Cunhado do Rei da Espanha é preso por corrupção

Esta é a história de Iñaki Urdangarin, ex-jogador de handebol que aproveitou sua posição na família real para criar uma rede de negócios ilegais

Urdangarín, neste domingo no aeroporto de Madri.
Urdangarín, neste domingo no aeroporto de Madri. (gtres)

O cunhado do rei da Espanha, Felipe VI, Iñaki Urdangarin, foi preso na manhã desta segunda-feira, dia 18, para cumprir uma sentença de cinco anos por corrupção. Em 30 de setembro de 2000, Iñaki Urdangarin tinha 32 anos. Acabava de marcar o último gol da vitória da equipe espanhola de handebol nas Olimpíadas de Sydney. A decisão da medalha de bronze da Espanha também foi seu último jogo como profissional. Na arquibancada, a vitória foi comemorada por sua esposa, a infanta Cristina, filha dos Reis da Espanha, que segurava o primeiro filho do casal nos braços; sua sogra, a rainha Sofia; e o então príncipe Felipe –atual rei–, já um amigo. Urdangarin sabia que sua vida não seria a mesma, como qualquer esportista que se aposenta e deve se reinventar. O que ele não sabia é que, ao se reinventar, iria se perder irremediavelmente e acabaria sendo alguém muito diferente.

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Urdangarin perdeu seu mundo de referência, o esportivo, para entrar em um mais complexo, o do poder, da aristocracia e dos privilégios. Um mundo do qual desfrutou, mas que também o envenenou. Não era mais um campeão, era o duque de Palma, graças ao casamento com Cristina de Borbón, embora ainda não soubesse no que consistia. Acostumado à rotina de um esportista de elite, também queria ser um vencedor na vida real, não um mero consorte da infanta.

A construção desse novo personagem começou com uma fase de estudos em que as primeiras sombras já apareceram. Na prestigiosa ESADE, uma escola de negócios, fez em dois anos, de 1999 a 2001, o que normalmente leva cinco. E isso que no primeiro ano ainda jogava handebol. Logo perceberia que nessa nova vida não faltaria quem se aproximasse dele para ser seu sócio ou propor negócios. No outono de 2002, conheceu Diego Torres, um professor da ESADE. E se tornaram sócios: em 2002 criaram uma consultoria chamada Nóos. Oito anos depois, em 2010, um juiz de Palma de Mallorca, nas Ilhas Baleares, encontrará esse nome estranho, Nóos, que em grego significa mente ou intelecto, em uma pasta quase vazia, com um acordo suspeito com o Governo regional. Tinha aparecido em um registro relacionado às investigações de um grande caso de corrupção relativo à construção de um ginásio esportivo em Palma. O Ministério Público rastreou as empresas aonde o dinheiro acabava e encontrou o nome de Iñaki Urdangarin. Um empresa era dele e as outras eram de Diego Torres. Em agosto de 2011, um promotor de Palma escreveu em um relatório: “Isto parece um golpe digno de um livro”. As Ilhas Baleares ofereciam grandes possibilidades para um golpe naqueles anos de febre imobiliária na Espanha, assim como Valência ou Madri, exatamente os três lugares onde a Nóos trabalhava. E o golpe foi dado precisamente durante os cinco anos, de 2003 a 2008, de máximo furor econômico, antes da eclosão da crise na Espanha. Foi nesse ambiente, nessa época, em contato com certos políticos, que Urdangarin se transformou em homem de negócios.

No Governo regional das Ilhas Baleares, as ilhas do Mediterrâneo onde os Reis passam suas férias de verão, o secretário de Esportes era José Luis Ballester, ex-campeão olímpico de vela muito amigo da família real. Naquele verão, Urdangarin contou a Ballester que a equipe de ciclismo mais conhecida do país estava procurando um patrocinador e era uma oportunidade para o Governo das Ilhas Baleares. Em setembro, depois de um jogo de padel no palácio de Marivent, residência dos Reis em Palma, as partes acordaram o patrocínio e 300.000 euros (cerca de 1,3 milhão de reais) para a Nóos. É a cena que resume o escândalo.

