Crianças

De conversível para a sala de cirurgia

Hospital de Barcelona leva as crianças à sala de operações em carro de brinquedo para reduzir estresse

Cristobal Castro / EPV

Noa entrou na sala de cirurgia em um Audi azul conversível. No começo da manhã de sexta-feira, a menina, de quatro anos, sentou ao volante do veículo e, vestida com um pijama estampado com desenhos coloridos, dirigiu até à sala de operações. Dentro do imponente carro esportivo de luxo — teleguiado por um enfermeiro três passos atrás —, Noa cruzou sorridente o corredor que levava à sala de cirurgia para ser operada de uma hérnia umbilical. Enquanto isso, a equipe médica do centro cirúrgico ambulatório do hospital Parc Taulí de Sabadell (Barcelona) falava com a motorista entre risos e palmas. A equipe médica dessa unidade do Taulí iniciou essa particular ida à mesa de operações para reduzir o estresse e a ansiedade dos pacientes pediátricos nos processos cirúrgicos.

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“As enfermeiras do centro cirúrgico ambulatório queriam humanizar os cuidados pediátricos. O carro foi uma mudança espetacular, tanto às crianças, que entram mais calmas, como aos pais, que ficam mais tranquilos ao ver que seus filhos entram na sala de cirurgia contentes e felizes”, diz a enfermeira Laura Porcar, uma das responsáveis pela iniciativa, que foi inspirada em um projeto desenvolvido em um hospital de Oklahoma (Estados Unidos). A unidade de cirurgia ambulatória realiza operações que, mesmo consideradas de menor complexidade e têm alta no mesmo dia — hérnia, fimoses... —, precisam de anestesia geral.

A ida à sala de cirurgia no carro teleguiado de brincadeira entrou no conjunto de iniciativas do Taulí — palhaços, salas com decoração infantil, brinquedos, música na sala de cirurgia — para humanizar o entorno hospitalar aos pacientes infantis. A intenção é reduzir a ansiedade pré-cirurgia e também a medicação ansiolítica administrada às crianças antes de entrarem na sala de operações. “Até hoje as crianças recebiam ansiolíticos por via nasal para reduzir a ansiedade da operação e da separação de seus pais na entrada da sala de operações. Mas agora desenvolvemos estratégias para substituir os remédios, como os palhaços, a música e o uso de tablets. O carrinho é outra estratégia para criar um ambiente que não seja hostil nos hospitais. Fazem com que isso seja vivido mais como uma brincadeira”, diz Silvia López, coordenadora da Unidade de Anestesia Pediátrica do Taulí.

Em sua primeira semana de rodagem, o Audi conversível já levou à sala de cirurgia uma dezena de crianças. “Nenhuma delas precisou receber medicação prévia de ansiolíticos”, diz a doutora López. Na semana que vem, os médicos testarão reduzir à metade as doses dos remédios que costumam administrar — já são quantidades bem baixas em se tratando de crianças — para avaliar como lidam melhor com a entrada na sala de cirurgia. Por enquanto, famílias e profissionais concordam que a primeira semana ao volante desse carro esportivo azul de luxo foi “excelente”. Foi uma surpresa para todos. Ela estava um pouco preocupada e disse à enfermeira que estava nervosa, mas quando viu o carro, ficou animada. De fato, há tempos que me dizia que queria entrar em um desses carrinhos porque costumava vê-los nos shoppings e nos lugares em que saímos de férias”, diz Antonio Martínez, pai de Noa. O carro fez bem à menina, mas também a seus pais: “A tensão existe, mas ajuda ver como o carro a distrai”, diz Antonio.

Noa já está em casa e a operação foi “rápida e tudo correu bem”, confirma seu pai. O conversível recebeu todo o protagonismo do dia. “Ele está falando para todo mundo: sua irmã, seus avós... Que subiu em um carro!”, diz Antonio, que não descarta que o carro apareça também na carta ao Papai Noel.