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“Fiz isso pela minha história, porque como os índios perdi meus parentes, mas no holocausto”

A fotógrafa Cláudia Andujar dedicou quase 50 anos para entender um dos povos indígenas mais isolados do Brasil

A fotógrafa suíça Cláudia Andujar cruza com certa dificuldade a ampla sala do apartamento onde mora, em São Paulo. Aos 87 anos quase 50 deles dedicados a longas viagens ao norte do Brasil para entender a cultura dos isolados índios yanomami, ela vence a limitação para se locomover e senta em uma poltrona, de costas para uma grande janela na qual se impõe a maior metrópole do país. Mas o seu campo de visão neste momento é simbólico: três quadros com imagens que fez quando viveu nas aldeias, estantes recheadas de vasos de cerâmica e um grande mural com penachos, colares, brincos e outros artigos feitos por indígenas. A maioria deles mas nem todos, ela pondera veio dos yanomami. “Eu tenho uma ligação muito forte com eles. Fiz isso pela história da minha vida, porque assim como os índios [que perderam parentes no contato com não índios] eu também perdi os meus parentes judeus”, conta. Um extrato de seu trabalho será exposto a partir de hoje no Instituto Moreira Salles, em São Paulo.

Praticamente toda a família paterna de Andujar foi deportada da Hungria para os campos de concentração nazistas quando ela era criança. Um tio que havia emigrado para os Estados Unidos antes da Segunda Guerra e ela, que na época fugiu com a mãe para a Suíça, foram os únicos sobreviventes. Desde então, viveu em vários países, sempre enfrentando as barreiras para se comunicar em um novo idioma e uma desagradável sensação de não pertencer a lugar nenhum. Até que a mãe e o padrasto a convidaram para morar com eles no Brasil. Andujar tinha 24 anos e um desejo incomum para desbravar o novo país. Passou a viajar sozinha, antes mesmo de aprender português, usando uma câmera fotográfica para se comunicar. “Enfim me encontrei aqui”, diz.

A fotógrafa em sua casa, em São Paulo.
A fotógrafa em sua casa, em São Paulo.

Captava com suas lentes paisagem e gente. E a cada viagem, a curiosidade sobre o povo brasileiro aumentava. "As pessoas eram muito abertas", conta.  A fotografia, sua primeira tentativa de comunicação, virou ofício. As imagens feitas nessas inúmeras viagens despertaram o interesse de revistas brasileiras e estrangeiras. E em sua missão de se aprofundar nas raízes do Brasil, conheceu a etnia Karajá, por sugestão do antropólogo e amigo Darcy Ribeiro. Mas ela queria ir ainda mais fundo. E esse caminho a levou até os yanomami, um grupo que vive no meio da selva amazônica, entre os estados de Amazonas e Roraima, a horas de viagem em um pequeno avião da capital mais próxima.

Os primeiros contatos

A ideia inicial era fazer um ensaio profundo sobre essa etnia para a Revista Realidade. Para chegar até eles, a fotógrafa contava com o apoio de grupos missionários e amigos antropólogos. A primeira viagem, em 1971, durou uma semana. “Eu percebi desde o primeiro momento que precisaria de um tempo sem limites para me dedicar a entender quem eles são como povo”, conta. Alojada com os missionários católicos, Andujar sentia outra vez a dificuldade de se comunicar em um lugar novo. Naquela época, o contato dos yanomami com a população não indígena era raro e ninguém falava português. “Eu me comuniquei com gestos, sorrisos e o meu desejo de aproximação”, ela diz. Só usou a câmera fotográfica que depois se tornou mais um elo de comunicação com os indígenas quando se sentiu aceita pela comunidade.

