Presidente espanhol convoca eleições gerais para o dia 28 de abril

Rejeição dos independentistas catalães aos Orçamentos Gerais foi decisiva para provocar o final antecipado da legislatura de Pedro Sánchez

Pedro Sánchez nesta quinta-feira
Pedro Sánchez nesta quinta-feiraSebastián Mariscal (EFE)

A etapa de Pedro Sánchez no poder já tem data para um ponto final ou para sua consagração definitiva: as próximas eleições gerais na Espanha serão em 28 de abril. O presidente do Governo anunciou a convocação nesta sexta-feira, apenas oito meses e meio após chegar ao cargo graças à moção de censura que destituiu Mariano Rajoy. Os independentistas catalães, cruciais para levar o socialista Sánchez ao Governo, foram decisivos também em provocar o final antecipado da legislatura, com sua rejeição aos Orçamentos Gerais. Os Governos da Espanha e da Catalunha negociaram uma saída para a crise institucional nessa região, mas a recusa de Sánchez em ultrapassar a linha vermelha da autodeterminação rompeu o diálogo. A partir daí, os partidos independentistas PDeCAT e ERC cumpriram sua ameaça e não apoiaram as contas governamentais. Sánchez optou por antecipar as eleições. “Um Governo tem a obrigação de cumprir sua tarefa: aprovar leis, governar, avançar. Quando alguns partidos bloqueiam a tomada de decisões, é preciso convocar eleições”, declarou por volta de 10h30 (7h30 em Brasília) no palácio de La Moncloa, sede do Poder Executivo em Madri, como conclusão de um longo discurso no qual criticou “a crispação” e defendeu o diálogo com os independentistas, “sempre dentro da Constituição”.

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Nada na política deixa Pedro Sánchez e seu guru Iván Redondo mais nervosos do que perder a iniciativa. Desde a quinta-feira passada, quando decidiram recuperá-la e La Moncloa deu um ultimato aos independentistas, os acontecimentos se precipitaram numa velocidade vertiginosa, e sempre com os prazos sendo ditados por Sánchez e sua equipe, que viveram a pior semana de seu mandato e tentaram estancar a sangria com uma aposta muito arriscada: a convocação de eleições antecipadas.

O Governo preferia realizar as eleições o quanto antes, sobretudo para evitar um desgaste maior e para aproveitar uma onda de indignação gerada, segundo avaliam, pela união dos independentistas com os partidos conservadores PP e Cidadãos para derrubar um Orçamento que tinha um claro viés social. No entanto, durante a semana alguns dirigentes regionais do seu partido tentaram convencer Sánchez a esperar um pouco mais, até setembro ou outubro, para que possam desenvolver algumas medidas que serão frustradas com eleições tão imediatas, e sobretudo para separar ao máximo as eleições gerais das autonômicas (regionais) e municipais, porque um fracasso nas primeiras influenciaria as expectativas das segundas.

Prevaleceu no entanto a vontade de Sánchez, e as eleições gerais acontecerão um mês antes da escolha dos novos governos regionais e municipais e da nova bancada espanhola no Parlamento Europeu. Essa maratona eleitoral ocorrerá enquanto o Tribunal Supremo julga os líderes do processo independentista catalão, um julgamento que começou na terça-feira passada e deve durar três meses. O julgamento influirá na campanha e servirá de alto-falante ao independentismo, por um lado, e por outro pelo partido ultradireitista Vox, que participa da ação como autor de uma acusação popular e rebelião contra os principais dirigentes catalães processados.

Em uma semana frenética, a ultradireita, por enquanto uma força sem representação parlamentar – embora as pesquisa prenunciem que entrará no Congresso dos Deputados no próximo pleito – protagonizou com o Partido Popular e o Cidadãos uma manifestação no domingo passado na praça Colón, em Madri. Nela, acusavam o Governo de Sánchez de trair a Espanha e aceitar as exigências do independentismo, e reivindicaram a convocatória eleitoral junto a milhares de pessoas.

O protesto foi convocado após a notícia de que o Governo havia aceitado a figura de um “relator” numa mesa de diálogo com a Generalitat (Governo catalão). Além de inflamar a direita, essa condição dos catalães aceita por Sánchez provocou reações iradas entre os barões do seu próprio partido, o PSOE. O mais beligerante talvez tenha sido Emiliano García-Page, presidente de Castela-La Mancha, que exigiu publicamente a convocação urgente da cúpula partidária nacional: “Tenho muita vontade de dizer com clareza o que penso sobre este assunto, porque quando se fala da Espanha, decidimos todos os espanhóis”. O presidente de Aragão, Javier Lambán, o deputado e ex-presidente de Castela-La Mancha José María Barreda e o candidato do PSOE ao Governo da Comunidade de Madri, Ángel Gabilondo, também se somaram, entre outros socialistas, às críticas a Sánchez. O ex-primeiro-ministro Felipe González também foi taxativo: “Não precisamos de relatores”. Dois dias depois, as negociações entre o Governo e a Generalitat foram rompidas, e os barões respiraram aliviados.

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