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As mulheres que estão escrevendo o futuro do Partido Democrata

A surpreendente vitória de Ocasio-Cortez em Nova York tornou visível uma mobilização sem precedentes das mulheres na política dos EUA

Stacey Abrams, candidata a governadora da Geórgia, saúda simpatizantes em um ato em Atlanta em 22 de maio
Stacey Abrams, candidata a governadora da Geórgia, saúda simpatizantes em um ato em Atlanta em 22 de maio AP

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A última mulher latina na faixa dos 20 anos do Bronx a se tornar famosa em todo o mundo tinha sido certamente Jennifer López. A vitória de Alexandria Ocasio-Cortez, de 28 anos, nas primárias democratas de Nova York contra um congressista da velha guarda foi vista como uma revolta dos eleitores, que querem um partido diferente, mais centrado nos problemas sociais. Além disso, Ocasio-Cortez tornou visível uma tendência que se acentua há longo tempo e explodiu na era de Donald Trump. Essa mudança é personificada pelas mulheres, que estão se candidatando a eleições em números nunca visto, e ganhando.

Antes dela, havia mais nomes. Convém começar a se familiarizar com Stacey Abrams, de 44 anos, que se candidata a governadora da Geórgia e seria a primeira mulher negra a chegar a esse posto nos Estados Unidos. Silvia García e Verónica Escobar, que podem ser as primeiras latinas a conquistar uma cadeira pelo Texas. Debbie Murcasel-Powell, nascida no Equador, que ganhou a indicação para disputar uma cobiçada cadeira pela Flórida. Gina Ortiz-Jones, 37 anos, de origem filipina, lésbica e veterana do Iraque, que se impôs nas primárias para concorrer em novembro pelo distrito 23 do Texas, o maior da fronteira.

Na Califórnia não há um senador homem há 26 anos, e a última disputa foi entre uma mulher negra e uma latina. Esta é a nova cara do Partido Democrata. No início de junho, London Breed, outra mulher jovem, de origem humilde e com os pés na comunidade, fez história ao se tornar a primeira prefeita negra de San Francisco, a cidade de onde saíram os atuais dirigentes californianos

Os dados do Centro para a Política e as Mulheres Americanas (CAWP, da Universidade de Nova Jersey) mostram o baixo nível de representação das mulheres nas instituições norte-americanas. Há 23 no Senado (23% das 100 cadeiras), 84 na Câmara dos Representantes (19% das 435), somente 6 governadores (12%), 25% nos legislativos estaduais e 20% dos prefeitos das 100 maiores cidades.

A senadora Kamala Harris, em um protesto em favor dos imigrantes em San Diego
A senadora Kamala Harris, em um protesto em favor dos imigrantes em San Diego EFE

Nestas eleições, este centro de estudos contabilizou até agora 51 candidatas ao Senado, das quais 35 continuam na disputa com quase todas as primárias decididas. Para a Câmara dos Representantes se apresentaram 468 mulheres em todo o país. Desse total, 311 permanecem na corrida, 153 delas depois de terem vencido primárias, como Ocasio-Cortez. Desse total, 231 são democratas. O recorde anterior de candidaturas de mulheres era de 298, há seis anos.

Vanessa Cárdenas, diretora de expansão nacional da organização Emily’s List, que há três décadas se dedica a apoiar candidaturas de mulheres democratas com agenda social, afirma que a tendência disparou. Em 2016, com Hillary Clinton ainda como a primeira mulher da história indicada para presidente, 920 mulheres contataram a Emily’s List para dizer que gostariam de concorrer a um cargo eletivo. “Desde esse ano, até agora mais de 36.000 nos telefonaram.” No total, a organização respalda este ano 60 candidaturas de mulheres, 30 delas para cadeiras que podem passar de republicanos para democratas em novembro.

“É uma tendência definitivamente democrata”, mais do que republicana, diz Cárdenas. “O que estamos vendo é que nossas candidatas são pessoas muito comprometidas com suas comunidades. Não se trata do político tradicional, como advogados que já estavam antes na política. Estamos vendo ativistas, doutoras, mulheres com experiência em saúde ou nas Forças Armadas.” Essa é outra das tendências que vieram à tona com Ocasio-Cortez. Em muitos casos, é a primeira vez que essas mulheres se candidatam.

A presidência de Donald Trump é um fator de mobilização, admite Cárdenas, mas não o principal. “Não é Trump por si mesmo, com suas políticas e as consequências que estão tendo. Um assunto tão desalentador como a imigração, os direitos da mulher, os benefícios dos ricos ou os ataques à saúde. A maioria delas vem da classe média trabalhadora e sabe do que suas comunidades precisam.” Isto não é só com os democratas. “Estamos vendo nos dois lados. Mas o caso de Alexandria é uma mensagem para os democratas. O que a base quer são pessoas que lutem pelos valores democratas com a mesma força com a que o outro lado está lutando pelos seus valores.”

Alexandria Ocasio-Cortez, em 27 de junho em Nova York
Alexandria Ocasio-Cortez, em 27 de junho em Nova York AP

Ocasio-Cortez e as outras centenas de mulheres democratas também estão se tornando exemplos inspiradores após o fracasso de Hillary Clinton. "O ano de 2016 foi um choque para as mulheres nos Estados Unidos", diz Cárdenas. "Foi incrível ver que uma mulher como Clinton, com sua carreira, credenciais e profissionalismo, não conseguiu romper essa barreira. Foi um choque porque não nos demos conta de que não tínhamos chegado tão longe quanto pensávamos e que nossos direitos básicos ainda estão ameaçados ”.

O Partido Democrata que surge é mulher, em sua maioria jovem e não branca. Precisamente os três grupos de eleitores que mais crescem nos Estados Unidos. Segundo dados do Centro de Participação Eleitoral, uma organização que promove a participação de mulheres solteiras, minorias e jovens, estes três grupos representam 80% do crescimento do eleitorado neste século. Quando a organização começou em 2004, esses três grupos eram 44,6% do eleitorado. Em 2016 já estavam em 59,2% e sua projeção é de que este ano alcancem 61%. O desafio é levá-los a votar, já que 35% desses eleitores não se registram, especialmente latinos e jovens. A campanha de Ocasio-Cortez se orgulha de tê-los levado às ruas e ter mudado justamente o perfil de quem vota nas primárias.

Ocasio-Cortez, Abrams, Ortiz-Jones e a nova senadora da Califórnia, Kamala Harris, não são mulheres exóticas. São mulheres que se parecem com os Estados Unidos. São os homens brancos mais velhos e os republicanos que estão em retrocesso em todas as partes, menos em Washington. No entanto, a tendência não se traduz automaticamente em cadeiras. "Na realidade, nos últimos anos, perdemos cadeiras ocupadas por mulheres", observa Cárdenas. "Isso não vai mudar da noite para o dia, só a longo prazo. Nem todos vão ganhar, mas estamos vendo mais mulheres na política do que nunca na história e isso trará mudanças por décadas.

 

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