser a principal companhia de eletricidade na Venezuela e operava a maior parte das quedas d´água do país–, “de onde saíram profissionais extraordinários", diz ele, agravou o êxodo em massa de especialistas.

A saída dos trabalhadores –engenheiros e gerentes, entre outros– não afeta apenas este setor: em meio ao agravamento dos problemas econômicos, que acabaram levando a uma crise humanitária com consequências para todas as camadas da população, cerca de 3,4 milhões de pessoas deixaram a Venezuela nos últimos anos, buscando refúgio em outros países da região, na Europa ou Estados Unidos. Nesta sexta-feira, a Organização dos Estados Americanos (OEA) elevou o número de emigrantes venezuelanos para mais de cinco milhões entre 2015 e 2019.

A mudança no modelo de gestão do sistema elétrico venezuelano também desempenha, segundo os analistas consultados, um papel preponderante na crise da eletricidade. "O chavismo acabou com um modelo de gestão descentralizado, com diferentes empresas elétricas, algumas privadas, e centralizou tudo na Corpoelec, um elefante gigantesco com grandes problemas para administrar um sistema extremamente complexo", complementa Vera. Entre 2004 e 2014, diz, as autoridades venezuelanas fizeram grandes investimentos em usinas termelétricas. Mas 50% dessas centrais estão inoperantes por várias razões: "Corrupção, projetos inacabados por causa da falta de recursos ou estimativas precárias dos recursos necessários, improvisação ou pressão dos burocratas cubanos no projeto do sistema."

Algumas das denúncias de corrupção mais conhecidas no debate público nacional dizem respeito ao superfaturamento e compra de equipamentos utilizados pelas usinas termelétricas da Corpoelec. Héctor Navarro, ex-membro do PSUV, ministro da Energia Elétrica, é um deles. Em cidades como San Cristóbal e Maracaibo os cortes no fornecimento de energia atualmente são de até 15 horas.

Recentemente, funcionários da empresa de energia elétrica, a Corpoelec, denunciaram os “salários de fome” que recebem e as péssimas condições das instalações. Damarys Cervantes denunciou no canal de TV VPI, em Puerto Ordaz, que "temos as botas descoladas, não temos capacetes e não temos os equipamentos mínimos para fazer a manutenção". Cervantes, acompanhada por um grupo de trabalhadores da empresa, fez diante das câmeras um retrato duro da situação em que estão as instalações elétricas e a perseguição contra os funcionários que fizeram essas denúncias e que, afirmou, tiveram os salários “bloqueados”.

Os trabalhadores, que mostraram sua simpatia por Juan Guaidó, insistiram há 15 dias que o atual sistema elétrico "está no chão" e que eles não têm peças de reposição suficientes para enfrentar um apagão, como resultado da "corrupção" e da inutilidade dos dirigentes responsáveis na central, declarou José Cedeño, um funcionário com mais de 30 anos de trabalho na empresa pública.

Nessa situação, quando o sistema hidrelétrico sai de operação ou não aguenta por algum motivo, as usinas termelétricas (que funcionam com gás, diesel e outros combustíveis fósseis) deveriam operar com potência total para fornecer a energia que as cachoeiras aportam. "Isso é o que deveria ter acontecido [quinta e sexta-feira], mas não foi assim", acrescenta Vera.

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