Da UNE ao Livres, movimentos ensaiam frente ampla pela democracia “até doer”

Em comum, concordam que a democracia está ameaçada em várias sentidos e buscam mobilização

Caetano Scannavino, do Projeto Saúde e Alegria, fala sobre a ação policial de que a organização foi vítima no Pará.
Caetano Scannavino, do Projeto Saúde e Alegria, fala sobre a ação policial de que a organização foi vítima no Pará.Divulgação

Citando o poeta pernambucano Marcelo Mario de Melo, o jornalista Juca Kfouri pregou nesta segunda-feira, em São Paulo, que uma frente a favor da democracia deve ser “ampla, tão ampla, que precisa doer”. Porque “se não doer não vai ser ampla”. Significa que, para mais de 30 lideranças que se reuniram no teatro FECAP, no centro da cidade, o momento é de deixar as diferenças de lado para fazer frente aos desafios à ordem democrática lançados pela extrema direita que chegou ao poder, liderada pelo presidente Jair Bolsonaro.

O ato, nomeado Em Frente Pela Democracia, foi organizado pelo grupo Pacto pela Democracia. Participaram representantes de instituições e movimentos sociais de diferentes espectros ideológicos ― esquerda, centro, direita ― e que atuam em frentes diferentes: combatem o racismo e o genocídio da população negra, lecionam em universidades, pregam o liberalismo econômico, estão nas trincheiras da Amazônia pelo meio ambiente e as populações indígenas, buscam a renovação da política institucional, defendem os diretos humanos de forma mais ampla. Os partidos políticos não estiveram representados como tal.

Acontecimentos e declarações governistas foram lembrados, como as recentes ameaças de um novo AI-5 proferidas pelo ministro Paulo Guedes e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Mas dois episódios permearam toda a noite. Um deles foi a prisão de quatro brigadistas do Projeto Saúde e Alegria em Alter do Chão, no Pará. “Parece que uma semana dura anos, que o dia dura 100 anos. Você não sabe se está num sonho ou pesadelo”, afirmou Caetano Scannavino, coordenador da ONG. E também a morte de nove jovens da favela Paraisópolis após ação da Polícia Militar em um baile funk: “Bem-vindos ao nosso mundo. Espinho, balas... O que aconteceu em Paraisópolis não é novidade”, discursou José Adão, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, em plena ditadura militar.

Lideranças do movimento negro, novas e mais antigas, eram parte importante do ato. E lembraram a todo momento que a democracia nunca foi completa no último país a abolir a escravidão e onde o racismo estrutural ainda impera. “Chegamos aqui não por causa de um grupo fascista. Chegamos aqui porque silenciamos, porque aceitamos. O silêncio não vai nos levar a lugar nenhum", discursou Karla Recife, da Frente Favela Brasil. “Esse fio bate em nós, mas uma hora bate em vocês. Precisamos fazer uma reflexão e admitir que erramos. A sociedade brasileira nos levou a esse momento”. Entre os pontos em comum, frisaram o compromisso com a diminuição das desigualdades e com o combate ao racismo estrutural. “O que aconteceu em Paraisópolis é parte de um genocídio”, afirmou, por sua vez, o membro da OAB Arnóbio Rocha.

Sem muros ideológicos

Já Paulo Gontijo, diretor do grupo liberal Livres, fez um chamado para que as pessoas não se fechem em seus muros ideológicos. “Enquanto a gente entrar no jogo das tribos, os que querem fazer pontes se encontraram”. Imbuído desse espírito de quebrar barreiras, o evento, no qual estiveram mais de uma centena de pessoas, começou com um debate com pessoas diferentes entre si: Juca Kfouri, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Silvia Souza, do Conectas Direitos Humanos e da Coalizão Negra por Direitos; Joel Pinheiro, economista e pensador liberal; Monica Sodré, da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS); e Hélio Santos, militante histórico do movimento negro e representante da aceleradora de startups Vale do Dendê.

Em comum, concordam que a democracia está ameaçada em várias frentes. Lembraram das investidas contra as instituições promovidas pelos bolsonaristas e também do descrédito dessas mesmas instituições junto à população. “No mundo real não há uma viva alma protestando. A população não está comprando a briga, não está vendo seus anseios representados, não estão com disposição de lutar”, argumentou Pinheiro. “Um desafio é encontrar os valores para trazer as pessoas para as ruas”. Santos prosseguiu: “A gente precisa dialogar com o cotidiano das pessoas. Precisamos desenvolver esse modelo de sedução”, afirmou. “As eventuais diferenças que temos são pequenas perto dos riscos que sofremos. Até hoje não esqueço do rosto de colegas de universidade que sumiram, e que nunca mais vi”.