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“Sua cabeça está à venda”: a ameaça do Comando Vermelho à procuradora-geral do Paraguai

Assunção divulga um vídeo gravado por supostos membros da organização brasileira Comando Vermelho

Supostos membros do Comando Vermelho ameaçam de morte a procuradora-geral do Paraguai.
Supostos membros do Comando Vermelho ameaçam de morte a procuradora-geral do Paraguai.

O Ministério do Interior do Paraguai entregou à imprensa uma gravação em que supostos membros da organização criminosa brasileira Comando Vermelho fazem ameaças à procuradora-geral Sandra Quiñónez. Segundo as autoridades, o CV exigia a libertação de um de seus supostos líderes, Marcelo Pinheiro Veiga, preso em Assunção e alvo de um processo de extradição para o Brasil.

O vídeo mostra cinco homens armados com fuzis automáticos e encapuzados. Falam português, enquanto um deles mostra uma foto da procuradora Quiñónez. Os homens dizem à mulher que “sua cabeça está à venda” e lhe prometem que, se eles não completarem sua missão, outra equipe o fará. A mensagem dura 40 segundos e termina com os bandidos carregando seus fuzis e apontando para a câmera. Três dos protagonistas do vídeo já estão mortos. Foram abatidos num tiroteio pelas forças de segurança paraguaias no final de outubro, segundo relato do Governo.

O ministro do Interior e o procurador-geral de qualquer país provavelmente dormem pouco. Mas, no Paraguai, o sono do ministro Ernesto Villamayor e da procuradora Sandra Quiñónez deve ser especialmente interrompido por pesadelos com vozes gritando gírias brasileiras. Sobretudo desde que Marcelo Pinheiro Veiga, mais conhecido como Marcelo Piloto, foi detido, em 13 de dezembro do ano passado, em Encarnación, no extremo sul do país, durante uma operação internacional com a participação também do Brasil e Estados Unidos.

Veiga é acusado de ser um dos líderes do Comando Vermelho – que é, junto com o Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores organizações criminais brasileiras. Seus cúmplices já tentaram resgatá-lo duas vezes. Na última, planejavam derrubar com explosivos os muros da penitenciária de segurança máxima onde ele está preso, nos arredores de Assunção. Quando foram mortos em Presidente Franco, um município na fronteira com o Brasil, a polícia encontrou um veículo carregado com 83 quilos de dinamite em gel, além de um arsenal.

Depois da difusão do vídeo, Villamayor se reuniu com a procuradora e anunciou que o plano para libertar Veiga "foi abortado”. Acrescentou que a divulgação da ameaça serviu para que as autoridades identificassem o esconderijo do grupo em Presidente Franco, e que agora entregaram o material à imprensa para alertar sobre a situação.

Fronteira quente

As quadrilhas brasileiras realizam seus negócios ilegais e disputas com outros grupos também fora do território nacional, principalmente na chamada Tríplice Fronteira com a Argentina e o Paraguai, e até mesmo em Assunção. Segundo as autoridades brasileiras, o Comando Vermelho controla parte do tráfico de armas e drogas na região a partir de penitenciárias cariocas e favelas paulistanas.

Acompanhada de sua equipe, Sandra Quiñónez disse numa entrevista coletiva que “esta Procuradoria-Geral não retrocederá nem meio passo na convicção de enfrentar o crime organizado, a corrupção e a impunidade”. Quiñónez esclareceu que soube da ameaça através do Ministério do Interior, e que desde então houve reforço na sua segurança e na de outras unidades ameaçadas.

O Paraguai é o principal produtor de maconha da região, e 80% dessa produção tem como destino o mercado brasileiro, num negócio controlado pelas organizações locais, segundo as autoridades antidroga. A Tríplice Fronteira é também zona de passagem habitual da pasta-base de coca boliviana e de precursores químicos que são levados até laboratórios próximos a portos para transformar esse material em cocaína, que é então enviada para a África e a Europa.

O Governo paraguaio divulgou o vídeo depois que Veiga concedeu uma insólita entrevista coletiva numa sala da prisão de segurança máxima, acompanhado de seu advogado e rodeado de jornalistas. Ele mesmo se reconhece como traficante e comerciante de armas, mas afirma não ser “terrorista” nem chefe de nenhum grupo.

“Não é novidade para ninguém que eu vendi armas, drogas... Mas querer me chamar terrorista é algo que é totalmente mentira. E querem me colocar como um poderoso chefão que não existe”, disse Veiga na sua fala, exibida pela televisão. “Este é o país da corrupção”, acrescentou, antes de negar sua relação com as tentativas de tirá-lo da prisão.

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