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Por que o Brasil sempre precisa ser governado por algum deus?

O novo deus militar, diante do qual a maioria dos brasileiros parece disposta a se ajoelhar, se parece mais com o Deus do Antigo Testamento, o do “olho por olho e dente por dente”

Uma loja no Rio de Janeiro vende camisetas em apoio a Jair Bolsonaro.
Uma loja no Rio de Janeiro vende camisetas em apoio a Jair Bolsonaro.Marcelo Sayão (EFE)
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Milhões de evangélicos e católicos se dispõem a votar no novo deus, o capitão Bolsonaro. Existe, entre crentes e agnósticos nesse país, uma inclinação a querer ser governados não por um político normal e sim por um deus, capaz de resolver todos os seus problemas. Primeiro foi Getúlio Vargas. Adorado pelas massas, de agnóstico acabou, por conveniência, flertando com os católicos e introduziu o ensino da religião na escola pública. Acabou se suicidando com um tiro no coração. Depois veio Lula, o deus da boa nova, o que trazia o Brasil ao paraíso reencarnado. Havia antecipado o futuro. É católico e foi comparado a Jesus Cristo. Acabou na cadeia condenado por corrupção. E agora vem o deus Bolsonaro que já foi católico e agora é evangélico. Ainda não chegou ao trono e já tentaram matá-lo. E está convencido de que Deus agiu para que não morresse. “Deus acima de tudo!”

O novo deus militar, diante do qual a maioria dos brasileiros parece disposta a se ajoelhar, se parece mais com o Deus do Antigo Testamento, o dos trovões e raios, o vingador, o do “olho por olho e dente por dente”, do que com o do Novo Testamento, o reino do diálogo, da dialética e do paradoxo. O que levou Jesus a dizer que “quem com a espada fere, pela espada morre”, e ao mesmo tempo: “não vim trazer a paz e sim a guerra”. O que predicava que o Reino era para os últimos, os desprezados e sem dinheiro, e ao mesmo tempo se sentava à mesa dos ricos. É um Deus difícil de assimilar o que oferece um Reino “que não é desse mundo”, mas tem que agir misturado ao barro humano.

Ao que parece, os brasileiros religiosos hoje preferem o Deus que castiga e mata. Preferem o que encarna o fariseu que, em pé, na primeira fila, no templo, se gabava: “Te dou graças, Senhor, porque eu não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como esse publicano”. Este, inclinando-se ao solo, “batia no peito dizendo: Deus, tenha piedade de mim, que sou um pecador”. O evangelho diz que o publicano saiu purificado e o fariseu, o justo, reprovado por Deus.

No verdadeiro cristianismo, o que mudou a vingança pelo perdão, deveriam caber justos e pecadores, crentes e ateus, ricos e pobres, sábios e ignorantes, reis e vassalos. Nele há espaço para todos, ainda que com preferência aos mais despossuídos e esquecidos pelo poder. Se o Brasil apostar dessa vez pelo deus da raiva, o da justiça sem misericórdia, temo muito que possamos voltar aos tempos sombrios em que a violência era bendita pela Igreja.

O novo deus que os brasileiros parecem querer escolher poder ser mais perigoso porque aparece como o que não mente. O que não engana e não se corrompe. E ainda que pareça um paradoxo, esse novo deus pode ser aterrador porque sabemos que está disposto a cumprir o que promete, sem esperança de que possa se arrepender. Sabemos, por exemplo, que o novo deus militar gosta da tortura, da pena de morte, da velha lei do talião. Que lhe pareceria normal dar um autogolpe se não o deixarem governar como quer. Que acha que certas pessoas como negros, índios, homossexuais e mulheres são inferiores às outras. Sabemos que esse novo deus militar dos brasileiros é capaz de realizar o que promete e ameaça. Nele, o não mentir pode ser trágico.

Seus seguidores religiosos se esquecem que é verdade que Deus não mente, mas também que existem verdades que nos alimentam e libertam e verdades que nos prendem e envenenam. Não seria melhor, em política, deixar a Deus o que é de Deus e aos homens o que é dos homens? Nada mais perigoso, de fato, do que quando os políticos decidem brincar de Deus. E o Brasil hoje não está preparado para brincadeiras perigosas.

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