‘A Favorita’: Pela sedução ao poder

Esta rainha ciclotímica e sua relação com suas duas amantes me intrigam progressivamente, os diálogos são perspicazes. Filme foi indicado a dez Oscars

Emma Stone, em 'A favorita'.
Emma Stone, em 'A favorita'.

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Relaciono a filmografia do diretor grego Yorgos Lanthimos com uma presença fixa nos festivais, essas competições que anseiam por tudo o que leve a marca da vanguarda, da modernidade, do hermetismo pretensioso, do exotismo, da autoria bem-sucedida. Neles, despertou-se o entusiasmo e também a lisonja intelectual, filmes vocacionalmente estranhos e inovadores, com abordagens originais, truculentas, supostamente misteriosas, com atmosfera claustrofóbica e perversa como Canino, A Lagosta e O Sacrifício de um Cervo Sagrado. Reconhecendo o mundo de Lanthimos como atípico, provocador, cruel e mórbido, nunca me conectei com ele, seus filmes me perturbam e tendem a me deixar entediado, assim como irritado.

Aparentemente, chovem ofertas do cinema internacional para Lanthimos. Faz tempo que suas filmagens são em Inglês, com recursos generosos (impensáveis na Grécia) e artistas muito cobiçados, incluindo mais de uma estrela. A Favorita, sua mais recente produção, que estreia no Brasil nesta quinta-feira, 24 de janeiro, se desenvolve na corte da Inglaterra durante o século XVIII. Lanthinos conta que é uma encomenda antiga. Na qual, pela primeira vez, desaparece seu habitual corroteirista Efhymis Filippou. O diretor tampouco assina o roteiro deste filme, de autoria de Deborah Davis e Tony McNamara. Não é um obstáculo para que, em A Favorita, sejam absolutamente reconhecíveis o universo, as obsessões, o estilo narrativo de Lanthimos.

Aos 15 minutos de projeção, fico em dúvida entre ficar preso na poltrona ou sair para respirar o ar poluído da rua. É que o estilo visual com o qual a história é contada me deixa nervoso. Fico tonto com o uso contínuo do olho de peixe, das grandes angulares, da câmera baixa. Supõe-se que a linguagem da câmera sirva para contar a história. Mas essa linguagem me deixa doente e tampouco me fascinam inicialmente as infinitas misérias da corte na qual reina Anne. E o jargão coloquial é muito lascivo, as situações são grotescas, tudo é muito moderno para um público de iniciados. Mas resisto um pouco mais, e o que vejo e ouço acaba me envolvendo. Sem excessos. Fico progressivamente intrigado sobre como acabará esta história sobre o poder absoluto utilizado para comprar sexo e, talvez, um pouco de amor. Esta rainha ciclotímica, entusiasta e depressiva, doente e sexualmente voraz, cercada por 17 coelhos com os quais pretende substituir emocionalmente as 17 criaturas que perdeu, e a complexa relação que estabelece com suas duas amantes, senhoras muito oportunistas, uma aristocrata com papel de soberana na sombra e a outra, uma profissional da sobrevivência que descobre que pode encontrar um lugar ao sol compartilhando a cama da rainha depois de ter engolido tanta merda, vão me intrigando progressivamente, os diálogos são perspicazes, o comportamento dos personagens é corrosivo e complexo.

Mas, acima de tudo, me deparo com a hipnótica e admirável interpretação de três atrizes privilegiadas. Não conhecia Olivia Colman, a intérprete da rainha Anne. Seguirei seus passos atentamente. Sempre gostei de tudo em Rachel Weisz. E a jovem Emma Stone é muito boa, convincente em variados trabalhos, tem um presente e um futuro esplêndidos. As três atrizes foram indicadas ao Oscar 2019: Colman concorre na categoria Melhor Atriz e Weisz e Stone disputam a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante.

A FAVORITA

Direção: Yorgos Lanthimos.

Intérpretes: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Mark Gatiss.

Gênero: Histórico. Reino Unido, 2018.

Duração: 119 minutos.

Indicações ao Oscar 2019: A Favorita concorre em dez categorias no Oscar deste ano, entre eles o de melhor filme., melhor diretor e melhor roteiro original.

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