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Pagamento igualitário às mulheres injetaria meio trilhão de reais na economia brasileira

Estudo do Instituto Locomotiva sobre as mulheres brasileiras revela que elas movimentam 1,8 trilhão de reais por ano, mas ainda ganham apenas 76% do salário médio dos homens

Manifestação em São Paulo.
Manifestação em São Paulo. REUTERS

O Brasil tem atualmente 107 milhões de mulheres. Se as brasileiras fossem um país, já seria o 13º maior em população do mundo, com o dobro de habitantes da Espanha por exemplo. Elas movimentam 1,8 trilhão de reais por ano e participam de 42% da renda total de trabalhadores do país. Isso significa que, de cada 100 reais dos rendimentos trabalhistas, 42 vêm das mulheres. Apesar de virem conquistando mais espaço no mercado de trabalho nas duas últimas décadas e de terem ativa participação na economia, ainda são grandes as desigualdades de gênero que enfrentam no cotidiano, a começar pela remuneração. O salário médio feminino – de 1.947 reais – corresponde a apenas 76% do masculino, de 2.517 reais. Se ambos fossem equiparados, as mulheres injetariam 484 bilhões de reais a mais por ano na economia.

Os dados são de uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva neste mês de setembro e que foi apresentada nesta sexta-feira (28), durante o evento Mulheres na Política, no qual o próprio instituto e o EL PAÍS, com apoio da ONU Mulheres, reuniram em São Paulo as quatro candidatas à vice-presidência da República: Ana Amélia (PP), Kátia Abreu (PDT), Manuela D’Ávila (PCdoB) e Sônia Guajajara (PSOL). A ideia foi, a partir do estudo, buscar o ponto de convergência entre as representantes femininas das diversas correntes políticas sobre a pauta feminina que a sociedade brasileira deve abraçar. Neste ano, as mulheres têm sido protagonistas na campanha eleitoral. Elas lideram, por exemplo, o bloco do eleitorado indeciso que vai definir o novo presidente e têm articulado nas redes sociais um movimento expressivo contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL), chamado #EleNão.

O estudo mostra como os brasileiros enxergam três pontos: as mulheres brasileiras, as desigualdades cotidianas e a participação feminina na política. Revela que, nos últimos anos, as mulheres impulsionaram as principais transformações no Brasil. Os dados refletem o protagonismo inédito que as mulheres assumiram no Brasil do ponto de vista econômico e social, mas também indicam que o caminho para a igualdade de gênero passa por políticas de igualdade. No Brasil, as mulheres representam 52% do eleitorado e 44% da população economicamente ativa, mas ainda assim têm uma participação pequena na política: compõem apenas 10% do parlamento federal. Essa baixa representação - admitida por 94% das mulheres que disseram não se sentir representadas pelos políticos em exercício - não tem relação com um suposto desinteresse feminino em relação à política: 76% das entrevistadas concordam que seu voto pode fazer a diferença no país, 72% afirmam se interessar em algum grau por política e 95% acreditam que deveria haver maior participação feminina nas esferas de poder. Elas também têm posição clara: 93% discordam que os políticos atuais procuram ouvir os brasileiros para tomar suas decisões e 55% concordam que a política é o melhor caminho para as mulheres sofrerem menos preconceito.

Elas estão mais presentes no mercado de trabalho, têm mais dinheiro no bolso e são mais chefes de família. Ocupam 8,4 milhões de postos formais a mais que há 20 anos. Enquanto nesse período a população feminina aumentou 34% no Brasil, o número de mulheres com carteira assinada cresceu 113%, o que significa que, mesmo proporcionalmente, bem mais mulheres têm se inserido no mercado. Conforme a pesquisa, 92% das trabalhadoras consideram sua carreira profissional importante ou muito importante. E 89% concordam que toda mulher deve ser independente financeiramente.

Apesar desses avanços, ainda são muitas as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no seu cotidiano laboral. Cerca de 43% - ou 16 milhões de mulheres - dizem que já sofreram pessoalmente algum tipo de preconceito ou violência no trabalho. Além disso, 75% dos brasileiros afirmam conhecer alguma mulher que já tenha passado por isso. A pesquisa ainda confirma alguns dos preconceitos sofridos por elas. Um terço dos homens acha que é justo mulheres assumirem menos cargos de chefia que homens, já que podem engravidar e sair de licença maternidade.

Sobrecarga com o trabalho doméstico

A inserção no mercado de trabalho tem proporcionado autonomia e tido um papel central para o protagonismo das mulheres, mas não é suficiente para garantir igualdade também no ambiente doméstico. Segundo a pesquisa, 69% das mulheres afirmam que falta tempo no seu dia para fazer alguma coisa. Isso porque, além do trabalho fora de casa, elas assumem uma responsabilidade muito maior em casa. Gastam 45 horas a mais que os homens que realizam afazeres domésticos ou cuidam de alguém. Se elas fossem remuneradas por isso com a mesma média salarial que recebem no mercado de trabalho, incorporariam mais 1,1 trilhão de reais por ano.

Elas também são chefes de família em 29 milhões de lares no Brasil. O percentual de mulheres que cuidam da casa e dos filhos sem os maridos dobrou nos últimos 20 anos, saindo de 22% para 45% dos lares. Seja pelo acúmulo de funções ou por carência de políticas públicas voltadas para este público, essa sobrecarga se reflete nos dados: 48% das mulheres saem de seus postos de trabalho nos primeiros doze meses após terem filhos.

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