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Ataques de Bolsonaro à imprensa projetam relação tumultuada no próximo Governo

Capitão tem estimulado o descrédito da mídia, em especial o jornal 'Folha de S.Paulo', imitando a estratégia de Donald Trump

Homens leem as manchetes em banca de jornal de Brasília.
Homens leem as manchetes em banca de jornal de Brasília. AFP

Há um clima de apreensão entre jornalistas brasileiros com a chegada do governo de Jair Bolsonaro. O novo presidente eleito e seu grupo mais próximo assumiram a postura de embate com profissionais e veículos que façam reportagens contrárias a eles, imitando a estratégia adotada pelo presidente americano Donald Trump. E começam a assumir o jargão preferido de Trump, fake news, para classificar as notícias que eles sintam como desfavoráveis. Na primeira entrevista que concedeu à Rede Globo após se sagrar vitorioso, o capitão da reserva reiterou a linha de confronto com o jornal Folha de São Paulo, que já havia sido atacado por ele, chamada de ‘a maior fake news do Brasil’ em discurso a seus eleitores.

Na Globo, Bolsonaro foi questionado sobre o compromisso que assumiu em seu discurso de apoio à liberdade de imprensa e os pronunciamentos que tem feito contra a Folha. “O senhor sempre se declara enfaticamente sobre a liberdade de imprensa, mas em alguns momentos da campanha chegou a desejar que um jornal [Folha de S.Paulo] deixasse de existir. Como presidente eleito o senhor vai continuar defendendo a liberdade de imprensa e a liberdade do indivíduo de escolher o que ele quiser ler, ver ou ouvir?”, perguntou o jornalista William Bonner.

O presidente eleito respondeu que “por si só, esse jornal se acabou (...) no que depender de mim, imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos do governo federal”. Ele se referia a uma reportagem da Folha que denunciava o pagamento, com verba de seu gabinete, para uma funcionária que cuidava de sua casa de veraneio em Mambucaba (RJ) e não trabalhava em Brasília, como deveria para ganhar essa verba. Não foi a primeira vez que o capitão ameaçava o jornal com o corte de verba publicitária. Em 24 de outubro ele já havia dito que "a mamata da Folha vai acabar, mas não é com censura não! O dinheiro público que recebem para fazer ativismo político vai secar".

Flavio Bolsonaro, que acaba de ser eleito senador, também deu sua contribuição para a guerra contra veículos que questionem seu pai. O portal Congresso em Foco publicou um editorial intitulado “Bolsonaro é o pior que pode acontecer”. Em um trecho diz “Se fosse aplicado a Bolsonaro o rigor no cumprimento das leis que ele exige contra os seus adversários e se o sistema judicial brasileiro funcionasse com critérios ideais de eficiência e justiça, acreditamos que o capitão estaria hoje na cadeia, por seus atos e por suas palavras”. Na sequência, Flavio tuitou que o Congresso em Foco recebia 100.000 reais por mês do governo “para fazer militância esquerdopata” sem dar evidências do fato. A afirmação foi rebatida pelo portal que abriu seus dados para os leitores sobre quanto já havia recebido de verba de governo: 70.000 reais ao longo de 2017. Vale lembrar que Temer não tem viés de esquerda.

Tudo indica que a postura beligerante dos Bolsonaro tem contagiado seus eleitores. Levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) dão conta de 141 casos documentados de ameaças e violência contra jornalistas que trabalharam nas eleições. Segundo a entidade, “a maioria deles é atribuída a partidários de Bolsonaro”. A outra parte veio de apoiadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Em Fortaleza, duas jornalistas de O Povo e da TV Verdes Mares que acompanhavam as comemorações da vitória de Bolsonaro no comitê da campanha, foram agredidas fisicamente durante a festa, empurradas no chão e agarradas pelo rosto. A ação rendeu uma nota pública de repúdio do jornal. O jornalista Ricardo Galhardo, do jornal O Estado de São Paulo, tem recebido ligações, xingando ou simplesmente sem falar nada, desde que o empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, divulgou no twitter o celular do jornalista, que lhe telefonou para perguntar sobre a polêmica de que estaria pagando para disparar mensagens por whatsapp contra o PT.

