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Assim as minorias convencem as maiorias a aceitarem uma mudança social

Experimento calcula a massa crítica necessária para reverter o consenso coletivo

Javier Salas
O coletivo LGTBI já alcançou muitos dos seus objetivos na Espanha.
O coletivo LGTBI já alcançou muitos dos seus objetivos na Espanha.Juan Carlos Hidalgo (EFE)

É possível que haja relação entre a aprovação do casamento homossexual na Espanha e a adoção de neologismos como postureo [ostentação] e viejuno [velho] por grande parte da população? Em ambos os casos, foi preciso alcançar uma massa crítica suficiente, um número mínimo de pessoas comprometidas que impulsionassem seu critério minoritário até um ponto de inflexão no qual a novidade fosse aceita pela maioria. Assim opinam alguns estudiosos do fenômeno, convencidos de que existe esse limiar de massa crítica que separa o sucesso do fracasso na mudança social.

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Um novo estudo publicado na revista Science se atreve inclusive a quantificar o tamanho desse grupo em torno de 25% da população. Abaixo desse limiar, determinado comportamento, costume ou critério moral continuará sendo minoritário. Mas, se houver como implicar um quarto da população (de um país, dos funcionários de uma empresa, dos moradores de um bairro), a mudança se espalhará rapidamente até convencer a maioria, concluíram os autores do estudo, das universidades da Pensilvânia e Londres, a partir de uma interessante série de experimentos. Como isso é possível? Sabemos que é muito difícil fazer alguém mudar de opinião, mas, por outro lado, temos assistido a importantes reviravoltas sociais que, por exemplo, transformam um país de tradição católica como a Espanha em um dos mais tolerantes com as minorias sexuais.

Durante os últimos 50 anos, os sociólogos especularam que a mudança social pode resultar dos esforços de pequenos grupos de ativistas comprometidos que lutam pela adoção de novas normas sociais. O difícil é quantificar esse esforço ou o tamanho relativo dos ativistas com relação ao grupo total, que oscilava de 51% na teoria econômica padrão até outros estudos recentes que o reduziam a 10%. Matemáticos e físicos passaram décadas construindo teorias que tentam predizer onde poderia estar esse ponto de inflexão e se ele realmente existe.

“A dificuldade de provar esse tipo de teoria é que a história só ocorre uma vez”, observa Damon Centola, líder do estudo. “Se um grupo de ativistas fracassa, é difícil saber se teriam tido sucesso caso houvesse alguns quantos a mais. Do mesmo modo, se um grupo de ativistas triunfa, é difícil saber se teriam fracassado caso algo fosse diferente”, explica Centola, da Universidade da Pensilvânia. Para resolver esse enigma os pesquisadores conceberam uma série de experimentos para mensurar como pequenas diferenças no tamanho do grupo de ativistas poderiam determinar o sucesso ou fracasso.

“Se um grupo de ativistas fracassa, é difícil saber se teriam tido sucesso caso houvesse alguns a mais”, explica Centola

A equipe de Centola, que há 10 anos trabalha no desenvolvimento dessas experiências, construiu 10 comunidades diferentes nas quais puderam intervir para acrescentar fatores que dinamizassem a propagação da mudança social, da mesma forma como cozinheiros acrescentam temperos para dar mais sabor aos seus pratos. Em cada uma dessas 10 comunidades, que congregavam via Internet centenas de pessoas, a proporção de ativistas comprometidos com a mudança de costumes sociais era diferente. Foram orientados a interagir de tal forma que estabelecessem suas próprias normas sociais – concordar quanto à escolha de um nome para o grupo –, e depois eram incentivados a manter esse critério.

Mais tarde, o grupo ganhava o acréscimo dos revolucionários, membros empenhados em alterar os critérios. Os outros, como era previsto, resistiam. Quando introduziam 17% de ativistas pela mudança, não conseguiam convencer os demais. Com 19%, tampouco. 21%, e nada. “Depois, aumentamos o grupo de ativistas para 25%. Sucesso imediato!”, festeja Centola. “Houve um efeito rápido e drástico no comportamento do resto da comunidade”, conta esse especialista em dinâmicas de grupo. Eles repetiram o experimento várias outras vezes e encontraram os mesmos efeitos: os grupos de ativistas que somavam 25% ou mais conseguiram alterar as normas sociais em suas comunidades.

