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Nem Bolsonaro nem Haddad: eleitores optam por votar nulo no segundo turno

De um lado, a leitura de um futuro nebuloso, de outro, a de um passado de erros. Entre direita e esquerda, uma massa de eleitores que se recusam a votar nos dois candidatos

Tássia Farssura, eleitora paulistana, não enxerga saída em Haddad, mas também não acredita em Bolsonaro.
Tássia Farssura, eleitora paulistana, não enxerga saída em Haddad, mas também não acredita em Bolsonaro.

Bruno Santos* tem 21 anos e não vai escolher um candidato a presidente no próximo dia 28. Em sua opinião, há um acirramento na disputa destas eleições, mas as urnas são apenas um reflexo das ruas, que já vêm sendo palco de atos de intolerância contra as minorias há tempos. “Para mim, votar nesse segundo turno significa alimentar uma narrativa cheia de dicotomias heroicas, esquerda contra a direita, o bom contra o mau candidato. Seja quem vença as eleições, o cenário não muda. Todos os candidatos estão se aproveitando do medo”, explica o paulistano.

O clima de tensão entre a população brasileira, que tem feito inclusive vítimas nas ruas, também tem transformado eleitores convictos em embaixadores voluntários de campanha, com a missão às vezes insistente de transformar indecisos ou pessoas que não querem escolher nenhum dos dois candidatos em eleitores do seu campo. Conforme pesquisa realizada pelo IBOPE, divulgada na última segunda-feira (15), 9% dos eleitores consultados declararam voto nulo ou branco para o segundo turno, o que deve beneficiar o candidato que está na frente nas pesquisas, já que os votos nulos, brancos e abstenções não são contabilizados e acabam indiretamente por dar vantagem a quem está em primeiro na disputa. Por isso, pessoas como Bruno têm sido bastante pressionadas a se posicionar diante da polarização.

À direita estão os eleitores de Bolsonaro, candidato à frente na corrida eleitoral, com propostas pouco específicas e um discurso conservador. O capitão da reserva aposta em uma estratégia de campanha polêmica e “antissistema” que alerta para o perigo de uma suposta ditadura socialista, ou de o Brasil virar a Venezuela, caso a oposição vença as eleições. À esquerda, os de Haddad, candidato substituto do ex-presidente Lula nas eleições presidenciais, com propostas de reavivar o projeto do PT, e que baseia sua mensagem na ideia de que sua eleição significa a defesa da democracia em oposição à volta do autoritarismo, representado por Bolsonaro, um admirador da ditadura militar.

“Ficou no ar essa de votar contra o fascismo ou votar contra o comunismo e nenhum dos dois representa isso, na minha visão", afirma Fernando Teló, 29 anos, morador de Maringá (Paraná), zona eleitoral em que 60,1% dos votantes escolheu Bolsonaro no primeiro turno. O jovem se refere ao cenário político partidário do segundo turno como um “Grenal Eleitoral”, em referência ao clássico entre os times Grêmio e Internacional, e confessa que tem evitado falar de política. "Me sinto obrigado a pisar em ovos nesse assunto, ficou tudo mais delicado e as pessoas ficaram imprevisíveis. Evito ainda mais s quando se trata do Bolsonaro, pois tem número maior de eleitores dele aqui”.

Jennifer Ferreira* mora na periferia de São Paulo e também tem sentido receio em relação aos apoiadores do Bolsonaro.“Eu tive que bloquear um cara que nem me conhecia e veio me perseguir no Facebook porque eu tinha repudiado em um comentário as agressões sofridas pela MC Banana [que é transexual]. É uma loucura, parece que estamos voltando à ditadura". Mas, apesar de a jovem de 23 anos temer a eleição de Bolsonaro, ela não acredita que mais um governo do PT seja a saída. Durante a gestão Haddad, ela morou embaixo do Viaduto Alcântara Machado e relata que lutou contra pelo menos três tentativas de remoção de sua casa. “Eu não votei no primeiro e não tô com nenhuma vontade de ir votar no segundo. Morei na rua e sei que os de baixo sempre sofrem.”

A descrença na política inclusiva do PT também está presente na justificativa de Bruno que não vê nas propostas de Haddad uma realidade possível para seu cotidiano que, segundo ele, é marcado pela precariedade dos subempregos e privatização do ensino superior. "O Haddad enche a boca pra falar do FIES e se esquece das pessoas que se endividaram por não conseguir arcar com os custos do ensino privado", conta o jovem, referindo-se ao programa de crédito estudantil que é uma das vitrines da gestão Haddad no Ministério da Educação. Há três anos ele tenta ingressar numa universidade pública.

Juntos, os três jovens representam o sentimento de uma parte dos brasileiros nestas eleições de 2018, em que 30 milhões de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O nível de abstenção, de 20,3%, é o mais alto desde as eleições de 1998, quando 21,5% do eleitorado não votou, apesar de o voto ser obrigatório. Há 12 anos, o índice de abstenção tem sido crescente. Em 2006, 16,8% da população não compareceu às eleições presidenciais. Em 2010, o índice foi de 18,1%. Em 2014 chegou a 19,4% e agora passou para 20,3%, segundo o TSE. Apesar do aumento, a socióloga Fátima Pacheco Jordão acredita que esses números não sejam estatisticamente relevantes, por conta da margem de erro e de cadastros desatualizados na Justiça Eleitoral.

A militância pelo voto de misericórdia

No terreno minado das eleições, há desentendimentos por todos os lados e tem sobrado farpa até para quem não acredita que tomar partido diante da polarização seja a solução. Evânio Cézar, 25 anos, morador de Areado, Minas Gerais, está decidido a anular seu voto e, ao se posicionar entre os amigos, relata que tem sido pressionado a votar para salvar o país. O mineiro relatou que os apoiadores de Bolsonaro têm sido mais incisivos em conquistar seu voto para evitar uma possível ditadura bolivariana. “Os argumentos são de que ele realmente vai mudar o Brasil e tirar o PT da presidência”. Ele complementa dizendo que se sente intimidado a tomar um lado, mas que percebe as pessoas mais alienadas: “Às vezes me dá medo porque percebo que só estão indo na onda da internet, sem levar em conta uma boa proposta de Governo para o Brasil.”

Já Tássia Farssura, 34 anos, paulistana que também já optou pelo voto nulo, reclama ter sido mais abordada por eleitores do Haddad, candidato em desvantagem na corrida eleitoral e que, de fato, precisa conseguir converter alguns indecisos. “Chegaram a apelar: você quer bolsa de doutorado, fazer pesquisa e vai deixar o Bolsonaro entrar?", conta a mestra em gestão de projetos de engenharia civil, que há dois anos tenta uma bolsa para sua pesquisa de doutorado.

Fátima Pacheco Jordão aponta para a manifestação dos não-votantes como um ato de descontentamento com o instrumento político partidário. “A população não consegue perceber nas lideranças políticas partidárias aquilo que elas procuram”. " Mas à medida que o dia da eleição se aproxima, parte importante do eleitorado resolve em quem vai votar. Às vezes, na última semana, quiçá, no último dia”, diz a também especialista em pesquisa de opinião. Com o cenário, ela enxerga uma forte tendência popular em reivindicar outras formas de democracia, mas pondera: “é provável que a população peça por uma maior participação num sentido plebiscitário, mas é provável que as elites irão preferir fazer uma reforma política."

*Nome fictício, usado para preservar a identidade dos entrevistados a pedido deles.

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