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CRÍTICA | O VÍCIO DO PODER
Crítica
Género de opinião que descreve, elogia ou censura, totalmente ou em parte, uma obra cultural ou de entretenimento. Deve sempre ser escrita por um expert na matéria

‘Vice’: A política é uma farsa

O ponto crucial de todo o filme está no recurso da inserção: planos alheios à ação principal, que levam o discurso até uma nova e fascinante dimensão metafórica e humorística

Javier Ocaña
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Paolo Sorrentino e Adam McKay chegaram à conclusão, cada um com um estilo próprio, de que a política contemporânea é uma farsa, que certos personagens só podem ser traçados pela comédia, que se deve manter uma cota de credibilidade, mas o essencial é o retrato deformador e caricatural de atitudes e situações que de outro modo seriam pouco plausíveis, apesar de serem reais.

Coincidem em época de produção Silvio (e os Outros), do diretor italiano, sobre Berlusconi, e Vice, de McKay sobre o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Dick Cheney, e ambos recorrem ao simbolismo, uma substituição da realidade por uma espécie de espetáculo grotesco. Desde o primeiro minuto, e por meio de uma série de frases superpostas, quase como num romance de não-ficção, o filme oferece explicações jocosas sobre como abordar a figura que era braço direito de George W. Bush.

Assim, McKay, também roteirista solo, compôs um filme que, ao mesmo tempo, é uma reportagem investigativa e uma denúncia, uma hipótese e uma comédia desavergonhada. Um trabalho formidável com o qual excede mesmo o já excelente A Grande Aposta (2015).

VICE

Direção: Adam McKay.

Intérpretes: Christian Bala, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell.

Gênero: comédia. EUA, 2018.

Duração: 132 minutos.

E faz isso com uma poderosa linguagem cinematográfica em que se acumulam recursos de diferentes gêneros e até mesmo formatos. Há técnicas de documentário político contemporâneo; na verdade, o tom usado e a presença contínua de planos e músicas que em princípio nada têm a ver com a evolução da sequência lembram muito o estilo de Michael Moore em suas diatribes cinematográficas. E a chave de todo o filme, que abarca desde a juventude farrista e alcoolizada de uma figura aparentemente cinza na organização dos republicanos em Washington, está no uso da inserção: planos alheios à ação principal, que levam o discurso do filme a uma nova e fascinante dimensão metafórica e humorística, sem deixar de cutucar o personagem, suas graças e seus infortúnios, seus despropósitos, seu excesso e sua calidez pontual.

Um filme de pessoas de esquerda para pessoas de esquerda? Nada disso. McKay sabe o que faz e oferece uma defesa sobre-humana à sua criatura, no mesmo tom vulgar, com os créditos finais. Um monólogo olhando para a câmera, onde o impressionante Christian Bale chega ao ponto culminante de seu recital interpretativo. Para além da maquiagem, esforços puramente físicos e gestos imitativos, o ator consegue capturar o olhar de Cheney. E então a caricatura transcende, indo às profundezas do personagem.

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