“Eles não entendiam nada disso. Não podia chegar caindo em cima. No começo, fotografei muito pouco, mas houve um momento em que percebi que eles não entendiam, mas aceitavam. Ali eu vi que tínhamos construído nossa relação de confiança”, recorda. Andujar havia encontrado uma comunidade que, até muito pouco tempo, acreditava ser o único povo do mundo, e voltou para São Paulo sem se despedir. "Não existe um 'até logo' entre os índios. Se despedir implica um fim, mas a vida é uma continuação eterna das coisas que se ligam, desligam e ligam de novo", explica. A partir dali, foram inúmeros retornos às aldeias de uma etnia que a adotou lentamente, em viagens que a cada nova visita se tornavam mais duradouras.

Graças a bolsas de pesquisa, deixou o fotojornalismo e abraçou uma nova vida no norte do Brasil, onde chegou a permanecer com os indígenas por vários anos. Mulher criada na cidade, ela se impressionava de como a noite no meio da Amazônia chegava cedo e se alongava. Deitava por volta das sete da noite, quando se concentrava em escutar a mata, que nada tem de silenciosa. Acordava várias vezes, com medo do barulho dos passos de bichos ou do canto dos pássaros noturnos. Ali, no meio da selva, Andujar se dividia entre dois mundos: o seu, tão distante em mentalidade, e um outro, que ela queria pegar entre as mãos e entender.

Ela começou a viajar com os índios a pé na mata fechada, às vezes em viagens que duravam dias,  para caçar os animais de que eles se alimentavam. Os primeiros choques dos episódios sangrentos destas mortes foram se tornando cenas cada vez mais normais para ela. “Entrei na maneira em que eles viviam. Fui aceita por eles. As coisas são como são”, afirma. Deixou o quarto no acampamento dos missionários e ganhou espaço próprio nas malocas, onde os yanomami vivem em grupos familiares. “Pra mim, a maloca era apenas uma casa construída. Todos lá dormem em redes. E eu tive a minha rede, que eu levei de São Paulo”, conta, sorrindo. O envolvimento da fotógrafa com os rituais indígenas especialmente os de iniciação dos pajés a levou a mudar também a forma de fotografar. Era preciso interpretar na imagem, cuja estética ficava cada vez mais autoral, parte daquela magia.

Durante a ditadura militar, o governo brasileiro seguia uma política integracionista e iniciou a construção da rodovia Perimetral Norte (BR-210), que cruzava as terras yanomami. “Eu tava lá quando isso aconteceu e vi que a situação ficava cada dia mais complicada”, diz. O contato com os trabalhadores da construção levou uma série de doenças aos índios, para as quais eles não tinham imunidade, e deixou um forte rastro de mortes, com dezenas de comunidades dizimadas. Sarampo e malária se espalharam pela região. "Foi um desastre”, define Andujar. Sem nomes oficiais para a burocracia brasileira, os índios eram registrados com números. A fotógrafa passou, então, a percorrer várias aldeias para catalogar o estado de saúde das comunidades. Estes retratos formaram a série Marcados. A construção da estrada acabou eventualmente abandonada pelas dificuldades do projeto, mas facilitou a entrada de garimpeiros em busca de ouro na rica área yanomami. A essa altura, vários antropólogos já trabalhavam na região. “Concordamos que era crucial que o Governo brasileiro reconhecesse aquela terra tradicional como deles e que respeitasse isso. Era a única forma de salvá-los”, diz.

Uma relação que virou militância

As intenções da fotógrafa passaram a ser vistas com desconfiança pelo Governo brasileiro, que sem entender porquê ela estava há tantos anos com eles, a proibiu de retornar àquelas terras. Andujar precisou voltar a São Paulo, mas não abandonou a luta pela demarcação. "Esse pequeno mundo na imensidão do mato amazônico era meu lugar e sempre será", ela diz. Durante anos, se empenhou em realizar contatos nacionais e internacionais para chamar atenção do mundo sobre a importância de proteger o território do povo que a acolheu, ao lado de outros antropólogos da Comissão para a Criação do Parque Yanomami. “Não foi uma luta fácil nem de poucos anos. A gente se meteu em algo que não era visto como problema nosso”, diz. Mas a luta teve êxito. Em 1992, sob fortes pressões internacionais às vésperas da conferência da Organização das Nações Unidas sobre o clima (Rio-92), o presidente Fernando Collor de Mello demarcou 8milhões de hectares como território tradicional yanomami.

