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Domenico Starnone: “Nós, homens, temos cada vez mais dificuldade para nos narrar”

‘Laços’ reabre o enigma sobre a relação deste autor com a ficção de Elena Ferrante

O escritor Domenico Starnone em 2017
O escritor Domenico Starnone em 2017 Getty

A entrevista em Roma acontece numa confeitaria de bairro próxima à praça Bolonha, no começo de maio. Esse lugar sem pompa nem história, perfeitamente comum e anônimo, parece aumentar o mistério que cerca o escritor Domenico Starnone (Nápoles, 1943). Afinal de contas, ele argumenta que o supérfluo não existe: “O banal é a superfície à qual nos acostumamos, mas se a gente arranhar aparecem coisas incríveis. O banal é um modo de não contar, de estacionar as coisas. O trabalho de um escritor é mostrar que o óbvio não é tão óbvio”. Os detalhes na literatura importam, e é difícil esquecer isso ao iniciar uma conversa com Starnone, recém-chegado de uma viagem de divulgação pelos EUA com Jhumpa Lahiri, sua tradutora ao inglês.

Ganhador do Prêmio Strega de 2001, Starnone se mostra discreto, reflexivo e paciente, como o bom professor de escola que foi durante 30 anos. Publicou seu primeiro livro aos 42 anos e é autor de 20 romances, além de roteiros, peças de teatro e artigos. Em Laços (Editora Todavia, 2018), seu primeiro romance lançado no Brasil, o detalhe ínfimo são os cadarços de um sapato de criança, os fios que se enlaçam até recomporem uma família partida. “No mundo civilizado tende-se a pensar que há recursos como o psicólogo para arrumar as coisas. O que este livro diz é que nada se arruma. A dor é a dor, e quando não há maneira de contê-la reage-se com raiva.”

Eu não sou Elena Ferrante. Seria muito fácil ser ela por ter escrito 19 páginas em que uma mulher se lamenta

O mistério que cerca Starnone tem nome de mulher e, transcorrida uma hora de entrevista, ele mesmo o pronuncia enfaticamente: “Eu não sou Elena Ferrante. Seria muito fácil ser ela por ter escrito 19 páginas em que uma mulher se lamenta”. Sua afirmação busca resolver as comparações que a crítica italiana e anglo-saxã fazem entre o primeiro romance de Ferrante, Dias de Abandono, e Laços. A obra de Ferrante é protagonizada por uma mulher na faixa dos 30 anos, abandonada por seu marido e mãe de dois filhos, que narra seu calvário; a de Starnone começa com as nove cartas que ao longo de alguns anos uma mãe de duas crianças, também na faixa dos 30, dirige ao marido que a deixou. “É uma história sobre uma falsa reconciliação, com 19 páginas que falam do desespero de uma mulher. Também teria podido copiar Medeia. Este tema tem uma longa tradição que só o gosto da imprensa por fofocas reduz à sua conexão com Dias de Abandono”, insiste. Em Laços, Starnone engasta outras duas vozes em uma poliédrica história familiar. “Há três vozes independentes, três livros que poderiam ser lidos separadamente. A experiência ocorre na cabeça do leitor que, ao lê-los todos, compõe a história”. O desespero feminino é um grande filão? “É um tema universal. Mas, no meu livro, não acredito que a reação da esposa seja exclusivamente feminina, é a que tem uma pessoa que descobre que as coisas nas quais acreditou, que são a sua vida, se esfumaram. É a mesma que teria um camponês de quem tiram a terra.”

O fato é que a sombra de Ferrante persegue Starnone há quase duas décadas. Seria esse napolitano quem se escondia detrás do pseudônimo? Era sua segunda esposa, Anita Raja, tradutora da editora que publica Ferrante, quem assinava esses livros? Escreviam a quatro mãos? O fenômeno em torno da misteriosa autora da tetralogia Duas Amigas crescia internacionalmente, e a intriga também. O apelido de Starnone era Nino, como o personagem da saga de Ferrante (Nino Sarratore), e ele também é filho de um ferroviário. O Corriere della Sera chegou a publicar um quadro comparativo para demonstrar que a prosa de Starnone tinha uma semelhança além do razoável com a da escritora. Uma investigação jornalística de 2016 buscou encerrar o caso: seguindo as faturas da editora de Ferrante, afirmava que Anita Raja, a esposa de Starnone, estava por trás do pseudônimo. Eclodiu um debate sobre o direito ao anonimato. Nem Starnone nem Raja se pronunciaram.

