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Como um brasileiro reuniu sozinho grandes tesouros históricos

Há 50 anos, o escritor e editor Pedro Corrêa do Lago coleciona documentos de relevância histórica.

Sua coleção e sua incrível trajetória são expostas agora em Nova York

Pedro Corrêa do Lago no salão da sua casa em São Paulo
Pedro Corrêa do Lago no salão da sua casa em São Paulo

“Esta casa se transformou num depósito”, retumba a voz profunda de um homem antes de entrar na sala, que, de fato, está cheia de quadros. Alguns, poucos, os que cabem, estão pendurados nas paredes decoradas com papel de listras azuis; o resto, a incontável maioria, está no chão e apoiado na parede, em vários montículos de meia dezena de obras ocultas à primeira vista. É como se o dono dessa casa acabasse de receber a herança de dezenas de familiares ao mesmo tempo, e não soubesse o que fazer com ela. Mas a realidade é mais peculiar. O homem, uma torre de 60 anos com a cara de um Peter Ustinov magro, é Pedro Corrêa do Lago, escritor, editor, marchand e certamente o colecionador mais rocambolesco e interessante do Brasil. “Durante décadas, nesta casa eu recebia as pessoas, políticos, diplomatas, gente da cultura. Mas agora quero que seja um lugar para mim”, prossegue, já entrando na sala e abrindo caminho entre os quadros do chão. A residência reflete suas inquietudes, e por isso há tantas pinturas clássicas, mapas de épocas remotas, antiguidades de diferentes tamanhos... E sobretudo, num quarto, a coleção privada de manuscritos históricos mais completa do mundo.

“Quando dá, passo a tarde mergulhado nos meus papéis e sinto esses personagens mais de perto — o mais perto que um ser humano pode estar de alguém que morreu”, diz Corrêa. Com “essas pessoas”, ele se refere à espetacular série de nomes históricos cujos documentos rastreou ao longo de décadas, adquiridos de formas inexplicáveis e armazenados nesta casa entre os quadros. Numa tarde qualquer, Corrêa pode buscar, por exemplo, o manuscrito em que Proust escreveu o rascunho do primeiro capítulo de Em Busca do Tempo Perdido e ver quais mudanças o autor fez para a versão final. Também pode notar que faltam pedaços de papel nas margens: Proust os usava para acender os incensos que melhoravam sua asma. Ou as notas feitas por Napoleão numa reunião antes de se entediar e começar a rabiscar. Se um dia se sente paternal, Corrêa pode procurar aquele papel em que o segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams, se pergunta o que seria de seu filho, John Quincy (resposta: ele seria o sexto presidente dos EUA). Ou aquele em que Jorge VI pede um pônei para surpreender sua filha pequena, a futura rainha Elizabeth II, que se encantara ao ver um. Os papéis de Corrêa passaram pelas mãos de Voltaire, Picasso, Matisse, Marquês de Sade, James Joyce, Mozart, Goethe, Dostoievski, Nicolau II da Rússia, Robespierre, Sartre, Isadora Duncan, Afonso IX da Espanha e Maria Antonieta. É uma impressionante coleção, fruto de uma mente também impressionante. “Sou um freak”, encolhe os ombros. “Um freak com paixão.”

A antologia é tão incrível que parte dela está hoje em Nova York, onde a agora chamada Pedro Corrêa Lago Collection fica exposta na Morgan Library até setembro. É a culminância de uma vida dedicada à busca e captura de documentos assinados por personagens históricos. “Mas nada de autógrafos”, diz Corrêa, cujo semblante se torna sério como num infarto. “Não estou interessado em assinaturas. Uma carta que não diz nada é uma relíquia simpática. Mas uma carta que traz uma reflexão importante, aí é outra coisa. Como esta do Freud...”, diz ele, mostrando uma conta escrita e firmada pelo pai da psicanálise. Freud tinha tratado o norte-americano Roy Grinker, que depois das sessões se transformaria no analista mais célebre dos EUA.

Pedro Corrêa Lago Puccini ver fotogalería
Partitura de 'A Fanciulla do West', de Giacomo Puccini em 1908, que revela a energia com a qual o compositor plasmava ideias na partitura. FAÇA CLICK NA IMAGEM PARA VER OS MELHORES DOCUMENTOS DA COLEÇÃO

Cada um dos mais de 100.000 documentos existentes nesta casa revela algo da personalidade de seu autor. Mahler confessa ter percebido que escreve música por dinheiro. Beethoven rabisca tanto suas linhas que podemos concluir que estava completamente bêbado. Einstein rejeita a psicanálise porque não serviu para curar seu filho autista. Sartre se nega a aceitar o Prêmio Nobel. O general norte-americano Eisenhower aposta com seu homólogo britânico, Montgomery, quando acabará a Segunda Guerra Mundial (errou). Lawrence da Arábia critica seu próprio livro, o clássico Os Sete Pilares da Sabedoria...

