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A mecenas que levou a obra de 16 brasileiros ao Museu Reina Sofía, na Espanha

Patricia de Cisneiros, colecionadora venezuelana que fez a doação museu de Madri, afirma que nenhum local pode mais ignorar a arte do continente. “Tenho a sensação de missão cumprida"

Museu Reina Sofía
'Autorretrato' (1999), obra do escultor Angelo Venosa.
Madri / São Paulo

Há pouco mais de um ano, Patricia Phelps de Cisneros (Caracas, 1947) dividiu 202 obras de artistas latino-americanos entre seis museus internacionais entre os quais se incluía o MoMA, com 88 peças, e o espanhol Museu Reina Sofía, com 39. O museu espanhol é de novo beneficiado com um conjunto de 45 obras de 33 artistas surgidos a partir de 1990. A maioria é de artistas venezuelanos e de 16 artistas brasileiros. A colecionadora, que nunca quis catalogar quantas obras possui e seu valor econômico nos depósitos de Caracas e Nova York, cidade em que mora, confessa que fica muito feliz ao ver como hoje “nenhum museu de arte moderna e contemporânea pode mais ignorar a arte latino-americana”. “Foi um longo caminho, mas tenho uma sensação de missão cumprida”.

O Museu Reina Sofía, localizado em Madri, afirma que essa nova doação enriquece notavelmente a coleção, ao mesmo tempo em que significa um impulso ao projeto de pesquisa realizado sobre os movimentos artísticos surgidos na América Latina da década de sessenta até hoje. No conjunto de obras se destacam peças da década de noventa e dos primeiros anos do século XXI. Esse caráter contemporâneo é justamente o menos representado dentro da coleção de arte latino-americana do museu.

Entre os artistas brasileiros cujas obras foram doadas está Rubens Gerchman (1942), um pintor e escultor profundamente influenciado pela arte concreta e neo-concreta e ligado à arte psicodélica e pop-art. Suas obras tratam de diversos temas, do isolamento urbano e alienação, até a localização geopolítica da América Latina, e a que chega ao museu espanhol é o poema Burnt Perfume(1971), escrito quando Gerchman vivia em Nova York e participava dos movimentos artísticos de negação da pintura.

O escultor Angelo Venosa (1954) é outro dos brasileiros que estreia no Reina Sofía. Um dos poucos escultores a fazerem parta da Geração 80, movimento que revalorizou e os gestos espontâneos dos artistas, principalmente através da pintura. Sua obra incluída no conjunto doado é Autorretrato, de 1999.

Na obra titulada Sem (1992), outra que faz parte da coleção, o mineiro Marcos Coelho Benjamim (1952) utiliza materiais usados e superfícies ásperas e gastas para criar esculturas e instalações tridimensionais que valorizam a cultura popular de Minas Gerais, a tradição do estado no trabalho artesanal com a reutilização de materiais encontrados na rua. Já pernambucana Ester Grinspum (1955) procura em sua obra, tanto escultural quanto em seus desenhos, uma interioridade que se opõe à clareza e à lógica construtiva ligada à modernidade. Ela usa um vocabulário deliberadamente subjetivo, constituído tanto por ícones de sua própria criação como por aqueles da história da arte. Dois trabalhos em papel de 1997 compõem a doação para o museu espanhol. 

Valeska Soares (Belo Horizonte, 1957) destaca-se na vanguarda brasileira desde o final dos anos oitenta até início dos anos noventa. Desde 1992, seu trabalho está posicionado em múltiplas plataformas, com foco em questões como o mundo globalizado na arte, geografia, identidade cultural e nacional, disciplina ou forma. Sem título (from Detour), de 2005, e Wishes 22 (1996) são as obras que passaram a fazer parte da coleção espanhola.

O trabalho do gravador e escultor Mauricio Ruiz (1958) constitui-se do constante questionamento que o artista faz a si mesmo por meio do material e as cores que ele proporciona, investigando os mecanismos que usamos para reconhecer-nos uns aos outros, seja em nossas tradições, em uma comunidade ou simplesmente como um indivíduo, como expressa a obra de 1995 doada ao museu. 

'Dead, No No Model # 2', de Fabián Marcaccio. ampliar foto
'Dead, No No Model # 2', de Fabián Marcaccio.

O pintor, desenhista e mestre da gravura Massa Paulo (1959), um dos principais pintores da cena de São Paulo na década de 1990, é outro dos artistas nacionais que integram a coleção. Ele trabalha a abstração desde uma perspectiva afetiva e poética, como demonstra o quadro de 1995 que compõe a coleção. Já Fernanda Gomes (1960) utiliza materiais recicláveis, móveis abandonados ou objetos do cotidiano e suas obras estão intimamente relacionadas aos espaços em que se desenvolvem. No caso da obra de 1994 em exposição, ela compôs a obra usando apenas papel e fio.

O pintor e escultor paulistano Nuno Ramos (1960) é um artista versátil que utiliza diferentes suportes e materiais que combinam gravura, pintura, fotografia, instalação, poesia e vídeo. O livro-arte Balada (1995) é um exemplo disso. A mineira Rosângela Rennó, entretanto, (1962) usa fotografias de arquivos públicos e privados para questionar a natureza da imagem e seu valor simbólico, como em Sem título (XXYX) -in oblivionem, de 1994. Muito interessada na imagem descartada e sua apropriação, Rennó tenta imitar os hábitos de uma colecionadora, reunindo imagens diferentes.