O duque acabava de inaugurar um novo modo de vida, uma forma de fazer negócios baseada em si mesmo, em ser quem era. O ex-jogador de handebol transformado em duque aprendeu em seguida que o gancho para atrair o dinheiro fácil e os contatos interessados era a família real. Da Nóos também participava sua esposa, a infanta Cristina. Era como um grande letreiro de néon: Nóos e Casa Real se escreviam com a mesma letra. Ninguém achou aquilo estranho. Nem quando Urdangarin formou outra empresa com a esposa, a Aizoon, com um quadro trabalhadores fictício e que era usada para desviar despesas pessoais com o objetivo de não pagar impostos.

A Nóos começou a organizar congressos sobre assuntos esportivos. Dois deles aconteceram nas Ilhas Baleares e custaram 2,3 milhões de euros (quase 10 milhões de reais) com despesas em grande parte também fictícias. Urdangarin havia reinventado sua carreira, tinha seu lugar no mundo. Em 2004, como apogeu de suas ambições, o casal comprou uma mansão de luxo por 6 milhões de euros (cerca de 25 milhões de reais), no exclusivo bairro de Pedralbes, em Barcelona, gasto muito superior às suas possibilidades e com um altíssima hipoteca. O então o rei Juan Carlos ajudou-os com um empréstimo de 1,2 milhão.

O brinquedo começou a estragar quando a Nóos chamou a atenção. Um deputado socialista das Ilhas Baleares denunciou pela primeira vez os pagamentos exorbitantes à empresa de Urdangarin. O então rei Juan Carlos ordenou que o genro se afastasse das empresas. O duque, que não era mais aquele jogador de handebol sem experiência, fingiu obedecer. Afastou-se da Nóos, mas criou uma fundação na qual permanecia em segundo plano, mas apenas para manter as aparências. O invento continuou funcionando até que, no verão de 2008, a crise econômica explodiu na Espanha. Então a Casa do Rei procurou um exílio dourado para o casal e seus quatro filhos. Eles se mudaram para Washington, onde fora reservado a Urdangarin um cargo de presidente da Telefônica nos Estados Unidos. Tudo parecia em calma. Ninguém sabia, mas aquela pasta com documentos da Nóos já tinha chegado a um juiz de Palma.

Desde então, ninguém pôde conter o maior escândalo que atingiu a Casa Real espanhola nas últimas décadas. Em 8 de fevereiro de 2014, em uma cena histórica, a própria infanta Cristina se prestou depoimento ao tribunal. Respondeu “não sei” ou “não me lembro” 550 vezes. Quatro meses depois, o rei Juan Carlos abdicou. Em 12 de junho de 2015, seu filho e sucessor, Felipe VI, aquele que 18 anos antes o aplaudira em Sydney, retirou-lhe o título de duque. Quando chegou o julgamento, Urdangarin estava muito longe daquele campeão que fora. Havia vendido o palacete de Pedralbes. Era um homem abatido, que respondia com sussurros. E tudo acabou com uma sentença de prisão que começa a cumprir esta segunda-feira, na prisão de Brieva, na província de Ávila.

Urdangarin escolheu a prisão na qual queria ficar

Iñaki Urdangarin pôde escolher uma das 82 prisões espanholas para cumprir sua pena. O presídio selecionado pelo cunhado do Rei Felipe VI é uma prisão para mulheres, com 200 detentas, que conta com um pequeno pavilhão masculino. O módulo está sem uso há quatro anos e necessita reformas, informa Óscar López-Fonseca.

O pavilhão também é conhecido como o "módulo dos arrependidos", já que era onde o famoso ex-juiz espanhol Baltasar Garzón mantinha os presos que colaboravam com a Justiça em grandes investigações.

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