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A arte que resistiu à mácula da ditadura

A mostra Resistir é Preciso, no Rio de Janeiro, pretende lançar um foco de luz sobre o papel desempenhado por artistas que se empenharam contra a truculência do regime militar

Obra em exposição na mostra Resistir é Preciso.
Obra em exposição na mostra Resistir é Preciso. CCBB

Os anos da ditadura e de chumbo no Brasil (1964-1985) deixaram a impressão indelével da mesquinharia e da ignomínia do ser humano. Rios de tinta correram para encobrir a clandestinidade política e a imprensa de resistência, os movimentos estudantis ou um cenário musical que cobrou um protagonismo indiscutível entre os jovens da época. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré encarnaram a perseguição e o exílio das vanguardas artísticas. O assassinato do jornalista Vladimir Herzog em 1975 pelas mãos de militares no interior de um presídio de São Paulo representou a gota que transbordou o copo, o ponto de inflexão a partir do qual a ditadura começou a fazer água, pressionada por um crescente clamor social que exigia anistia e democracia.

No entanto, o cenário artístico desses anos pouco tinha sido abordado até agora. Muitos foram os criadores brasileiros que se empregaram a fundo em combater a truculência do regime militar. A mostra Resistir é Preciso, idealizada pelo Instituto Vladimir Herzog e organizada pelo Banco do Brasil, pretende lançar um pouco de luz sobre o papel desempenhado por um punhado de artistas plásticos que resistiram a olhar para o outro lado.

“Nos anos sessenta se volta a uma nova figuração que reflete os grandes assuntos da atualidade. Era uma arte que falava de seu tempo. Também foi um momento de mudanças nos costumes: a abertura na sexualidade ou o protagonismo da mulher na sociedade surgem nesse período. A arte se embebe desses elementos e surgem movimentos contra a burguesia e contra a ditadura militar”, explica Fabio Magalhães, curador da mostra.

Durante esses anos, o artista Claudio Tozzi (autor do painel em homenagem a Che Guevara, “Guevara Vivo ou Morto”, atacado por radicais adeptos do Governo militar) subia nos telhados do centro do Rio de Janeiro e deixava nas marquises pilhas de panfletos com desenhos de sua autoria convocando para mobilizações contra a ditadura. O vento fazia o trabalho de distribuição da propaganda entre os pedestres, e dessa forma Tozzi minimizava o risco de ser parado e acusado de subversão.

Celebradas obras de Hélio Oiticica (Seja Marginal, Seja Herói), Ligya Pape (Língua Apunhalada) ou Claudio Tozzi (Multidão) alternam-se com as cédulas de um cruzeiro (a moeda brasileira da época) engendradas por Cildo Meireles e nas quais o artista imprimiu a irônica pergunta: “Quem matou Herzog?”.

Uma das pequenas joias da mostra é a coleção de obras produzidas por Alipio Freire, Carlos Takaoka e Sérgio Sister com os rudimentares materiais disponíveis no interior do presídio Tiradentes. Nenhum deles era artista plástico reconhecido na época nem imaginava que suas produções em reclusão acabariam fazendo parte da memória viva da ditadura.

Obras assinadas por nomes de referência como Carlos Vergara ou Ivan Serpa também estão presentes na exposição que já passou por Brasília e São Paulo e que, após fechar sua agenda no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, em 28 de abril, será definitivamente encerrada em Belo Horizonte.

A obra “Lute” de Rubens Gerchman é um dos pontos altos da exposição. Trata-se de uma escultura formada por quatro letras vermelhas de grande dimensão. A ideia original consistiu em que a palavra Lute (Luta) passeasse a bordo de um caminhão pelo centro do Rio no horários de pico de entrada e saída do trabalho. Uma seleção de imagens dos fotojornalistas Luis Humberto e Orlando Brito servem de antessala para a brilhante e emotiva parte final da mostra, assinada pelo próprio Fabio Magalhães. Trata-se de uma instalação de vídeo na qual mais de 450 nomes de mortos e desaparecidos durante a ditadura (até agora foi a lista oficial, embora se presuma que a Comissão da Verdade a ampliará a milhares de pessoas mais) desfilam e caem sobre uma montanha desordenada de palavras, para acabarem perdendo-se no ar.

“Queremos destacar a importância da memória. Não podemos deixar que esses crimes caiam no esquecimento. Por que a polícia brasileira é tão violenta? Por que existe uma Comissão da Verdade? Os jovens têm de olhar para trás para entender o presente”, explica Ivo Herzog, diretor-executivo do instituto que leva o nome de seu pai.

A exposição, que também inclui abundante material jornalístico da época e uma extraordinária coleção de cartazes com apelos à resistência, transcorre por uma linha do tempo ou cronologia visual na qual o público pode situar rapidamente os episódios fundamentais da ditadura brasileira e o contexto internacional. Uma grandiosa citação abre e fecha o percurso: “Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra os outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados” - Vladimir Herzog.