Embora quisesse ser escritor desde a adolescência, Starnone estacionou a literatura e se dedicou ao ensino. Décadas depois, começou a escrever no jornal IlManifesto, fundado por Rossana Rossanda e Luigi Pintor. Aquelas colunas dos anos setenta sobre o cotidiano na escola o empurraram de novo à literatura, foram o detalhe banal que acabou sendo transcendental na sua vida. “Agora não sei se sou um professor ou um escritor”, confessa. O que a literatura deve ensinar? “Deve mostrar aquilo que resistimos a ver, ou que escondemos porque nos dá medo. Com a escola, todos dizem como é péssimo o ensino que se oferece hoje em comparação com o que eles receberam, não analisam honestamente sua experiência. Com a literatura corre-se o risco de que aconteça o mesmo: a que não funciona mostra o mal e o bem em lugares onde é fácil vê-lo. Mas é preciso contar a verdade da própria experiência, isso é a única coisa que um escritor tem. E isto não significa fazer autobiografia, e sim usar a experiência para traçar as histórias.”

O escritor deve impor uma distância? “Como dizia Flannery O’Connor, eu quando escrevo, se meu personagem corre, eu corro; se ele ama, eu amo; e se ele se zanga, eu me zango. A escrita é algo mimético, mas não é um trabalho de mero registro”, explica. “Um escritor é um mímico que acumula detalhes. Pouco a pouco, isto se transforma num hábito, e esses detalhes no momento oportuno servem para retratar o modo de pensar de um personagem”. O romancista fala de casos “afortunados” de um único e maravilhoso livro, como os de Manzoni e Lampedusa, mas ele sente que a literatura, mais que uma longa escada – como a que sobe seu personagem Aldo em uma cena de Laços –, é um conjunto de cômodos: “Um livro sempre fica parcialmente completo, porque abre uma porta que leva você a outra coisa, a outra possibilidade de relato. Por isso, se você escreve, escreve para toda a vida”.

Um escritor é um mímico que acumula detalhes. Pouco a pouco isto se transforma em um hábito, e esses detalhes no momento oportuno servirão para retratar um personagem

Starnone fala da revolução educacional ocorrida a partir de 1968 e como ela ficou no meio do caminho: “Minha geração queria melhorá-la, mas não encontramos tempo nem a forma de fazê-lo. O mesmo ocorre com o casamento do meu romance, a mudança fica bloqueada”. O começo de Laços tem como pano de fundo o feminismo dos anos setenta: a esposa que não concebe o divórcio, e a jovem amante que tem um forte senso de individualidade. “Hoje o feminismo deveria estar ainda mais forte”, observa Starnone, apontando um movimento no campo literário: “As coisas estão mudando muito rapidamente. Os homens têm vergonha de dizerem que leem romances, e temos cada vez mais dificuldade para nos narrar. O personagem de Aldo, no meu romance, é negativo. Não pode ser amado pelos leitores; se o amarmos, somos culpados”. Laços foi adaptada pelo próprio Starnone para o teatro e já soma quase 200 apresentações, e também está em preparação uma versão cinematográfica. “Dizem que o meu livro é sobre o abandono, mas é sobre a falsa reconciliação baseada na mentira. A esposa o aceita de volta para fazer represálias, não porque precise dele. Ele volta porque se sente fraco, mas não para de trair. Os dois são totalmente culpados. Quando uma família se rompe é como se se rompesse a própria ideia de convivência.”

Que dificuldade ele tem para criar uma voz feminina crível? “Nenhuma. Se você tiver capacidade, escreve vozes de homens, mulheres, crianças, idosos. Escritores de todos os tempos criaram vozes femininas críveis. Eurípides já fez isso. Um escritor hábil conta tudo, não só o seu ponto de vista. O problema é como os leitores ouvem essas vozes.” As suas têm um tom às vezes desgarrado, tipicamente napolitano? Starnone responde citando as culturas que há séculos se sobrepõem nessa cidade. “A napolitana é uma mulher apaixonada e em muitos aspectos mais liberada que a média, mais explícita em seu discurso, que mostra seus sentimentos e dramatiza. Em Nápoles há um tipo de teatro particular, a sceneggiata, e é esse mostrar sem filtro, algo característico do sul”. Sua cidade, argumenta, é um lugar complexo, que não pode se encaixar em um estereótipo: “Sobre Nápoles sempre há algo mais a dizer”. Sobre Starnone, cabe imaginar que também. Como nessas cavernas habitadas, os bassi napolitanos, neste autor se adivinha uma história subterrânea, um enigma tão real como literário.

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