Opinião
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Homens acomodados no patriarcado

A transição para a igualdade da mulher abala os homens comodamente instalados na supremacia e nos privilégios. Alguns resmungam e esbravejam. Outros permanecem mergulhados na confusão

Soldados passam roupa em Moscou em 2012.
Soldados passam roupa em Moscou em 2012.G. PINKHASSOV (MAGNUM PHOTOS / CONTACTO)

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O machista incurável enfrenta a revolução feminista indignado, incapaz de compreender a pressa para desmantelar o patriarcado, uma criação histórica de homens e mulheres que supostamente data do final do Paleolítico e início do Neolítico, quando era desconhecida até a relação entre relação sexual e gravidez. O envergonhado a enfrenta mergulhado na confusão, nas contradições e no silêncio, embora reconheça, com Silvia Federici, que as diferenças não são o problema, que o problema é a hierarquia, e que há milênios as mulheres têm de se vender não só no mercado de trabalho, mas também no mercado do casamento, com a cobertura do amor. A dominação masculina retrocede resmungando.

Isso que chamam de amor é trabalho não remunerado, proclamou a ativista italiana, que em 1972 foi uma das fundadoras do Coletivo Feminista Internacional e reforça um movimento que colocou o machista diante de seus mitos e estereótipos. A maternidade e o patriarcado têm relação, como afirmava a pioneira australiana Germaine Greer em seu polêmico livro A Mulher Eunuco (1970). Com excessos e defeitos, a transição para a igualdade e a libertação da mulher abala o homem, comodamente instalado na supremacia e nos privilégios, enraizados desde sempre, herdados de geração em geração com a bênção das religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islamismo.

A evolução é tão vigorosa que os homens que querem fazer parte da solução pedem tempo e compreensão. “Que se danem”, comenta-me uma amiga que fazia a cama para seu irmão até dar um basta nisso: “Mamãe, não a faço mais. Que ele a faça”. A partir de então, sua mãe fez a cama dele. A minha procurou me arruinar ao me transformar em machista cultural, e ai transformar minha irmã em empregada − que ela deixou de ser no dia em que me viu folheando uma revista pornô e eu lhe pedi, por favor, um copo de água. Ela me jogou uma colher de pau, da qual me desviei por pouco. Desde então, muita água passou debaixo da ponte, mas as mães como causa, não como culpadas, são coprotagonistas de uma sociedade que neste século XXI as está transformando. Evoluem elas, eles e os paradigmas.

O fenômeno tem muitas facetas. Homens emocionalmente perturbados pelas afrontas do machismo patriarcal chegam à consulta de Jessica Eaton, pesquisadora da Escola de Psicologia da Universidade de Birmingham e fundadora do primeiro centro de saúde mental para homens do Reino Unido. “Estão sendo tão castigados pelos estereótipos dos papéis de gênero que choram na terapia e em seguida se desculpam por chorar, porque isso significa que não são homens de verdade”, assinala Eaton.

O cavernícola autêntico se abre em um ambiente de confiança, entre iguais, e seu pensamento sobrevoa o código napoleônico, com escala técnica em Arthur Schopenhauer (1788-1860), o filósofo alemão que cunhou a seguinte pérola: “O aspecto da mulher revela que não é destinada nem aos grandes trabalhos intelectuais, nem aos grandes trabalhos materiais”. Devedor de Kant, Platão e Spinoza, o patrocinador da introspecção como ferramenta para o conhecimento essencial do eu pedia que a mulher obedecesse ao homem e fosse a companheira paciente que o acalmasse.

O macho em transição não sabe se ri ou chora com as piadas picantes e diz estar cansado da “vitimização”

Hoje o macho em transição costuma perder a serenidade quando é pressionado, e precisa então da companheira compassiva que entenda que depois de tantos séculos de comodidades é normal que ele espume de raiva e acuse o feminismo de ter lhe roubado o direito de discordar, de flertar sem parecer um assediador, de polemizar sobre Harvey Weinstein e Woody Allen ou sobre os limites do respeito igualitário. Ele não sabe se ri ou chora com as piadas picantes, tem de morder a língua para esconder sua origem machista, diz estar cansado da “vitimização” feminina e treme antes de opinar sobre seus limites na presença de mulheres comprometidas com o movimento impulsionado em 2006 por Tarana Burke. Em sua relação de casal é bom andar com cuidado, pois sua costela não lhe pede ajuda, e sim corresponsabilidade na criação da prole ou na administração doméstica. Um inferno.

O machista se sente à vontade aplaudindo o cineasta austríaco Michael Haneke quando clama contra o “puritanismo” carregado de ódio e castrador que, segundo ele, impediria que fosse filmado hoje O Império dos Sentidos, uma reflexão sobre a sexualidade. A virilidade em processo de reconversão incentiva o ganhador da Palma de Ouro em Cannes, criador de Violência Gratuita, Amor e A Fita Branca, quando qualifica de “repugnante” a “histeria” das denúncias e as condenações sem julgamento.

A espanhola Paloma Tosar, coordenadora do Ágora, um espaço de formação feminista, analisou a história e consequências da doutrinação de meninas e mulheres. Em um trabalho publicado pela Associação Projeto Homem, a professora expressa sua convicção de que toda a realidade que vivemos é machista, e de que o machismo e os novos machismos precisam negar o feminismo porque, se o assumirem como fonte válida de justiça social, têm de reconhecer a si mesmos como o causador da injustiça. “Não estão dispostos porque é uma estrutura de poder e, se aceitarem fazer isso, têm de reduzir a nada todo esse sistema onde eles possuem todos os privilégios dos quais têm desfrutado ao longo da história”, afirma Tosar. A estratégia, diz, é mudar para continuar igual.

A escritora norte-americana Roxane Gay mudou muito desde os anos em que acreditava que as feministas tinham razão em suas colocações, mas eram umas amarguradas sem senso de humor, umas agitadoras desajeitadas. Ela já não pensa assim. Reconhece em seu livro Má Feminista que está cheia de contradições, mas tem certeza de que não quer ser tratada como uma merda por ser mulher. Prefere ser uma má feminista a não ser feminista. A jornada para a emancipação é difícil. Por exemplo: dois terços dos britânicos defendem a igualdade entre homens e mulheres, mas só 7% se consideraram feministas em uma pesquisa da Fawcett Society feita em 2016.

Subdivididos em categorias, como as almas do inferno de Dante, os descendentes do homem de Cro-Magnon com idades entre 14 e 100 anos refletem ou esbravejam: os casados com esposas quase machistas porque o #MeToo chegou quando já estavam velhos, os quarentões e cinquentões unidos a mulheres cada vez mais respondonas, jovens que assumem a transição quase sem objeções e o bípede de arquibancada: “Vão para a cozinha, vão esfregar, vocês são umas vagabundas!”. Como o machismo não é conduta e sim cultura, os homens deverão soltar o lastro durante nossa desculturalização, e as mulheres, assumi-la com esperança. Eu era um caso perdido e agora sou outro, mesmo com lamentáveis recaídas no vício.