A fotógrafa passou anos para compreender a dimensão do seu engajamento com a causa. Até que assumiu para si mesma: era como ver um filme se repetir, mesmo em contextos, cenários e culturas tão distintas. “Entrei nessa luta pela história que vivi na minha infância, quando toda a minha família paterna foi deportada e morta pelo nazismo”, diz. Os índios provavelmente também se viram nela. Eles evitam a fotografia porque acreditam que a foto distancia a pessoa de sua imagem. Quando um yanomami morre, tudo o que lembra aquela pessoa deve ser destruído, inclusive as fotos. Mesmo assim, um acervo de cerca de 40.000 imagens de Cláudia Andujar foi poupado porque se transformaram, para esses indígenas, em instrumento de luta pela defesa de sua própria etnia.

Exposição conta a luta dos índios yanomami em meio a críticas de Bolsonaro

“Fiz isso pela minha história, porque como os índios perdi meus parentes, mas no holocausto”

B.J.

Um pequeno extrato do extenso acervo do trabalho da fotógrafa suíça Cláudia Andujar sobre a luta da etnia yanomami, um dos povos indígenas isolados do Brasil, está exposto a partir deste sábado no Instituto Moreira Salles, em São Paulo. São 300 imagens, documentos e uma instalação audiovisual distribuídos em dois andares que contam a cultura desse povo e também a longa luta política que culminou com a demarcação de 8.000.000 de hectares como suas terras tradicionais no norte do país, em 1992. A exposição foi inicialmente planejada para não deixar que o país esqueça a memória e o trabalho de uma estrangeira que dedicou décadas para entender a cultura yanomami e desempenhou um papel importante na luta indígena. Agora, ganha outros contornos com as reiteradas declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro contra essas demarcações, especialmnete as dos yanomami, que segundo ele são superdimensionadas.

“Queríamos mostrar a história dessa luta que estava ganha, mas veio última eleição e mostrou que a luta não terminou”, afirma o curador da exposição, Thyago Nogueira. As críticas de Bolsonaro foram incorporadas na exposição. Na parte dedicada à luta política desse povo por garantir seus direitos preservados, um vídeo do ex-presidente no qual promete não demarcar mais nenhum centímetro de terra indígena. “Os índios não conseguiriam viver em pequenos quintais de terra”, diz Cláudia, defendendo o tamanho do território demarcado. “O problema é que ali há muitos minérios de terra e invasões contínuas. São tensões que vão continuar. A situação atual é complicada, mas o governo não vai encontrar o mesmo povo daqueles tempos. Algumas pessoas do povo yanomami já entendem que existe novamente este problema do governo querer ocupar aquele espaço. Eles querem permanecer ali, alguns ainda isolados, mas não são tão vulneráveis como naquela época”, afirma a fotógrafa.

A exposição está dividida em duas partes. Na primeira, imagens feitas por Cláudia para mostrar as tradições e o modo de viver desse povo, uma apresentação sensível dos índios yanomami. Na segunda parte, imagens de quando a trajetória de Cláudia passa a ser mais social com imagens que se aproximam da denúncia. A fotógrafa suíça passa a se tornar uma importante ativista pelo direito dos yanomami à saúde, à terra e a ter suas tradições respeitadas. É um passeio por uma luta política que durou mais de uma década e que, agora, retorna à pauta do novo governo.

Claudia Andujar – A luta Yanomami

Abertura: 15 de dezembro, às 11h

Visitação: até 7 de abril de 2019

Entrada gratuita

Galerias 2 e 3

IMS Paulista

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