Discurso do Estado da União

Trump ataca os imigrantes outra vez: “O muro adequado eu que vou construir”

Em seu segundo discurso do Estado da União, o presidente norte-americano critica a “ridícula investigação partidarista” sobre a trama russa

Donald Trump, na noite desta terça no Capitólio, entre o vice-presidente Mike Pence e a presidenta da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi
Donald Trump, na noite desta terça no Capitólio, entre o vice-presidente Mike Pence e a presidenta da Câmara de Representantes, Nancy PelosiDOUG MILLS (AFP)

Trump parece o mesmo de um ano atrás – aliás, o mesmo de dois anos atrás, quando fez seu primeiro discurso –, e muitas das ideias esgrimidas na noite desta terça já haviam retumbado previamente no Capitólio e na Casa Branca. O entorno que o cerca, porém, mudou bastante. Símbolo disso era a imagem da democrata Nancy Pelosi, comandando a sessão com o martelinho na mão, como presidenta da Câmara que é agora. Os republicanos mantêm o controle do Senado, mas desde as eleições legislativas de novembro os progressistas recuperaram a maioria na Câmara Baixa, e isso deixa boa parte da agenda política trumpista de mãos atadas.

“Juntos podemos romper décadas de bloqueio político. Podemos acabar com velhas divisões, curar velhas feridas, construir novas coalizões”, afirmou o presidente no Capitólio. “Devemos rejeitar a política da vingança, da resistência e da retaliação e abraçar o potencial ilimitado da cooperação, do compromisso, do bem comum”, enfatizou na parte inicial de seu discurso. Nesse ponto, Pelosi, sentada atrás, ao lado do vice-presidente Mike Pence, levantou-se para aplaudir junto com os republicanos – outros democratas a seguiram –, esticando os braços para o mandatário, como quem o aponta com o dedo.

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O magnata nova-iorquino conclamou seus rivais políticos a aprovarem legislações relativas a investimentos em infraestrutura e à luta contra o HIV. Mas também pediu que deem sinal verde a alguns dos elementos mais polêmicos na política atual, como a espiral tarifária no comércio exterior, novas restrições ao aborto e a pulso firme contra a imigração irregular. Não descafeinou nada na sua agenda. “No passado, a maioria neste plenário era a favor de um muro [em referência aos trechos da obra erguidos por administrações anteriores]. O muro adequado nunca foi construído. Esse eu construirei”, prometeu. Ou prometeu a si mesmo. Porque, sem o controle da Câmara Baixa, não terá como aprovar o orçamento necessário.

A cerimônia foi acidentada desde antes de começar. O discurso do Estado da União, um dos grandes dias de um mandato presidencial, ocorre anualmente a convite do presidente da Câmara de Representantes. Pelosi convocou o republicano para 29 de janeiro, mas, como a Administração se encontrava parcialmente paralisada devido à disputa sobre as verbas para o muro, ele foi obrigado a adiá-lo. O muro, não por acaso, surgiu várias vezes ao longo da noite. O mandatário insistiu em que a obra é necessária para combater uma imigração ilegal que vincula sem meias palavras à delinquência.

Trump saudou na plateia uma família cujos avós octogenários tinham sido assassinados por um imigrante indocumentado. Pediu que essas pessoas se levantassem para receber uma ovação. “Nenhuma vida americana deveria ser perdida, porque nosso país fracassou na hora de controlar sua perigosa fronteira”, clamou.

“Ridículas investigações partidaristas”

O presidente chegou a este discurso debilitado politicamente e sitiado por até 17 investigações, entre elas a da chamada trama russa, que busca esclarecer se houve conluio entre seu entorno e o Kremlin para interferir na campanha eleitoral de 2016 e favorecer sua vitória. Trump exigiu o fim das “ridículas investigações partidaristas”, que, segundo ele, podem atrapalhar o bom andamento da economia.

O público que o ouvia refletia bem a atmosfera fraturada do país. Os aplausos dos republicanos se misturavam aos rostos céticos dos democratas, sobretudo os da nova leva de legisladores, mais jovens e mais resistentes aos protocolos. Era uma noite carregada de símbolos. As mulheres democratas, presentes em número recorde na história do Capitólio, usavam roupas brancas em homenagem às sufragistas, pioneiras ativistas do voto feminino nos EUA.

E cada convidado era uma declaração em si: a primeira-dama, Melania Trump, convidou um menino que foi alvo de bullying na escola por ter o sobrenome Trump; a jovem democrata Alexandria Ocasio-Cortez levou a ativista Ana María Archila, que ficou famosa em setembro passado pela forma como apresentou um protesto ao senador Jeff Flake em um elevador, em plena batalha pela nomeação do conservador Brett Kavanaugh como novo juiz do Supremo. O senador Marco Rubio, da Flórida, trouxe Carlos Vecchio, nomeado como representante da Venezuela em Washington por Juan Guaidó, a quem os EUA acabam de reconhecer como presidente interino desse país sul-americano, em oposição a Nicolás Maduro; a pré-candidata presidencial Kirsten Gillibrand foi acompanhada de Blake Dremann, um soldado transgênero condecorado, e que, segundo as políticas de Trump, não poderia mais se alistar no Exército.

Porque a era Trump, com todo o seu ruído e clima de chanchada, mudou muita coisa nos Estados Unidos. Políticas regressivas em matéria de aborto e direitos LGTBI ganharam espaço sob o domínio republicano no Congresso, a maior redução tributária desde o mandato de Ronald Reagan foi aprovada, os compromissos ambientais de Barack Obama foram liquidados, e a política externa sofreu uma guinada de 180 graus: Trump rompeu o acordo nuclear com o Irã, transferiu a embaixada norte-americana de Tel Aviv para Jerusalém (uma provocação) e decidiu retirar as tropas da Síria contrariando o critério do Pentágono e dos aliados.

Trump confirmou que nos próximos dias 27 e 28 de fevereiro haverá uma segunda cúpula com o ditador norte-coreano Kim Jong-un para abordar a desnuclearização do país, apesar dos escassos avanços do encontro de junho passado em Singapura. Mesmo assim, gabou-se desse diálogo. Hiperbólico, chegou a dizer: “Se eu não tivesse sido eleito presidente, atualmente estaríamos, na minha opinião, em uma grande guerra com a Coreia do Norte, com milhões de pessoas potencialmente mortas”.

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