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Legislativas não apontam uma estratégia clara para os democratas nas presidenciais de 2020

Afastada a onda azul, a oposição consegue seu objetivo de recuperar a Câmara dos Representantes, mas tira poucas conclusões sobre como derrotar Trump

Simpatizantes democratas festejam a vitória na Câmara dos Representantes dos EUA.
Simpatizantes democratas festejam a vitória na Câmara dos Representantes dos EUA. AFP

Os democratas salvaram os móveis. Pouco mais. Numa rápida noite de apuração em que em alguns momentos poucos milhares de votos separaram a onda azul do abismo, alcançaram seu objetivo principal: conquistar um contrapeso legislativo à agenda do presidente, pôr fim a quatro anos de maioria republicana nas duas Casas do Congresso, em suma, para acabar com o caminho livre de Donald Trump. Mas pouco mais do que isso poderão tirar de positivo neste segundo assalto com o mandatário mais extravagante e polarizador, que chegou às eleições legislativas, tradicionalmente ruins para o partido do presidente, com índices recordes de desaprovação.

A alegria que demonstraram com os resultados não esconde uma certeza: os democratas não conseguiram penetrar em profundidade no território Trump. Não há, portanto, nenhuma leitura conclusiva sobre a grande questão que eles vêm ruminando há dois anos: a estratégia para derrubá-lo em 2020.

Beneficiados por uma enorme injeção de dinheiro nas últimas semanas da campanha, e pelo poderoso movimento social do MeToo, os democratas ganharam assentos suficientes para controlar a Câmara baixa. As vitórias decisivas foram conquistadas em distritos suburbanos moderados, onde a retórica inflamada de Trump afastou os eleitores com educação universitária e outros grupos que compõem as tradicionais bases republicanas. Mas eles resistiram, de novo, em território rural. A diferença entre o país metropolitano e o suburbano (democrata) e o rural (republicano) é mais profunda do que nunca, e isso é algo que deverá preocupar os democratas, punidos por um sistema eleitoral que dá mais peso aos votos rurais.

Ficaram longe de controlar o Senado, algo que pela natureza das cadeiras em jogo era francamente difícil. E seus candidatos a governadores colheram resultados agridoces. A anunciada onda azul não chegou. "Fomos os donos do terreno", disse Nancy Pelosi, que, aos 78 anos, provavelmente voltará a ser presidenta da Câmara dos Representantes sete anos depois.

É verdade que algumas das proezas mais notáveis dos democratas não foram alcançadas em razão de margens muito apertadas. É o caso de Beto O'Rourke, o jovem candidato a senador democrata pelo Texas que, no final, por apenas 2,9%, sucumbiu ao poderoso republicano Ted Cruz. A história sepultará, sob o título "Republicano Ted Cruz vence no Texas", a façanha do jovem democrata protagonista de um fenômeno popular que esteve a ponto de tingir de azul o Estado conservador por excelência, com uma agenda progressista sem dissimulações.

Igualmente injusto seria resumir com a frase "o vitorioso Ron DeSantis será o novo governador da Flórida" a batalha perdida pelo democrata Andrew Gillum, um afro-americano de 39 anos, progressista sem concessões.

No Estado da Flórida, que votou a favor de Trump e, antes, duas vezes por Obama, os democratas tiveram os campos de provas mais puros para avaliar qual é a melhor maneira de enfrentar o presidente republicano em 2020. Além de Gillum, disputou na Flórida Bill Nelson, branco, septuagenário, centrista, que lutava por uma cadeira no Senado. Dois candidatos representando os dois polos do partido. Embora por pequenas margens, ambos foram derrotados.

Mas ganhou, como não poderia deixar de ser, outra estrela emergente, a jovenzinha Alexandria Ocasio-Cortez, de 29 anos, no bairro fortemente democrata do Queens, em Nova York. Será a mais jovem congressista do Capitólio. Mas talvez mais meritória tenha sido a vitória de Max Rose, candidato à Câmara dos Representantes por Staten Island, até então o único ponto vermelho na Big Apple. Staten Island votou em Trump em 2016, mas Rose se impôs ao candidato republicano com uma mensagem centrista e enfatizou seu status de veterano da guerra do Afeganistão acima de sua filiação partidária.

Outro democrata moderado, o senador Joe Manchin, foi reeleito na Virgínia Ocidental, onde Trump venceu em 2016 com mais de 40 pontos. Para apelar aos eleitores trumpistas, Manchin chegou a votar com os republicanos em favor da nomeação de Brett Kavanaugh para juiz da Suprema Corte. Mas os também moderados John Donnelly e Heidi Heitkamp, dos Estados cada vez mais conservadores de Indiana e Dakota do Norte, perderam seus assentos para os adversários republicanos.

As eleições oferecem argumentos para todas as correntes, esquerdista e centrista, ortodoxa e heterodoxa, jovem e veterana, que serão medidos nas primárias para o candidato presidencial, que terão início oficiosamente depois que os resultados tiverem sido digeridos.

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