“A loucura é ter querido fazer uma coleção enciclopédica”, suspira Corrêa. “Quer dizer, todo mundo coleciona: literatura francesa do século 19, música alemã, reis da França, presidentes dos EUA… Mas colecionar as quatro ou cinco mil personas que eu considero mais representativas desde 1400 é loucura.” Isso é o que torna sua coleção tão especial. Ela foi feita pelo caminho mais difícil, caro e, portanto, espetacular. “Gastei um dinheiro. E se for juntar os valores de tudo, é uma quantidade alta. Um dia eu fiz um cálculo e me surpreendi: não porque fosse muito alto, que isso eu esperava. Foi quanto eu ganhei”.

Continuar construindo a coleção é conhecer os 50 anos de vida que seu autor dedicou a ela. As obras que pagou escrevendo livros (Corrêa assinou 20, geralmente sobre peças plásticas ou históricas brasileiras; alguns com sua esposa, Bia), que descobriu pesquisando coleções e facilitando a venda de milhares de quadros por todo o país. Obras que o levaram a escrever na prestigiosa revista Piauí e a presidir a Fundação Biblioteca Nacional. Enfim, que o transformaram num dos personagens mais relevantes da cultura brasileira. “Como sabia que precisava pagar aquele leilão do qual tinha participado e não tinha nem um centavo, eu inventava negócios para fazer. Lembrava que um amigo estava procurando um quadro que outro amigo tinha e botava os dois em contato. Foi a partir daí [que começou]”, explica. Agora, dizem, ele está a ponto de entrar para a Academia Brasileira de Letras.

Detalhe da casa de Pedro Corrêia do Lago
Detalhe da casa de Pedro Corrêia do Lago

E o fio condutor avança. Leva até um jovem, filho de diplomata, que, após morar na Venezuela e na Suíça, estava entediado na Bélgica aos 13 anos. “Descobri num livro de hobbies que alguém tinha escrito 35 vezes pelo Khrushchov, e meu pai tinha aquele livro Who’s Who, que antes da Internet já vinha com as biografias de todas as pessoas consideradas mais importantes do mundo na época [1971]. Vinha com endereços, e comecei a escrever dezenas de cartas, sei lá. A quem estivesse vivo na época. Mandava do colégio para ver se Miró, Chagall e Rubinstein tinham respondido à minha carta. Muitos respondiam, mas outros não. Picasso não respondeu, mas guardou minha carta. Tolkien não mandou. Truffaut, sim”.

Ele renega hoje a frase dos autógrafos. “É a moedinha número um do Tio Patinhas, mas não tem muita ligação com o que eu faço agora. Com 13 anos eu quis assistir aos leilões. Em 1972, comprei uma carta de Manet com minha semanada. Custou um mês de mesada, mas era para custar 50 dólares. Só pude comprar porque estava barata. Comecei a comprar, a ter pequenos empregos para poder pagar, e tudo isso me deu uma orientação”.

E assim as coisas começaram a acontecer. Corrêa treinou o olho e se tornou especialista. Em Lisboa, reconheceu a letra de Gandhi melhor do que o homem que lhe estava vendendo um conjunto de cartas. Era um papel em que o líder indiano previa sua morte. “Comprei por um dólar”, sorri. Em outra ocasião, encontrou a primeira página do manuscrito de A Biblioteca de Babel, de Borges. “Não posso dizer por quanto comprei, mas posso te dizer que paguei em quatro anos. E comprei pela metade do que a pessoa pedia inicialmente”, diz ele. Outro milagre: “Uma carta do czar Nicolau II para o primeiro-ministro russo, dizendo: ‘Hoje de manhã recebi a visita de um monge que me impressionou muito.” Esse monge era Rasputin, que acabaria controlando a Rússia imperial graças à sua influência sobre o czar. Mas essa missiva Corrêa não pôde conseguir. Era cara demais. Aos poucos, a atividade se transformou num modo de vida. “É excepcional, pela loucura, porque eu deveria estar com uma camisa de força. É que sou meio viciado. É uma paixão? É. Mas, para uma coleção desse tamanho, você precisa ter uma mente muito voltada para isso”, admite.

E percorre com o olhar a sua casa, repleta de quadros, documentos e fotos. Cheia do “impagável” que ele pagou dedicando sua vida. “Eu sei que eu sou um freak. Mas se eu te contar a quantidade de prazeres grandes e pequenos que essa coleção me trouxe, o excitement de encontrar a peça, de pesquisar e descobrir que era muito mais importante do que você pensava, o excitement depois de revisitá-la”. Sorri. Seu olhar se enche de brilho novamente, devolvendo-lhe essa expressão juvenil ao rosto. Como se nunca tivesse deixado de ser um menino de 13 anos. “Às vezes, fico fascinado com esse pergaminho: há 900 anos, numa mesa medieval, um monte de gente se juntando com esse mesmo documento. E agora ele aqui, na minha mesa de jantar”. Lá está o pergaminho, emoldurado na casa que contém um dos maiores tesouros do Brasil, em duas partes indivisíveis. Uma é a coleção. A outra, o colecionador.

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