Como os russos chamam a montanha-russa, a roleta russa e a salada russa?

Montanhas-russas são montanhas "americanas" para os anfitriões da Copa

JOSEP LLUÍS SELLART

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A Copa do Mundo é um desses eventos que serve, entre muitas outras coisas, para promover o turismo do país que a organiza. Graças a toda a exposição midiática podemos aprender muitas coisas sobre, nesse caso, a Rússia. Ainda que nem todas sejam boas, claro.

Também pode ser uma desculpa para que façamos perguntas que às vezes não nos atrevemos sequer a pronunciar em voz alta. Como, por exemplo, “os russos comem salada russa?” e “como os russos chamam as montanhas-russas?”. Seguindo nossa vocação de serviço público e após resolver outras grandes dúvidas da humanidade como por que a bala de abacaxi é azul, Verne responderá as dúvidas relacionadas a algumas utilizações desse gentilício em nosso vocabulário.

Os russos inventaram a roleta russa?

A roleta russa tem o mesmo nome na Rússia, segundo González Cuesta: russkaya roleta. Ainda que também seja conhecida como “roleta hussarda” e “soprano”. Aparece uma menção ao fato de se jogar a vida com uma pistola carregada com uma só bala em O Fatalista, conto de Mikhail Lérmontov incluído em Um Herói de Nosso Tempo (1840). A primeira vez que o termo é usado, entretanto, é em 1937, em um conto do suíço Georges Surdez publicado na revista norte-americana Collier’s chamado, justamente, Roleta Russa.

Nesse relato quem apresenta o jogo é um sargento russo da legião estrangeira francesa. E em sua versão é mais complicado sobreviver, já que só se retira uma bala e ficam cinco. Mas não está claro se o jogo realmente foi colocado em prática na Rússia da Guerra Civil (1917-1923), tal como o relato sugere.

Como os russos chamam as montanhas-russas?

As montanhas-russas são conhecidas na Rússia como “montanhas-americanas”. Essas atrações também são conhecidas em francês como montagnes russes e em italiano como montagne russe. Mas em inglês são “roller-coasters”.

Na Rússia são chamadas de “americanas” porque as modernas têm sua origem nos Estados Unidos no século XIX. Mas em outros países são chamadas de russas justamente porque nos séculos XV e XVI, em alguns povoados russos eram construídos tobogãs de madeira para deslizar sobre o gelo no inverno: “Os aventureiros sentavam-se em blocos de gelo e deixavam que a gravidade seguisse seu curso”, diz o The Washington Post.

No século XIX, a atração foi exportada à França, onde recebeu o nome pelo qual o conhecemos. Lá não faz tanto frio, de modo que foram utilizados vagonetes com rodas sobre trilhos. De acordo com a Enciclopédia Britânica, “não se prestava muita atenção às medidas de segurança, ainda que, por mais estranho que pareça, as feridas sofridas pelos passageiros pelos descarrilamentos aumentavam a notoriedade e o público da atração”.

Os russos comem salada russa?

A salada russa não foi criada na Rússia, mas é muito popular por lá, como confirma a Verne Javier González Cuesta, jornalista radicado nesse país. Mas é conhecida como “salada Olivier”.

Segundo o El Comidista, a salada russa tem esse nome em muitos países em homenagem a Lucien Olivier, cozinheiro belga de origem francesa que se tornou famoso pela salada que servia no restaurante Hermitage, de Moscou, em meados do século XIX. Era uma versão barroca (e cara) da atual salada russa.

Mas Olivier, mais do que inventar, popularizou uma salada já conhecida no começo do século XIX. Teve vários nomes, incluindo o de salada russa, com ingredientes mais ou menos variados, mas sempre com maionese por cima. Após a Guerra Civil, na Espanha tentou-se mudar seu nome para “salada nacional” e “imperial”. Sem sucesso, como quando nos Estados Unidos alguns tentaram fazer com que as batatas fritas deixassem de ser French Fries para serem chamadas de Freedom Fries.

Os bifes russos são russos?

O bife russo, como nos conta González Cuesta, não tem esse nome na Rússia: “Existem muitas variantes. É simplesmente um bife, hambúrguer... feito de farsh (carne cortada, Фарш)... Por exemplo, o bife tártaro (tatarski bifshtekc)”.

A história desse pedaço de carne cortado e temperado (e às vezes empanado) tem precedentes na cozinha romana e, principalmente, mongol. No século XVIII era preparado em cidades portuárias, especialmente Hamburgo, de onde chegou aos Estados Unidos. Lá recebeu o nome de “bife ao estilo de Hamburgo” ou “hambúrguer”. Outra versão mais parecida à conhecida como bife russo é o Salisbury steak.

Sair à francesa, à inglesa e à irlandesa

Os russos não são os únicos estrangeiros que povoam nosso idioma. Temos muitas expressões que recorrem a um gentilício, ainda que a relação com o país nem sempre seja clara. Aqui vão mais alguns exemplos:

- Sair à francesa. Essa expressão também existe em alemão (sich auf franzosisch verabschieden) e em inglês (France exit), ainda que nesse idioma também se use "Irish goodbye" (adeus irlandês), de origem mais recente. De acordo com o Dicionário de ditados populares e frases feitas de Alberto Buitrago, no século XVII foi moda na corte francesa não se despedir ao sair de uma reunião, pensando principalmente em não interromper. Também acrescenta que esse costume de se despedir sans adieu (sem adeus) começou a ser usado somente nos casos em que se voltaria em breve. E que os franceses e italianos usam a expressão "sair à inglesa": filer à l'anglaise e andarsene (sair) all'inglese. Os russos também: уйти по-английски.

- Uma chave inglesa em inglês é uma adjustable spanner e (nos Estados Unidos e Canadá) adjustable wrench. Em alguns países da América é conhecida como "chave francesa". Seu inventor foi o engenheiro inglês Edwin Beard Budding em 1842. Ele também inventou o cortador de grama.

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