Em São Paulo, do palanque montado próximo ao Masp, na Paulista, deputados eleitos e ativistas também faziam críticas à imprensa e xingavam veículos que chamaram Bolsonaro de fascista ou ultradireitista durante a campanha eleitoral. "Eu vivi para ver a Rede Globo dizer que Jair Bolsonaro é o novo presidente do Brasil", afirmou a deputada federal eleita Carla Zambelli. Em resposta, manifestantes gritavam "Abaixo a Rede Globo". E Zambelli puxava um coro em referência à música que há anos é a trilha da campanha de fim de ano da emissora: "Hoje é um novo dia, de um novo tempo, que começou".

A diretora da Human Rights Watch no Brasil, Maria Laura Canineu, criticou as agressões que foram feitas aos jornalistas durante a campanha. "Qualquer um pode discordar de uma reportagem, e deve ter o direito de fazê-lo publicamente, mas ameaçar o jornalista e incitar outros a fazer o mesmo não só põe em perigo a segurança pessoal dos jornalistas, mas prejudica a liberdade de expressão e a democracia", afirmou.

Adversários do presidente eleito aproveitaram para se posicionar e defender a imprensa. O ex-governador de São Paulo e candidato derrotado à presidência Geraldo Alckmin (PSDB) criticou a fala do presidente eleito. "Os ataques feitos pelo futuro presidente à Folha representam um acinte a toda a imprensa e a ameaça de cooptar veículos de comunicação pela oferta de dinheiro público é uma ofensa à moralidade e ao jornalismo nacional". Nas redes sociais vários internautas postaram mensagens de apoio ao jornal, alguns até dizendo que haviam acabado de assinar a Folha como protesto ao autoritarismo de Bolsonaro. Reação semelhante à que ocorreu nos Estados Unidos após a eleição de Donald Trump, que criticou o The New York Times e acabou catapultando o número de assinantes do jornal. Assim como o presidente norte-americano, que se mostra afinado com a rede Fox News, Bolsonaro tem dado preferência à TV Record, cujo dono, o bispo Edir Macedo, manifestou-lhe apoio durante a campanha, e a rádio Jovem Pan para dar seus recados.

“Lixo”

No dia da vitória de Bolsonaro, logo após o resultado oficial das eleições, o assessor de imprensa do presidente eleito insultou dezenas de jornalistas em um grupo de WhatsApp onde circulavam informações sobre a agenda de campanha do capitão. Eduardo Guimarães, que é ligado oficialmente ao gabinete de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) mas trabalha para pai e filho, postou uma imagem com os resultados da pesquisa de boca de urna com os dizeres "UÉ.... não tava quase empatado? Vocês são o maior engodo do Jornalismo do Brasil!!!! LIXO". No dia seguinte, voltou atrás e se deculpou.

Um caso emblemático de ataque a jornalistas ocorreu com a repórter da Folha Patricia Campos Mello, autora de uma matéria sobre um suposto esquema de caixa 2 de Bolsonaro para alimentar uma rede de disparos em grupos de WhatsApp. Ela teve seu telefone celular hackeado, mensagens apagadas e seu aparelho foi usado para o envio de mensagens favoráveis ao capitão. Mello também recebeu uma série de ligações com ameaças, além de ter sido alvo de montagens fotográficas e fake news distribuídas pelos simpatizantes de Bolsonaro.

Os mecanismos que fizeram com que o presidente eleito se autointitulasse uma vítima da mídia e das fake news é complexo. O antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos e especialista em estratégia militar, definiu o fenômeno em entrevista ao EL PAÍS: "Ele conseguiu colar a versão de que a mídia é, ela própria, uma fake news. Então toda a polêmica que fica exposta ele capitaliza depois mostrando que é o anti sistema lutando contra o establishment". A estratégia se assemelha à que foi posta em prática pelo presidente Trump, que usa o twitter para dizer que a grande imprensa americana, incluindo o The New York Times e o The Washington Post, dois dos jornais mais respeitados do mundo, são "fake news". Mas o mesmo Partido dos Trabalhadores já havia criado uma desconfiança contra os jornais sempre que o ex-presidente Lula tratava com uma certa segregação “a grande mídia”, e deixou que seus eleitores criassem o bordão “Partido da Imprensa Golpista”, em alusão aos veículos que teriam apoiado o impeachment. Mas, o relato de jornalistas, como Daniela Lima no artigo “Diga-me com quem andas”, é que o tom subiu com a ascensão de Bolsonaro.

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