Copa São Paulo de Futebol Júnior

A grande família do futebol sofre e sonha na Copinha

No torneio sub-20 que revelou Neymar, parentes acompanham atletas de 128 times de todo o Brasil e torcem pela descoberta de seus pupilos. Final é nesta sexta

Goleiro Diego, sobrinho da tenista Teliana, comemora com Henrique vitória do Coritiba nas oitavas da Copinha.
Goleiro Diego, sobrinho da tenista Teliana, comemora com Henrique vitória do Coritiba nas oitavas da Copinha.Divulgação / Site oficial

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No dia 2 de janeiro, 128 times iniciaram a trajetória pelo título mais importante da categoria sub-20 do futebol brasileiro: a Copa São Paulo de Futebol Júnior, carinhosamente chamada de Copinha. Apesar da idade dos participantes sugerir um bom condicionamento físico, ter sucesso no torneio exige uma maratona dos garotos; ao todo, são 255 jogos (nove em 23 dias para os finalistas) espalhados pelo estado de São Paulo durante pouco mais de três semanas que, por conta do verão quente e úmido paulista, ou acontecem sob o sol do meio-dia ou sob a tempestade do fim da tarde. O desafio é o preço a se pagar pela visibilidade que a Copinha proporciona e pelo sonho de ser um profissional de sucesso, repetindo os feitos de nomes como Gabriel Jesus, Neymar, Dida, Kaká e Raí, todos jogadores que apareceram para o Brasil na competição ao longo dos 50 anos que existe.

A Copinha se difere de um campeonato tradicional pela quantidade de equipes, calendário enxuto, época em que é disputada e características do público nos estádios. Além dos torcedores e simpatizantes dos times envolvidos e olheiros, que caçam talentos escondidos, os parentes dos jovens também marcam presença nas arquibancadas, destacados por não estarem uniformizados e pela atenção especial em um jogador específico ao invés da equipe. De diferentes classes sociais, alguns familiares se limitam a prestigiar o jovem e não pressioná-lo pelo sucesso, enquanto outros depositam no sonho dele a esperança de mudar seu patamar financeiro, motivados pelo estrelato que uma carreira no futebol proporciona.

Teliana Pereira, 31 anos, se encaixa no primeiro grupo. A alagoana, que vive em Curitiba desde a infância, joga tênis profissionalmente e já soma mais de um milhão de dólares em premiações por participações em torneios da WTA, a World’s Tennis Association. Afastada das quadras por lesões, Teliana veio para São Paulo comentar o Australia Open no canal de tv fechada ESPN e aproveitou para acompanhar seu sobrinho Diego, goleiro titular do time sub-20 do Coritiba. A tenista esteve no estádio Canindé assistindo as oitavas de final contra o Vasco, em partida na qual os paranaenses foram derrotados por 3 a 0.

“Faz parte do esporte, agora é bola para frente. O importante é que ele atinja seu melhor nível e seja feliz com o que faz”, aconselha Teliana, já descendo as arquibancadas do estádio ao final do jogo. Na fase anterior, Diego brilhou defendendo três pênaltis e classificando seu time no duelo contra o São Caetano, em jogo que colocou o goleiro de 18 anos em evidência. “Eu não acompanho a Copinha, mas ele falou que é muito importante, que tem muitos empresários”.

Davó comemora um dos gols marcados contra o Internacional.
Davó comemora um dos gols marcados contra o Internacional.Divulgação / Site oficial

Diferente de Teliana, Liliane Sacramento não tem um milhão de dólares na conta. A paulista que mora em Pirituba e trabalha oferecendo empréstimo consignado é mãe de Matheus Alvarenga, o Davó, 19 anos, artilheiro Guarani na Copinha. “Estou muito ansiosa, mas não vou conseguir ir ao jogo por causa do trabalho”, revelou a mãe horas antes da semifinal da competição, entre São Paulo e Bugre, em Araraquara, na qual os alviverdes foram derrotados por 5 a 2. Liliane conta que se surpreende com a fama do filho, especialmente depois que o atacante marcou quatro vezes contra o Internacional, nas oitavas. Ela também explica que o apelido é por conta de sua mãe, dona Helena, que acompanhava Matheus quando ia treinar nas escolinhas de futebol. “Como tinham muitos Matheus na escola, ele virou o Matheus ‘da vó’”.

