Coluna
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O Brasil neurótico

Os militares forjaram a ignorância da geração que defende agora, entusiasmada, a candidatura fascista de Jair Bolsonaro

Manifestação no Rio de Janeiro em junho de 1968.
Manifestação no Rio de Janeiro em junho de 1968.

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Uma das características marcantes da sociedade brasileira é a incapacidade de discutirmos, de maneira equilibrada, os nossos problemas —e, isso, tanto nas questões pessoais quanto coletivas. Levamos a vida a fingir que não damos importância às nossas diferenças —"Deixa isso pra lá", "Não vamos falar sobre isso", "Bola pra frente", "Não esquenta a cabeça", "Essas coisas acontecem" são sentenças usadas para não enfrentarmos criticamente o passado. Com essa atitude, nos tornamos pouco a pouco uma comunidade doente, um país neurótico.

A neurose é a repetição de uma determinada reação como resposta a conflitos de naturezas diversas, exatamente porque não resolvemos o trauma original. Em outras palavras, como nunca paramos para refletir sobre a nossa conturbadíssima História, damos sempre a mesma resposta quando nos sentimos acuados. Um exemplo óbvio é a ideia de que a única solução para quando nos vimos ameaçados por uma perturbação da normalidade, ou seja, algo que foge à nossa compreensão imediata, é o apelo ao uso da força. Pensamos sempre em aniquilar o outro, não em escutá-lo para tentar compartilhar um caminho comum.

A indigência em relação à formulação de um discurso que ofereça respostas claras aos anseios da população para as próximas eleições deve-se, em muito, à nossa neurose coletiva. É inegável que, logo após o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que conseguiu tornar o Brasil protagonista da geopolítica mundial, com seus feitos econômicos e sociais, o Brasil sofreu um descarrilamento. A desorganização, agravada após o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, em 2015, patrocinada pelo presidente não eleito, Michel Temer, aumenta ainda mais a percepção de que somos uma carreta descontrolada descendo uma ladeira em alta velocidade. E qual a solução para isso?

Infelizmente, a solução com que boa parte da população acena, como sempre, é o autoritarismo. Foi por meio de um golpe político-militar que nasceu a República em 1889; foi por meio de um movimento armado que Getúlio Vargas pôs fim à chamada República Velha, em 1930; e foi por meio de um golpe que instaurou-se a ditadura militar em 1964. E, em todos esses momentos, o rompimento constitucional, embora liderado pela elite político-econômica, contou com o apoio ou com o silêncio da maioria da população. Contas feitas, ao longo do século XX o Brasil desfrutou de breves momentos de democracia entre largos períodos de exceção.

Por falta de acesso a uma educação de qualidade, humanista, os brasileiros possuímos um caráter eminentemente conservador; por nos faltar uma experiência duradoura com o sistema democrático, os brasileiros não nos percebemos como sujeitos da história, mas meros observadores; por convivermos com uma corrupção endêmica, que corrói todos os segmentos da sociedade, os brasileiros desconfiamos uns dos outros; por termos sido moldados pela violência –genocídio dos povos indígenas, escravidão dos africanos negros, abismo entre ricos e pobres–, os brasileiros acreditamos que somente pela violência podemos solucionar nossos conflitos. Com seu discurso reacionário, obscurantista, homofóbico, machista, racista, excludente e belicoso, o ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro, vem atraindo a simpatia dos miseráveis abandonados pelo Estado e dos oportunistas que querem a manutenção de seus privilégios. Pesquisa CNT/MDA mostra Bolsonaro à frente de todos os outros candidatos –quando se exclui Lula da consulta–, com chances reais de vencer no segundo turno.

O discurso simplista e totalitário de Bolsonaro provoca uma espécie de reforço à neurose brasileira. Como não sabemos dar respostas diferentes a situações diferentes, tendemos a buscar o conforto de uma resposta conhecida, mesmo que saibamos que estamos lidando com um cenário diverso. No final do ano passado, um instituto de pesquisa concluiu que 43% dos brasileiros defendiam a volta da ditadura militar e que, entre jovens de 16 a 24 anos, esse índice crescia para 46%. Não por acaso, 60% dos eleitores potenciais de Bolsonaro têm menos de 34 anos –30% deles situa-se entre 16 e 24 anos.

A ignorância (ou seja, o desconhecimento) faz com que desejemos colocar no passado –e o passado é sempre idealizado– a solução para os problemas do presente. Mas, se confrontássemos o passado sem o véu da nostalgia, constataríamos que, ao contrário do que advogam os entusiastas do autoritarismo, o período militar não conheceu estabilidade política. A cada sucessão brigavam entre si os vários setores das Forças Armadas para fazer prevalecer seus interesses: golpe de 1969 que guindou o general Garrastazu Médici ao poder; rebelião de militares linha dura contra o general Ernesto Geisel, que autorizava pessoalmente a execução de presos políticos; pacote de Abril de 1977 que sufocou a oposição; rebelião de militares linha dura contra o general João Figueiredo.

O período militar também não foi um tempo de estabilidade econômica: a inflação média era de 20% ao ano (contra 7,5% ao ano no período democrático, não contando o governo de transição de José Sarney), e ultrapassava os 200% ao ano quando devolveram o poder aos civis. Além disso, a corrupção grassava nas mais de 500 empresas estatais existentes, que incluíam siderúrgicas, bancos, rádios, refinarias, etc. Durante o período militar, censores profissionais definiam o que era ou não era arte, o que podia ou não podia ser publicado, visto ou ouvido. Durante o período militar, qualquer um podia parar na cadeia e ser torturado ou até morto por manifestar opinião divergente. Durante o período militar estavam proibidas manifestações de rua. Os militares destruíram os sistemas de educação e saúde e ampliaram o fosso entre ricos e pobres. Mas, principalmente, os militares forjaram a ignorância da geração que defende agora, entusiasmada, a candidatura fascista de Jair Bolsonaro.