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As duas faces de Marina Silva, a candidata serena que apela para inflamados discursos bíblicos

Presidenciável, só atrás de Lula nas pesquisas do Nordeste, lança pré-candidaturas locais em Pernambuco, chama eleitores de "irmãos" e diz que vencerá "se for da vontade de Deus"

Eleições 2018 Marina Silva
Marina Silva, dia 8 de junho no Rio de Janeiro. AFP

Nem parecem a mesma pessoa a Marina Silva que deu uma entrevista coletiva em um hotel em Boa Viagem, no Recife, e a Marina Silva que falou, na sequência, para um auditório quase todo cheio de eleitores-fiéis. À imprensa, a pré-candidata da Rede à Presidência se dirigiu serena, sem quase gesticular, mantendo o mesmo tom de voz durante a meia hora em que respondeu a perguntas na última quinta-feira à noite. Em seguida, no mesmo hotel, celebrou um ato-culto com direito a música gospel antes, menções textuais da Bíblia durante, e discurso inflamado depois. Encerrou sua fala em alto e bom tom dizendo que seria eleita se fosse "da vontade de Deus e do povo brasileiro", sob fortes aplausos.

A ex-senadora chegou no Recife na terça-feira para algumas agendas internas. De acordo com a última pesquisa Datafolha, Marina Silva está em segundo lugar (15%) nas intenções de voto nos cenários sem o ex-presidente Lula, preso há dois meses. Perde somente para Bolsonaro (PSL), que tem 19%. O Nordeste é a única região onde a ex-senadora lidera a pesquisa, tendo 17% das intenções de voto (também na ausência de Lula), contra 13% de Ciro Gomes (PDT), ex-governador do Ceará. 

Na quinta-feira, Marina Silva lançou na capital pernambucana as pré-candidaturas do ex-prefeito de Petrolina Julio Lóssio ao Governo do Estado, de Antônio de Souza e do Pastor Jairinho, a estrela da noite, ao Senado. Todos pelo partido fundado por ela mesma, a Rede. Diferentemente de um comício político, ali ninguém vestia alguma camiseta com nomes ou números de candidatos. Não haviam faixas, adesivos ou qualquer outra propaganda além de um banner no fundo de um pequeno palco, com a foto de Jairinho junto a Marina Silva.

O público era formado principalmente de seguidores do pastor, cantor e sanfoneiro gospel, aplaudido com entusiasmo. “Vim por causa dele”, disse a decoradora Selma Cristina, 63. “Mas se fosse só pela Marina, eu viria também”, ponderou em seguida. Com composições próprias, Jairinho viaja o país se apresentando pelas igrejas. “Eu não posso me calar. Tenho adoração em meu DNA. Um adorador por excelência”, diz um de seus hits – Adorador por excelência – que ele cantou no ato.

Depois de tocado o hino nacional, com todos já de pé, o pastor Carlos Mendes iniciou o ato, celebrando um pequeno culto. Uma dupla cantou uma canção gospel, e então os políticos iniciaram suas falas, a começar por Julio Lóssio. “Certa vez um homem chegou andando por cima da água. Os amigos dele olharam e disseram: isso é uma alma... E ele era Jesus”, disse o pré-candidato ao Governo de Pernambuco. “Quero dizer a vocês que nesta eleição nós não podemos ter pouca fé. O sucesso não vem sem fé”, concluiu.

Clécio Araújo, porta-voz da Rede no Estado, seguiu na mesma linha: “A gente tem um exemplo que passou pela humanidade há mais de 2.000 anos atrás, onde uma pessoa tão grande se fez: Jesus Cristo. Jesus trouxe um exemplo importante: veio para servir as pessoas”, disse. “É importante que a gente entenda a política dessa forma: nos colocar à disposição, para estar à serviço da população”.

