Copa do Mundo Rússia 2018
Opinião
Texto em que o autor defende ideias e chega a conclusões basadas na sua interpretação dos fatos e dados ao seu dispor

Diego Maradona é o Keith Richards do futebol

O ex-jogador argentino que, em boa lógica, já não deveria estar conosco

Maradona, durante o jogo entre Argentina e Nigéria.
Maradona, durante o jogo entre Argentina e Nigéria.OLGA MALTSEVA

O futebol sairá dessa Copa do Mundo parecendo um esporte. Posso entender que isso entristeça muita gente. Isso da justiça poética era delicioso, a doce derrota, puro Shelley e o chocalho do azar foram – com as espinhas –, fiéis amigos de nossa adolescência. Mas quando a ciência chega, precisamos reconhecer que se vê claramente que esse não foi nada além de um jogo de abusadores e fingidores. Com a luz elétrica se acabou o romance gótico e os contos de lobos e fantasmas. Da mesma forma a história de que camisas ganham jogos, que existem medos cênicos como catedrais e lendas urbanas como a loira do banheiro começam a ficar indefensáveis.

O que existia era, entre outras coisas, o bloqueio psicológico de árbitros e os arranjos do rigor. Sem o VAR não há gol da Coreia do Sul nos acréscimos do segundo tempo nem pênalti para o Irã para contar história. Isso e a globalização do jogador fez com que mesmo a equipe mais modesta fosse competitiva nessa Copa. O fato de gostarmos menos do futebol a partir de agora e que o esporte se transforme em algo menos selvagem e atordoador é outra questão. Como na música do The Doors (Love me Two Times), com o VAR iremos nos amar duas vezes: no momento e na fotografia desse mesmo momento, em que saberemos se aquilo foi o que foi ou puro teatro.

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Mas não deixa de ser paradoxal que enquanto a técnica dissolve o obscurantismo e, até certo ponto, mostre a teimosia do torcedor e jornalista sectários, do ponto de vista religioso também existem notícias. No que é uma revelação transcendente e revolucionária para ateus, agnósticos e uruguaios, há muitas provas de que Deus existe e que o povo escolhido seja a Argentina

A classificação da seleção alviceleste foi desesperada e épica. Um indiscreto Messi disse que sabia que Deus queria que a Argentina se classificasse. Entendemos claramente que é um Deus que não liga a mínima ao que acontece na Islândia e na Nigéria. Sem problemas. Conhecemos esse tipo de deus chefe de quadrilha, ciumento e brigão. Mas vamos em frente. Temos um Papa, esse, argentino. Por que? Porque o Papa anterior decidiu abandonar. De onde era Ratzinger? Da Alemanha. Onde está agora a seleção alemã? No aeroporto. Agora sabemos que Deus não gostou da decisão de Ratzinger.

A quase certeza da existência de um Deus argentino nos leva a fazer muitas perguntas. Dos estigmas no rosto de Mascherano a por que temos Fito Páez. Mas a pergunta mais urgente é, claro, a mão de Deus. Diego Armando Maradona é o Keith Richards do futebol. Alguém, que, pela lógica, já não deveria estar conosco. Coisa da qual nos alegramos muito, especialmente por Keith. Sua imortalidade, agora sabemos, tinha a ver com o fato de Deus ser argentino (e, óbvio, gosta dos Stones até 78). Mas que tipo de anjo ou demônio é A Mão de Deus...? No gol de Messi, entra em transe e gagueja uma imprecação adâmica, cabalística, pré-cristã. No gol da vitória, Diego se levanta, abraçado pela cintura por um de seus fiéis, em posição de ascensão mariana. Mas o sobrenatural é que, nesse momento, o único raio de sol do estádio de São Petersburgo era o que iluminava o palco de Maradona. O único. Aproveitem para se converter. A Argentina vai em direção ao Apocalipse do qual só sobreviverá, efetivamente, Maradona.

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