REINO UNIDO

May pede unidade ao seu partido e anuncia “futuro promissor” depois do ‘Brexit’

Primeira-ministra do Reino Unido, encurralada pelos eurocéticos, fala no encerramento do congresso dos conservadores

May entra dançando no palco pouco antes de seu dicurso.
May entra dançando no palco pouco antes de seu dicurso.Jeff J Mitchell (Getty )

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May ofereceu seu melhor esforço e algo semelhante a um sorriso ao subir ao palco para encerrar o congresso anual do Partido Conservador, em Birmingham. Ao som da canção Dancing Queen, do Abba, tentou inclusive marcar alguns passos de dança. Haviam se passado poucas horas desde a fala de seu rival Boris Johnson, que entusiasmou os quase 1.500 delegados com sua defesa dos valores conservadores e seu ataque impiedoso ao plano Chequers da primeira-ministra. Não era o único contratempo para a chefa de Governo. Um deputado da Câmara dos Comuns, James Duddridge, entregou uma “carta de não confiança” à direção do grupo parlamentar exigindo uma mudança de líder. O movimento não representa nada em si mesmo, mas pode ser o início de uma futura moção de desconfiança contra May, caso ganhe a adesão de 49 outros parlamentares.

A primeira-ministra tentou em seu discurso confrontar os três rivais que colocam em risco seu futuro político: Johnson, o Partido Trabalhista e a União Europeia. Aos dois primeiros lançou a mesma mensagem, contrapondo “patriotismo” a nacionalismo, e moderação a radicalismo. “Milhões de pessoas que nunca nos apoiaram estão horrorizadas com o que Jeremy Corbyn fez com o Partido Trabalhista. Querem apoiar um partido que seja decente, moderado e patriota. Que situe o interesse nacional em primeiro lugar e se encarregue dos assuntos que preocupam a todos. E que se encontre à vontade em meio a toda a diversidade que um Reino Unido moderno acarreta”, afirmou May.

Embora há dois anos o Brexit condicione o debate político britânico e esteja na agenda diária de May, a primeira-ministra tentou lançar a mensagem implícita de que será capaz de passar com sucesso o Rubicão de 29 de março, a data para a saída definitiva do Reino Unido das instituições europeias. “Não permitam que ninguém diga que não temos o que é preciso. Estamos totalmente capacitados para triunfar”, assegurou May, numa desesperada tentativa de transmitir otimismo e recuperar a unidade nas fileiras conservadoras. May tornou a exigir respeito ao Reino Unido por parte da UE. “Não temos medo se as negociações terminarem sem acordo, se for necessário”, advertiu. A primeira-ministra se aferra ao seu plano Chequers e se nega a aceitar as duas soluções que, segundo ela, Bruxelas propõe: permanecer na união alfandegária e aceitar a liberdade de movimento de pessoas, as regras e jurisdição comunitárias, ou estabelecer uma nova fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte se o Reino Unido decidir negociar uma nova associação comercial com a UE.

Aos eurocéticos May exigiu unidade, e que anteponham o interesse nacional aos seus próprios interesses. “Vocês viram em Salzburgo que eu soube me erguer pelo nosso país. Se permanecermos unidos e mantivermos a calma, obteremos um acordo favorável para o Reino Unido”, prometeu.

A direita britânica teme que os trabalhistas tenham conseguido captar o espírito do país e atrair a atenção do eleitorado com suas propostas radicais, e isso obriga May a lançar uma mensagem de mudança e renovação. “Somos o partido que acredita que o Governo pode agir muito bem, mas que não tem todas as respostas.” Ela tentou definir sua própria ideia do que deve ser o conservadorismo do século XXI. Inclusivo e humilde, em contraposição à retórica churchilliana usada horas antes por seu rival. “Um partido que acredita que seu sucesso na vida não se define por quem você ama, por sua fé, pela cor da sua pele, por quem são seus pais ou onde você foi criado, e sim por seu talento e por seu esforço”, disse May.

“Uma década depois da eclosão da crise econômica e depois de muitos sacrifícios, a austeridade terminou e premiaremos o esforço das pessoas”, anunciou, sob aplausos. A primeira-ministra reconhecia desse modo o desencanto dos britânicos após 10 anos de cortes orçamentários e prometia novos investimentos nos serviços públicos, “assim que conseguirmos pôr em marcha um acordo do Brexit benéfico para o Reino Unido”.

Mas May também teve palavras para os empresários, de cujo respaldo necessita para levar adiante o plano Chequers. Como já fizera horas antes nesse mesmo palco o seu ministro da Economia, Philip Hammond, disse-lhes que o Partido Conservador é o seu partido. E lançou farpas a Boris Johnson, que se permitiu disparar um “fuck business” (“danem-se as empresas”) quando escutou as restrições das grandes corporações à ideia de um Brexit não negociado. “Eu também tenho uma palavra anglo-saxã que acaba em ‘k’ para me referir a eles: back business [apoiem as empresas]”, disse.

Tudo indica que a primeira-ministra sobreviverá ao congresso conservador, mas não por ter convencido seus rivais internos, os militantes (entusiasmados em sua maioria pelo discurso eurocético) ou o eleitorado geral (decepcionado com sua gestão do Brexit). O partido sabe que há meses duros pela frente e um resultado incerto nas negociações com Bruxelas, e seus principais conspiradores decidiram que May será o bode expiatório, mas não a próxima candidata numa eleição geral que teoricamente – apenas teoricamente – deve ocorrer em 2022.

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