Coluna
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Afinal, quem matou Marielle?

Se permanece impune um crime de repercussão internacional, o que esperar das investigações sobre assassinatos contra militantes quase anônimos?

Grupo segura cartazes em ato que lembrou os três meses da morte de Marielle, na última quarta-feira, no Rio
Grupo segura cartazes em ato que lembrou os três meses da morte de Marielle, na última quarta-feira, no Rio Silvia Izquierdo (AP)

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Ontem completaram-se três meses do assassinato covarde da vereadora, militante feminista, ativista negra e defensora dos direitos da população LGBT e de moradores de favelas, Marielle Franco, e de seu motorista, Anderson Gomes. Marielle, eleita pelo PSOL, “cria do Complexo da Maré”, como gostava de se identificar, foi morta no dia 14 de março, com quatro tiros disparados de dentro de um carro, numa rua semideserta do bairro do Estácio, região central do Rio de Janeiro, às 21h30. Embora tenha causado repercussão internacional, sua execução até hoje permanece sem autoria...

Treze dias depois do assassinato de Marielle e de Anderson, no dia 27 de março, um dos três ônibus que levavam a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Paraná foi atacado a tiros entre os municípios de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul. Segundo o delegado que investigava o caso, Hélder Lauria, o ataque foi planejado: “Quem fez isso sabia o que estava fazendo. A pessoa não estava lá atirando em passarinhos e por acaso acertou o ônibus”. Embora tenha sido um atentado contra um ex-presidente da República, o autor dos dois tiros, calibre 32, permanece solto e desconhecido...

Um mês depois, no dia 28 de abril, às 4 horas da manhã, seis tiros de pistola 9 mm foram disparados contra o acampamento de apoiadores do ex-presidente Lula, que encontra-se preso em Curitiba. Dois militantes da vigília pacífica saíram feridos – Jefferson Lima de Menezes, do Sindicato dos Motoboys do ABC, e Márcia Koakoski. Também desta vez a polícia não conseguiu identificar os responsáveis...

No dia 24 de maio, completou-se um ano do assassinato de dez trabalhadores sem terra na fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco (PA). O inquérito da Polícia Federal apontou para a execução sumária das vítimas, contrariando a versão dos policiais, de que teriam sido recebidos a bala pelos sem terra. Laudos e testemunhas mostraram que os trabalhadores foram mortos à queima-roupa. Apesar de haver quinze policiais presos, aguardando julgamento, até hoje a Polícia Federal não descobriu quem foram os mandantes do massacre...

No dia seguinte, 25 de maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello mandou soltar o fazendeiro Reginaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão, um dos condenados pelo assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, em Anapu (PA). Embora condenado a 25 anos de prisão, Taradão só foi recolhido em maio do ano passado, após ter tido a sentença confirmada em segunda instância. Mas o ministro Marco Aurélio, contrariando o entendimento do próprio STF que levou Lula à prisão, revogou o encarceramento de Taradão, afirmando que ele só poderia cumprir a sentença após esgotarem todos os recursos...

Se permanecem impunes um crime de repercussão internacional, como o de Marielle Franco, ou um atentado a tiros contra um ex-presidente da República, o que esperar das investigações sobre assassinatos contra militantes quase anônimos como os líderes comunitários Jefferson Marcelo do Nascimento (Rio de Janeiro), Leandro Altenir Ribeiro Ribas (Rio Grande do Sul), Carlos Antônio dos Santos (Mato Grosso), George de Andrade Lima Rodrigues (Pernambuco), Paulo Sérgio Almeida Nascimento (Pará); os líderes sem terra Valdemir Resplandes (Pará) e Márcio Oliveira Matos (Bahia); o líder quilombola, Nazido Brito (Pará); ou o líder de pequenos agricultores, Katison de Souza (Pará) - todos executados apenas neste ano, em casos sem solução...

Segundo relatório da Anistia Internacional, referente a 2017, o Brasil está entre os quatro países mais perigosos do mundo para ativistas dos direitos humanos, ao lado da Colômbia, Filipinas e México. Conforme a Comissão Interamericana, ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA), aqui, em 2016, foram assassinadas 66 lideranças, uma a cada cinco dias. A grande maioria atuava em conflitos em zonas rurais, ligados à defesa dos direitos da terra e à proteção do meio ambiente.

Difícil viver no Brasil e fechar os olhos para a triste realidade que nos envolve. Mais difícil ainda é viver no Brasil e lutar para mudar essa triste realidade que nos envolve... Mas há muitos e muitas que fazem isso... E que estão fazendo isso agora, espalhados por todos os cantos do país, no momento mesmo em que você lê esse artigo...

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