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A penúria dos caixas estaduais que assusta os novos governadores

Compromissos assumidos em cerimônias de posse giram em torno de "cortar na própria carne".

Em São Paulo, sem presença de Alckmin, Doria defende "reestruturação" do PSDB

João Dória toma posse
João Dória toma posse como governador na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, nesta terça-feira. Agência Brasil

“A partir de amanhã, vou assinar dezenas de decretos cortando na carne, no osso", prometeu Ronaldo Caiado (DEM) ao tomar posse como governador de Goiás nesta terça-feira. Caiado diz ter herdado uma dívida de dois meses de salários dos servidores, "de mais de 140 milhões de reais em empréstimos em que a União é avalista e que não temos como pagar, o que pode levar ao bloqueio do repasse do Fundo de Participação dos Estados”. O novo governador de Goiás reclamou de um "colapso completo da máquina pública" ao tomar posse. E não foi o único a fazê-lo entre os 27 governadores empossados no primeiro dia de 2019. Longe disso.

O novo mandatário de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), usou inclusive a mesma expressão de Caiado ao assumir seu cargo: “É preciso reduzir despesas cortando na carne, porque é isso que os mineiros esperam de nós”. Para tanto, Zema propôs um pacto entre os mineiros, incluindo todos os poderes, a imprensa e federações e entidades representativas de trabalhadores e da sociedade civil. “Vamos assinar um acordo tácito por Minas, para que volte a ser um Estado forte atrativo de investimento, gerativo de emprego e renda, para resgatarmos a confiança e o orgulho inerentes aos mineiros”, prometeu. Seu antecessor, Fernando Pimentel (PT), não conseguiu se reeleger em parte por conta dos desgastes que enfrentava por atrasos nos salários dos servidores públicos.

Outro governador que, assim como Zema e outros cinco governadores eleitos, chegou ao cargo surfando a onda Jair Bolsonaro, Coronel Marcos Rocha (PSL) tomou posse em Rondônia prometendo ajustes: “Vamos ter que reduzir a máquina pública; colocar técnicos atuando nas várias funções, rever contratos”. Mauro Carlesse (PHS), que assume definitivamente o governo de Tocantins após mandato de um ano e seis meses, também prometeu reduzir gastos: “Dessa forma, vamos conseguir atrair mais empresas e deixar o Tocantins atrativo para geração de emprego e renda”. Mesmo Renato Casagrande (PSB), que volta a assumir o Governo do Espírito Santos após a gestão notabilizada pelos ajustes de Paulo Hartung (sem partido, ex-MDB), discursou prometendo responsabilidade fiscal.

Wilson Witzel (PSL), novo governador do Rio de Janeiro, fez mais do que discursar sobre a "tarefa" de "racionalizar os custos e garantir mais recursos para os municípios". Anunciou um decreto que visa reduzir gastos públicos, publicado já nesta terça-feira no Diário Oficial do Estado. O Programa de Reavaliação de Despesas Operacionais instrui uma redução de 30% nos gastos do Estado neste ano na comparação com os gastos de 2018 — ficam de fora apenas as pastas da segurança pública e as secretarias de Educação, Saúde e Defesa Civil, além do Corpo de Bombeiros Militar. Witzel destacou ainda o papel dos agricultores do Estado e classificou o turismo como o "novo petróleo", além de prometer combater "narcoterroristas" - sua  plataforma de segurança, colada à agenda de Bolsonaro, provoca críticas de especialistas da área

Na Bahia, Rui Costa (PT) parte para o segundo mandato “buscando ser um dos principais estados em investimento no país, mas não abrindo mão da responsabilidade fiscal, financeira e orçamentária”. É no Nordeste que o PT montou sua barricada, com a eleição de quatro governadores. Outro reeleito, Renan Filho (MDB) elegeu a solidez fiscal como prioridade: “O controle de gastos será feito com uma lupa ainda mais potente, para que se extraia do dinheiro público o máximo possível”. Flávio Dino (PCdoB), mais um reeleito, reforçou o coro: a prioridade de seu segundo mandato no Governo do Maranhão será o “compromisso rigoroso com o equilíbrio fiscal de receitas e despesas”.

Em Santa Catarina, mais um discurso de ajustes, desta vez por parte do governador Carlos Moisés: “Há uma previdência a ser equacionada, uma folha de pagamento que precisa ser ajustada e uma receita que precisa voltar a crescer sem significar novos tributos. É preciso não apenas gastar menos, mas gastar melhor aquilo que arrecadamos”. Já Paulo Câmara (PSB), que assumiu um segundo mandato em Pernambuco, preferiu fazer um chamado à pacificação política no país: “É urgente desmontar os palanques, desarmar os espíritos, buscar o mínimo de convergências que nos permitam preservar as conquistas democráticas e avançar”.

"Reestruturação do PSDB"

No Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) discursou sobre a busca de soluções para a crise fiscal do Estado, que tem previsto um déficit de 4 bilhões de reais para este ano. Além disso, o déficit do sistema previdenciário rio-grandense estaria em 11 bilhões de reais. “O Rio Grande do Sul apresenta indicadores de dívida consolidada e despesas com pessoal acima dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal”, destacou o novo governador, que anunciou uma reunião para esta quarta-feira com o objetivo de anunciar medidas emergenciais para conter gastos. Leite disse ainda que a social-democracia ancoradas nos princípios do livre mercado e da proteção social "não está morta", marcando posição em um partido que, segundo o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), precisa passar por uma "reestruturação".

Ao assumir o Palácio dos Bandeirantes, Doria, que leva o partido à direita e desde a campanha busca pontes com Bolsonaro, disse disse que seu partido precisa "ter coragem de mudar e sintonizar”. “Transformar não significa desrespeitar a história do PSDB. Sobretudo aquela que foi escrita por André Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin", discursou, mas nenhum dos tucanos mencionados — dois deles, Montoro e Covas, já falecidos — estava lá para ouvir, com destaque para a ausência do ex-governador Geraldo Alckmin, seu antigo mentor.

Segundo Doria, a transformação por ele proposta "significa a necessidade de mudar, de transformar aquilo que a população espera dos seus governantes, dos seus parlamentares e daqueles que representam a legenda do PSDB, seja em São Paulo, seja no Brasil”. “Os brasileiros de São Paulo foram as urnas para confiar a nós a missão de renovar a política. E temos o desafio de atender a esse sentimento. O Brasil começou a mudar e vamos seguir nessa sequência. Temos que atender esse sentimento que foi expresso pelo povo”, discursou o governador mais relevante de um partido de futuro indefinido desde a última eleição.

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