O paulista Edgard de Souza (1962) experimenta com a criação de objetos tridimensionais, desenho, gravura e pintura, produzindo objetos que exploram a forma humana e aproximando-se de uma imaginação surrealista que provoca, ao mesmo tempo, sensações de familiaridade e estranhamento. Já Paulo Climachauska (1962) combina desenho e pintura e investigar a relação entre arte, economia e sociedade e argumenta que a linha não é um traço, mas uma sequência matemática que nos permite refletir sobre as conexões entre o valor do trabalho artístico e sua função social. Rosana Palazyan (1963) experimenta com várias técnicas que atravessam diferentes escalas —desde bordado e desenho até instalações urbanas— para criar trabalhos que exploram como a narrativa é construída sobre os pequenos detalhes. Em sua obra de 1994 doada ao museu, utilizou tecidos queimados e bordados.

O trabalho de Irã do Espírito Santo (1963) mostra uma sutil subversão do minimalismo através de elementos abstratos do cotidiano. Como em Tomogramas (1995), Espírito Santo lida com os atributos táteis dos materiais escolhidos e seus contornos sensuais de simples formas abstratas no espaço.

Explorando a dicotomia entre o original e a série (entre o contínuo e o descontínuo), as pinturas esculturais de Marcia Thompson (1968), como Transparente(1996) reclamam um olhar não uniforme, capaz de perceber as singularidades dentro de um todo aparentemente homogêneo. Já José Damasceno, último brasileiro a entrar na coleção, criou uma nova linguagem, sem sacrificar, no entanto, a influência de seus antecessores, como Lygia Clark, Hélio Oiticica ou Cildo Meireles. Ele combina uma poética sensorial e interativa com um universo pessoal, marcado por suas referências no surrealismo e o uso frequente do humor. Faz parte da coleção com os trabalhos 2 estudos sobre 1 dimensão perdida (1996) e A carta (nó) (2005).

A mulher mais influente do mundo das artes

A colecionadora venezuelana, em uma imagem de arquivo.
A colecionadora venezuelana, em uma imagem de arquivo.

Ángeles García, Madrid

Patricia Cisneros, esposa do poderoso empresário venezuelano Gustavo Cisneros, é considerada uma das pessoas mais influentes no mundo da arte contemporânea e ocupa a posição número 28 na lista anual da revista Art Review. “É um conjunto de obras representativas de diferentes países e momentos da arte contemporânea latino-americana das últimas três décadas”, diz a mecenas. “O conjunto se define por sua diversidade: existem obras conceituais, figurativas, abstratas, instalações, uma grande variedade que para mim é fator de definição da arte atual”. Na entrevista realizada por e-mail preferiu não responder às perguntas relacionadas à complicada situação vivida pela Venezuela.

Pergunta. Quando no ano passado a senhora dividiu 202 obras entre diferentes museus internacionais afirmou que seu objetivo era fazer com que a arte latino-americana tivesse o lugar que lhe cabe no mundo. Está conseguindo?

Resposta. Acho que se trata de uma mudança histórica a maneira como as instituições foram ampliando e diversificando seu cânone. É um processo longo, com muitos atores, da academia, ao mercado, aos diretores e curadores dos museus. Fico muito feliz em ver que hoje nenhum museu de arte moderna e contemporânea pode ignorar a arte latino-americana. Foi um longo caminho, mas tenho a sensação de ‘missão cumprida’.

P. A senhora tem uma ideia clara do relato que quer conquistar para a arte latino-americana no Reina Sofía?

R. As coleções têm vida longa, e é normal que em cada gestão sejam valorizados aspectos diferentes. Por isso é importante pensar a longo prazo, e ter uma coleção ampla e diversa para poder funcionar em relatos diferentes.

P. A senhora escolheu as obras doadas de acordo com o diretor do Reina Sofía ou a seleção é o resultado de seu gosto pessoal?

R. As doações são sempre feitas a partir de um longo diálogo com os diretores e conservadores das instituições, e foi assim também com o Reina Sofía.

P. A senhora não costuma falar de compensações fiscais por seu gesto. Há alguma espécie de benefício econômico?

R. Nenhum. Não recebemos nenhum benefício fiscal pelas doações.

P. Na última vez em que falou com o EL PAÍS, a senhora afirmou que ficaria muito satisfeita se seu gesto ajudasse a encorajar a generosidade de outros colecionadores e contribuísse para que a necessária Lei do Mecenato na Espanha fosse uma realidade. Um ano depois e continuamos na mesma. O que acha?

R. Evidentemente é muito importante que exista um incentivo às doações, tanto para empresas como para particulares, e espero que saia do papel.

P. A senhora teve a ocasião de conhecer pessoalmente os artistas que fazem parte da doação?

R. Pude conhecer quase todos os artistas da coleção, e é um dos aspectos que mais gosto em ser colecionadora: poder conhecer os artistas. Admiro muito qualquer pessoa que se dedique a ser artista, acho admirável de todos os pontos de vista. Os artistas são os precursores do futuro.

P. Os artistas venezuelanos estão amplamente representados. O que eles têm em comum?

R. A Venezuela sempre foi um foco importante da coleção, por nossa origem e compromisso com o país. A seleção que vai ao Reina Sofía é bem representativa da arte venezuelana da década de 1960 até hoje, e é possível criar um relato das principais tendências que surgem desde o auge da arte geométrica nas décadas de 1950 e 60. Hoje a arte venezuelana tem uma presença importante em todo o mundo pela diáspora recente, mas sempre foi uma produção em diálogo com a arte internacional, e essa visão cosmopolita talvez seja uma constante através do tempo.

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