Na família de Teliana, seu irmão José Pereira também é tenista profissional. Segundo ela, seus seis irmãos – incluindo a mais velha, mãe de Diego – cresceram praticando esportes, mas foi do pai que o goleiro herdou a paixão pelo futebol. Apesar de presente, a tia não aprova a participação da família na carreira da promessa. “Eu acho que quanto menos a família se meter, melhor. Tem que ter pelo menos um limite. Nós prestigiamos, mas de forma saudável, se não ele vai sentir a pressão e vai desistir. Para nós, esportistas, é bom que o assunto em casa não seja tênis ou futebol”. No entanto, Teliana não deixa de se envolver durante o jogo; demonstra nervosismo a cada escanteio do adversário e se preocupa com a leve chuva que cai em São Paulo, deixando a bola escorregadia no Canindé. Aos 19 do segundo tempo, demonstra abatimento com o pênalti convertido por Lucas Santos, abrindo o placar para o Vasco, após torcer em voz alta pela defesa do sobrinho.

 “Claro que torço para ele, mas para mim o importante é vê-lo feliz”, ressalta. Experiente como profissional do esporte, a alagoana reconhece as dificuldades da profissão ao dizer que não tem expectativas sobre Diego. “Nenhuma [expectativa]. Eu sei que é muito duro. Ele é focado até demais, e eu acho que tem que curtir o momento e não se cobrar tanto”. Com o sonho de jogar bola desde criança, Davó também demonstra foco nos treinos; Liliane conta que ele a esperava chegar do trabalho para "treinar" quando criança. “Fazia ele chutar com a direita e com a esquerda. Por isso que é ambidestro!”, comemora a mãe. Ela diz acreditar no potencial do filho, mas reforça que o trabalho é fundamental para o sucesso profissional: “É 90% transpiração e 10% inspiração. Sei que no futebol tem muitos meninos com talento que não aparecem, mas nunca tive medo; sabia que um dia reconheceriam [o talento dele]”.

Por fim, Teliana se aproveita da situação do sobrinho para defender mais espaço para os jovens no esporte do país: “Vejo isso no tênis também; o Brasil precisa investir mais na base. Se o atleta está no clube, aproveita para usar”. Como maior torneio de base do país, a Copinha levanta anualmente a discussão de quem será o próximo Neymar, maior estrela atual do futebol brasileiro, desde que o menino foi eliminado nas quartas de final da competição com o Santos, há 11 anos. Davó tem semelhanças com o craque do PSG por se destacar na Copa São Paulo e atuar na mesma posição. Diego, por sua vez, joga no outro extremo do campo, apesar de também acumular minutos de fama na Copinha. “Comparações são irreais. Não fico falando para ele ser melhor do que ninguém”, pontua a tia Teliana. E a mãe de Davó conclui: "Tem que por o pezinho no chão e focar. O resto é consequência".

Apesar do destaque, Diego e Davó não estarão no maior momento de visibilidade da Copinha. A final, que é transmitida pela TV Globo, acontece nesta sexta-feira, às 15h30, no estádio Pacaembu, entre São Paulo e Vasco.

50 anos de Copinha

A edição de 2019 marcou o aniversário cinquentenário da Copa São Paulo, que é disputada desde 1969, quando o Corinthians venceu o torneio organizado pela Prefeitura de São Paulo que só contava com Palmeiras, Juventus e Nacional, além dos alvinegros. De lá para cá, os corintianos foram os que mais venceram, com dez títulos, seguidos de Fluminense (cinco), Internacional (quatro) e Flamengo (quatro). "A Copinha sempre rendeu grandes craques, times e histórias", conta Mauro Silva, vice-presidente de competições da Federação Paulista de Futebol e campeão do mundo em 1994. "É como um vestibular no caminho do atleta para alcançar o futebol profissional".

Neste ano, a FPF apostou no marketing das redes sociais para trazer ainda mais público para a Copa São Paulo. No Facebook e YouTube, a FPF sobe vídeos com os gols de todos os jogos da Copinha, televisionados ou não, além da cobertura diária via Twitter. A prática já havia sido adotada em 2018, mas a nova versão traz uma identidade visual mais e maior cobertura das partidas; foram 126 transmitidas ano passado, número que chegou a 233 neste ano. "Temos essa concentração de jogos competitivos em um período curto e intenso, na época em que os times profissionais estão em pré-temporada", explica Mauro Silva sobre o sucesso do torneio entre o público brasileiro, mesmo disputado entre juniores.