Convertida à Assembleia de Deus desde 1996, Marina Silva nunca escondeu sua preferência religiosa, e desde que se lançou candidata à presidência pela primeira vez, em 2010, pelo PV, colhe os ônus e bônus dessa escolha. Naquele ano, ela perderia o apoio de muitos evangélicos ao defender, em um debate na TV, um plebiscito para decidir sobre de descriminalização do aborto. Duas eleições se passaram e a posição da pré-candidata segue a mesma. “Geralmente as pessoas invés de debater, elas rotulam: quem é a favor, é rotulado de uma coisa. Quem é contra, é rotulado de ser conservador, de ser fundamentalista”, desabafou, ao ser questionada sobre o tema. “Numa democracia, as pessoas têm o direito de ter o seu ponto de vista e o que eu defendo é que se faça um plebiscito”.

Ao defender o plebiscito, a ambientalista se esquiva de opinar sobre “temas complexos”. A estratégia visa se aproximar de dois públicos distintos: progressistas, que podem estar órfãos de um candidato, e os evangélicos, que representam a segunda maior camada da população (30%), atrás somente dos católicos (52%). Sabendo do seu tamanho, os crentes são cobiçados por diversos pré-candidatos. Na última Marcha para Jesus, no final de maio em São Paulo, Jair Bolsonaro (PSL) afirmou querer o senador Magno Malta (PR-ES) como vice “também por ele ser evangélico”. Enquanto Márcio França (PSB-SP) e João Doria (PSDB-SP), pré-candidatos ao Governo paulista, e Flávio Rocha (PRB), pré-candidato à presidência, se ajoelhavam no palco durante a bênção.

Esse flerte com os evangélicos, porém, pode não surtir tanto efeito. De acordo com um levantamento realizado durante a Marcha para Jesus, a religião do candidato não faz diferença para 41% dos frequentadores do evento. Quase um terço (32,5%) disseram preferir que o Executivo fique nas mãos de alguém de outra religião ou até mesmo de nenhuma. O estudo, que contesta a tese de que existe um voto evangélico, foi feito pelo Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp) da PUC-SP em parceria com o Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom).

"A paz do senhor"

“Eu nunca faço do púlpito um palanque e nunca faço do palanque um púlpito”, disse Marina Silva chamando os eleitores de “irmãos e irmãs”. Ao longo de seu discurso, citou a Bíblia, falou de sua trajetória política e pessoal e lembrou que não tem "nenhuma acusação" contra ela. “Muitos não estão concorrendo a um mandato, mas a um habeas corpus. São mais de 200 investigados”.

Esta é a terceira eleição que Marina Silva disputará para a presidência, pelo terceiro partido diferente. E, mais uma vez, corre o risco de ficar com exíguos segundos para a propaganda na televisão, já que o tempo é proporcional ao tamanho das bancadas que cada partido tem na Câmara. Após a migração dos deputados Alessandro Molon e Aliel Machado para o PSB no início do ano, a bancada da Rede na Casa se limitou a João Derly (RJ) e Miro Teixeira (RS). No Senado, conta somente com Randolfe Rodrigues (AP). “São só oito segundos, eu achava que eram dez. Me tiraram mais dois”, disse ela, em tom de brincadeira. Mais tarde, no ato-culto, fez outra piada: “Só vai dar tempo de dizer ‘a paz do Senhor”. Ainda assim, afirmou acreditar que neste ano o cenário pode ser diferente por causa da “consciência” dos eleitores. “200 milhões de brasileiros são maiores do que alguns segundos de tempo de televisão", disse. "Acredito na consciência das pessoas. E agora elas sabem da verdade".

Mas se não quiser contar somente com a "consciência" dos eleitores, a presidenciável precisará costurar alianças com outros partidos. Questionada sobre as conversas com o PSB no Estado, partido que vem sendo cobiçado pelo PDT de Ciro Gomes e pelo PT de Lula, Marina Silva disse que ainda é cedo para falar em aliança partidária. “Nós continuamos dialogando com os partidos e obviamente que temos um tempinho até as convenções, mas já estamos antecipando algumas alianças com os núcleos vivos da sociedade que estão ávidos por mudanças”, disse. “Firmamos uma carta de compromisso com o movimento Agora, Acredito, Brasil 21 e o movimento Frente Favela”.

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