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Um país feliz e soberano para todos

O acesso à educação e a um trabalho decente são vacinas para se construir uma geração livre de fome e de pobreza e a volta de um Brasil democrático, com menos desigualdades, mais justiça, mais coesão, mais soberania e mais paz. Que as brasileiras e brasileiros façam sua escolha com tais premissas em mente

O presidenciável Fernando Haddad, durante um comício no Rio de Janeiro.
O presidenciável Fernando Haddad, durante um comício no Rio de Janeiro. AFP

Há pouco mais de quatro meses, neste mesmo El País, denunciamos que a fome ainda persistente no mundo é um crime. Um mundo que dispõe de comida suficiente para alimentar a todos, mas que desperdiça um terço do que produz. Um mundo em que sabemos as causas profundas da fome e as soluções para combatê-la.

Essas soluções foram parte do debate do Dia Mundial da Alimentação, celebrado há alguns dias, na FAO e em que ambos estivemos presentes. A despeito do contínuo aumento da fome em escala global —já são mais de 821 milhões de pessoas subalimentadas em todo o planeta— lembramos que erradicar a fome até 2030 ainda é possível. E, juntos, lembramos da experiência brasileira como modelo para esse sucesso.

Com o Fome Zero e as políticas sociais subsequentes, como o Bolsa Família, o Brasil conseguiu reduzir a fome de 10,6% de sua população total (cerca de 19 milhões de pessoas) no início dos anos 2000 para menos de 2,5% no triênio 2008-2010, segundo as estatísticas da FAO. Tudo isso em menos de dez anos.

Sob a liderança do ex-presidente Lula, os pobres passaram a ter lugar de destaque no orçamento, e seu direito a três refeições diárias, assegurado. "Precisamos superar a fome, a pobreza e a exclusão social. Nossa guerra não é para matar ninguém: é para salvar vidas”, disse ele em seu discurso de posse. Repetindo o que escrevemos em junho: a paz é uma dinâmica complexa e permanente das relações entre pessoas e povos em que os alimentos ocupam lugar fundamental. Era um Brasil com problemas, mas que melhorava com ferramentas democráticas mais consolidadas.

A alguns dias do segundo turno das eleições, devemos propor a seguinte pergunta: que futuro se pode escrever para o país a partir de 1º de janeiro? Para melhor saber a resposta a essa pergunta, os eleitores deverão ter a capacidade e discernimento de quem melhor escolher nas urnas.

A votação opõe dois candidatos que diferem diametralmente em visões de mundo. Enquanto um deles assume o conservadorismo como doutrina —segundo apontou um de seus colaboradores mais próximos em artigo recente, chegou ao fim o ideal progressista brasileiro no qual “leis devem ser criadas para fazer justiça social e buscar atingir igualdade social sempre que possível em todos os aspectos da sociedade”— o outro reúne o fomento à educação e o estímulo a empregos de carteira assinada como as suas maiores armas.

Mas em tempos em que a desconstrução do oposto suplanta a valorização do si mesmo, falemos daquele candidato que melhor poderá representar a continuação de um Brasil que deu certo para todos.

Fernando Haddad, professor e economista, eleito um dos melhores prefeitos do mundo quando administrou a maior cidade do Brasil, São Paulo, e ministro da educação que se notabilizou por multiplicar as universidades e as vagas para pobres para diminuir o abismo social, encarna os princípios e reúne os requisitos para reconstruir a paz no Brasil.

Em São Paulo, Haddad replicou localmente a exitosa experiência nacional do Fome Zero: sancionou lei municipal que vinculou a compra de produtos da agricultura familiar ao abastecimento do programa de alimentação escolar de São Paulo. E com uma grande inovação: os produtos deveriam ter base agroecológica, dando prioridade, assim a uma produção sustentável, livre de agroquímicos e em conformidade com o mundo que hoje que clama pelo racionamento de seus recursos escassos.

Uma simples e inovadora ação foi capaz de não apenas promover desenvolvimento econômico à uma tradicional zona vulnerável da cidade (Parelheiros), mas também reforçar as escolas paulistanas com uma alimentação de qualidade —e sustentável. Esse projeto foi premiado pela Bloomberg Philanthropies, em 2016, concorrendo com iniciativas de quase 300 cidades ao redor do mundo— US$ 5 milhões foram doados à Prefeitura pelos norte-americanos para reforçar os investimentos no projeto.

Como gestor da educação no Brasil por sete anos, Haddad massificou o acesso dos brasileiros mais pobres à universidade, com a ampliação dos programas de crédito e a abertura de novas vagas. Além disso, espalhar escolas técnicas profissionalizantes pelo país e implantou o piso salarial para os professores, uma demanda de décadas.

Esses dois principais pilares de seu programa, educação e emprego de qualidade, são requisitos amplamente reconhecidos como essenciais para a paz e para o desenvolvimento do país. Haddad tem a clareza de que esses pilares não são possíveis sem uma política de segurança pública eficiente, com base na prevenção e no reforço das táticas de inteligência contra o crime organizado. Com sua integridade física preservada, os brasileiros poderão ter melhores condições de assegurarem esses e todos os outros direitos fundamentais.

O acesso à educação e a um trabalho decente são vacinas para se construir uma geração livre de fome e de pobreza e a volta de um Brasil democrático, com menos desigualdades, mais justiça, mais coesão, mais soberania e mais paz. Que as brasileiras e brasileiros façam sua escolha com tais premissas em mente.

José Graziano da Silva é ex-ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome. Adolfo Pérez Esquivel é Prêmio Nobel da Paz e membro da Aliança da FAO pela Segurança Alimentar e Paz.

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