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Coluna
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Primeiro teste de Bolsonaro: quantas mulheres terá seu Governo?

Talvez a maior revolução hoje seja a tomada de consciência das mulheres que exigem o papel que lhes cabe em uma sociedade onde são maioria

Juan Arias
Membros da equipe de Bolsonaro concedem entrevista coletiva no RJ nesta terça-feira, 30
Membros da equipe de Bolsonaro concedem entrevista coletiva no RJ nesta terça-feira, 30SERGIO MORAES (REUTERS)
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Um dos primeiros desafios do novo presidente, Jair Bolsonaro, acusado de misógino depois de ter confessado que sua única filha foi resultado de um “descuido”, será saber quantas mulheres farão parte de seu primeiro Governo e se terão poder ou serão decorativas. Talvez devessem lembrá-lo da chuva de acusações contra o presidente Michel Temer, que, em seu Governo, se esqueceu das mulheres. Além disso, ele as exaltou como “recatadas e do lar”. Ali era o lugar delas.

Semanas atrás milhares de mulheres saíram em massa às ruas para dizer NÃO à candidatura do capitão Bolsonaro, mas também é verdade que grande parte do mundo feminino acabou votando nele. Teremos de ver agora se esses votos femininos terão ressonância em seu Governo. Não se pode esquecer que hoje no Brasil e no mundo talvez a maior revolução seja a tomada de consciência das mulheres que exigem o papel que lhes cabe em uma sociedade onde são maioria.

Assim o entenderam os presidentes de muitos países de democracias consolidadas, que últimos anos, na hora de formar seus gabinetes ministeriais colocaram mulheres em cargos de per e responsabilidade. No Governo espanhol formado em maio, por exemplo, dos 17 ministros, 11, ou 64%, são mulheres. Elas receberam ministérios importantes como Justiça, Educação, Saúde e Trabalho. Na França, 52% do Governo Macron é composto por mulheres. Na Suécia 52% e no Canadá 51%. Em todos esses países, as mulheres dirigem ministérios de primeira importância, inclusive o ministério do Exército. E essa presença feminina é percebida hoje tanto nos Governos de esquerda quanto nos de direita, como são os casos do socialista Sánchez na Espanha ou do conservador Macron na França.

Se hoje a mulher pode dirigir de um exército a uma empresa multinacional, não se entende essa resistência dos políticos a colocar mulheres em ministérios importantes. São justamente as mulheres que estão, na vida real, mais próximas dos problemas que mais preocupam as pessoas. Nunca entendi, por exemplo, por que no Brasil, onde um dos problemas mais graves é a educação, com milhões de mulheres professoras, o ministro da Educação tem de ser sempre um homem. O mesmo se pode dizer dos ministérios da Saúde e da Justiça.

Quem sabe, Bolsonaro pode acabar negando as acusações que pesam contra ele a respeito de seu pouco apreço pelas mulheres e surpreendendo ao colocar, para governar o quinto maior país do mundo, um punhado de mulheres com experiência e qualificação que represente esse planeta feminino. Um planeta cada vez mais interessado em participar da resolução dos problemas que afligem a sociedade que sofre o açoite da violência, do desemprego, de uma das maiores desigualdades sociais do mundo e do desencanto de seus milhões de jovens.

Se algo deve ser reconhecido à mulher desde a antiguidade até hoje é ter uma maior sensibilidade para detectar a dor e a angústia humana. A tragédia da mulher talvez tenha começado quando os homens fizeram os deuses masculinos depois de terem destronado Gaia, a primeira deusa da Terra. É possível que, enquanto nas igrejas monoteístas se continue adorando um Deus masculino, a mulher seguirá tendo pouco ou nenhum peso nos governos dos políticos que, mesmo se dizendo religiosos, ainda acreditam que um filho homem é sempre um prêmio maior dos deuses do que uma mulher.

A ministra protestante Judith Van Osdel, em uma reunião de mulheres em Buenos Aires, cunhou uma frase que ficou famosa: “Onde Deus é homem, os homens se consideram deuses”. Assim, o papel das mulheres acaba sendo servir-lhes em vez de compartilhar com eles o poder e a responsabilidade de pensar e governar o mundo.

Enquanto divindade é um substantivo feminino em quase todas as línguas, os deuses sempre acabaram sendo masculinos. Política também é uma palavra etimologicamente feminina, mas a fizemos tão masculina que no Dicionário Houaiss aparece como sinônimo de “astúcia e maquiavélico”, mas também chegou a significar “delicadeza” um dia. Exatamente o que nos falta hoje, enquanto sobram machismo e brutalidade.

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