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Caso Odebrecht encurrala procurador-geral na Colômbia

Oposição exige a renúncia de Néstor H. Martínez após publicação de gravações de testemunha-chave.

Presidente Iván Duque pede a nomeação de um promotor especial para investigar o escândalo

Jorge Enrique Pizano
A sede da empreiteira Odebrecht em São Paulo Getty

As dúvidas sobre o passado de Néstor Humberto Martínez estão a ponto de desencadear um terremoto político na Colômbia. As conversações que o procurador-geral manteve em agosto de 2015 com Jorge Enrique Pizano, testemunha-chave do caso Odebrecht, morto há 10 dias em decorrência de um infarto, agora geram questionamentos ao seu trabalho à frente do órgão encarregado de investigar os milionários subornos pagos pela empreiteira Odebrecht a autoridades do país. O presidente Iván Duque respaldou-o publicamente, mas nesta segunda-feira, 19, pediu a nomeação de um promotor especial para administrar a apuração do caso. As forças da oposição não se conformam com essa opção e exigem sua renúncia.

Martínez nega que as gravações conhecidas depois da morte de Pizano, auditor de um dos projetos dos quais a Odebrecht participou, demonstrem alguma responsabilidade. Mas os áudios, divulgados pelo telejornal Noticias Uno, deixam claro que ele estava a par das irregularidades da companhia na construção de um trecho da rodovia Ruta del Sol, uma das principais do país, ligando a região andina de Cundinamarca ao Caribe. Na época, ele era o advogado do Grupo Aval, conglomerado bancário que controla a Corficolombiana, uma empresa de serviços financeiros que se envolveu no projeto. Os familiares de Pizano pediram que todas as gravações sejam divulgadas.

Numa das conversas, Martínez reconhece que não sabia exatamente em quais atividades a empreiteira estava envolvida. “Não sabemos se os paramilitares estão dando a grana. Se houver corrupção, estão roubando de uns ladrões filhos da puta... Bom, eu lhe digo qual é a tese na qual estamos trabalhando: não sabemos se estes filhos da puta estão pagando subornos daqui para Governos estrangeiros, e não sabemos se estão pagando subornos aqui para o Governo colombiano.” No sábado passado, vieram a público novos detalhes da conversa. Pizano pergunta se deve continuar questionando ou se é melhor ficar quieto. “Não. Quieto, quieto”, respondeu-lhe o advogado.

O auditor havia detectado anomalias em seu trabalho de revisão das contas. “Não me informavam sobre a totalidade dos contratos… Comecei a detectar que os objetos se duplicavam, que os valores a serem entregues não estavam lá, e assim a investigação começou a ser realizada da minha parte. Eu simplesmente informei aos meus superiores”, relatou. Porém, na época ele não tinha certeza absoluta de que essas inconsistências estivessem relacionadas aos subornos de 84 bilhões de pesos (cerca de 107 milhões de reais) para assegurar a vitória na licitação da obra.

Martínez assumiu o controle do Ministério Público colombiano em agosto de 2016, sob o mandato do então presidente Juan Manuel Santos. No começo de 2017, quando começou a aflorar a trama de corrupção da Odebrecht na Colômbia, desvinculou-se da investigação do escândalo. As gravações semeiam novas dúvidas sobre sua idoneidade para ocupar o cargo. O próprio mandatário, que na semana passada expressou seu apoio, considera necessária a figura de um promotor específico para “ir a fundo” no caso. “Eu acredito que será solicitado. Primeiro o procurador-geral da nação já se declarou impedido e tinha designado a vice-procuradora-geral, a qual também está pedindo [um promotor] ad hoc”, disse Duque à rádio RCN, numa entrevista por ocasião dos primeiros 100 dias de seu governo.

A oposição vai além. Quer sua renúncia, ainda mais em um contexto de crescente indignação social. A corrupção é hoje na Colômbia a principal preocupação da população. O senador Gustavo Petro, principal adversário de Duque nas últimas eleições presidenciais, há dias critica Martínez. “Em outro país o promotor teria renunciado por decência. Na Colômbia o que temos é um regime da corrupção e um sistema de impunidade”, afirma. Claudia López, líder da Aliança Verde, acha insuficiente a nomeação de um promotor especial. “Fomos tratados como loucos. De repente, todos propõem um promotor ad hoc, mas somente para a Odebrecht. Algum colombiano quer que com essa capacidade de mentir e manipular Martínez seja promotor em algum caso?”.

A isso se acrescenta a trágica cadeia de mortes da família Pizano, que está sendo investigada. Jorge Enrique Pizano morreu de infarto. Três dias depois morreu seu filho, Alejandro Pizano Ponce de León, que viajou a Bogotá de Barcelona para participar do funeral. Desabou após beber uma garrafa de água que estava no escritório do pai e seu coração deixou de bater a caminho do hospital. A causa da morte, como confirmou o Instituto de Medicina Legal, foi envenenamento por ingestão de cianureto. No domingo, entretanto, a polícia encontrou um recipiente com cianureto na casa, envolto em uma sacola e guardado debaixo da pia. O mesmo Martínez afirmou que os melhores investigadores da Promotoria estão se encarregando do caso.

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