Messi na Argentina: um Picasso na cozinha

Não há maneira de o craque do Barcelona se entender com seus companheiros da seleção. Nem nos pênaltis encontra consolo após novo fracasso no primeiro jogo da Copa

Messi, depois de terminar o jogo contra Islândia.
Messi, depois de terminar o jogo contra Islândia.Ricardo Mazalan (AP)

Com a permissão do eterno Eduardo Galeano. A viagem do futebol do prazer ao dever que lacerava o inesquecível escritor uruguaio tem em Messi um clandestino angustiado por tal travessia entre o Barcelona e a Argentina. O alviceleste Messi é demasiado solene. Com mais amigos do que jogadores de apoio ao seu redor. O diálogo futebolístico com Biglia, por exemplo, nunca será o mesmo que tem com Xavi e Iniesta. Biglia ou tantos outros da Argentina não seriam do seu grupinho exclusivo azul-grená quando o churrasco desse lugar ao futebol.

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Na Argentina, o circunspecto e aflito Messi é um capitão que puxa os companheiros com fórceps. Enquanto isso, esses companheiros se torturam porque ao lado deles não há maneira de que sequer um gênio faça truques de magia entre tantas pedras. Em suma, um suplício para todos: Messi e os rapazes não se entendem, não há forma de que a bola os traduza. Um sussurra para ela, outros a chutam ferozmente.

O resultado é um Leo pouco natural, demasiado despojado de seu sentido recreativo do jogo, ao qual sempre esteve ligado desde que era um pirralho em sua cidade de Rosário. Aquele garotinho que se tornou menino em Barcelona nunca retornou à sua infância de bairro e a cada viagem de volta à América teve de agir como um adulto prematuro. Como seus compatriotas perderam seu processo educacional, agora exigem, sem a menor consideração, que ele pague sua dívida. Exigiram isto à força e, depois de sua tentativa de aposentadoria da seleção, agora quase imploram. O mestre Galeano diria: “Senhor Messi, uma pitada de futebol, por favor”. E Messi está disposto a fazê-lo. Tem tatuado na alma que é apenas um argentino de passagem por Barcelona.

Então, de alguma forma, Messi se empenha em ser Messi onde nem sequer ele, tão único, pode ser. Tal desamparo chega a ser tão comovente que o camisa dez não encontra consolo nem nos pênaltis. Cobrar penalidades máximas nunca foi o seu forte, mas enquanto no Barça ele muitas vezes se redime com uma facilidade insultante, na seleção nacional argentina tudo lhe custa muitíssimo.

Não há dúvida de seu compromisso inabalável, o que não impede de pensar no inconveniente da sobrecarga. Se no Barça Messi pode ser tudo ou apenas parte, de acordo com a forma como transcorra este ou aquele jogo, a Argentina exige que seja Leo a cada segundo. Se no Camp Nou há um momento que não é Iniesta, Iniesta faz de Iniesta, como antes faziam Ronaldinho, Neymar ou Xavi. O problema é que se La Pulga não faz de Mascherano ou de Biglia, Mascherano e Biglia se representam a si mesmos. O que não convém a uma Argentina que para desconcertar Messi ainda mais trata a bola, sua melhor amiga, como se fosse uma qualquer. Com a Argentina ele ainda tem que ser mais do que Messi, o que já é o cúmulo.

Assim não há como se conectar a Messi. O homem se desanima, grita para si mesmo e acaba sem energia. E sem respostas. Para definir em poucas palavras: não se pode ter um Picasso pendurado na cozinha. Por mais Picasso que seja.