“Os pontos de inflexão realmente existem”, conclui Centola, que publica neste mês um livro sobre esta matéria (How Behavior Spreads: The Science of Complex Contagions, ou “como o comportamento se espalha: a ciência dos contágios complexos”). “E, se conhecermos as propriedades de um sistema social, então podemos identificar onde estará o ponto de inflexão para a mudança social”, resume. O mais interessante nas suas conclusões é que às vezes os ativistas, sem saberem, estão a uma só pessoa de chegar ao ponto de inflexão, de precipitar a reviravolta: “Um movimento que parece estar fracassando pode estar justamente na antessala do sucesso”.

A experiência foi repetida várias vezes: os grupos de ativistas que somavam 25% ou mais da comunidade conseguiam alterar as normas sociais

A chave para a dinâmica do ponto de inflexão é a rede social, segundo a proposta de Centola. “À medida que as populações se conectam cada vez mais entre elas, tornam-se cada vez mais vulneráveis à dinâmica do ponto de inflexão”, afirma. E esta seria a razão pela qual esse trabalho contribui para explicar, como diz o pesquisador, movimentos como o #MeToo, o BlackLivesMatter e os indignados espanhóis. “Mas também há um lado obscuro”, diz Centola, em referência ao uso que Governos como o da China fazem desses mecanismos, com seu exército de trolls que inundam fóruns e redes sociais para sufocar a dissidência, e que também explicaria a difusão maciça de bots em redes sociais durante processos eleitorais.

A realidade social é mais complexa

“Certamente há limiares em que as coisas se aceleram, mas geralmente há intervenções externas, como iniciativas governamentais, que são mais influentes”, diz o sociólogo Kerman Calvo. Do seu ponto de vista, a teoria do ponto de inflexão que é disparada apenas pelas intervenções dos ativistas dentro do grupo funcionaria somente em ambientes reais onde não exista uma variável exógena, como uma lei, que “curto-circuitaria” esse desenvolvimento natural. Por exemplo, práticas ambientais, hábitos sociais ou costumes cívicos, sugere Calvo, que acaba de publicar um livro que analisa a evolução do movimento LGBTI na Espanha da clandestinidade até o êxito do casamento igualitário.

“Certamente há limites a partir dos quais as coisas se aceleram, mas em geral há intervenções externas, como iniciativas governamentais, que são mais influentes”, afirma Calvo

No papel, essa evolução do movimento gay espanhol seria um caso interessante a ser estudado com a proposta de Centola: um grupo de ativistas muito comprometidos que convencem pouco a pouco os cidadãos até chegar ao momento em que a massa crítica de 25% é alcançada e acontece uma mudança social. “Não devemos esquecer o desenvolvimento desde cima, um impulso que recebe em três ou quatro momentos, também com a intervenção de personagens midiáticos”, acrescenta Calvo, referindo-se a esses fatores decisivos alheios ao trabalho dos ativistas.

São fatores que podem jogar a favor ou contra, com a aprovação de uma lei que derrubasse as esperanças de um grupo e desativasse a militância, por exemplo. “Nos casos em que as pessoas são um pouco indiferentes, não se dá tanto um processo gradual de transformação, mas a sociedade adere depois que os Governos tomaram uma decisão que de repente consideram razoável”, explica o sociólogo. Também há casos em que um evento muito específico serve para ativar consciências, como o assassinato de Ana Orantes no âmbito da violência machista, mesmo que seja algo que os ativistas vêm denunciando há anos.

Os casos mais naturais em que pode ser observado esse crescimento espontâneo das minorias até a massa crítica são questões linguísticas, nas quais palavras ou expressões idiomáticas conseguem se tornar populares substituindo outras por meio da interação e apesar de uma oposição inicial. “Essa interação contínua e repetida também poderia ser rastreada, por exemplo, no caso da adoção homossexual. Existem estudos que mostram que a mudança de percepção a favor ocorre principalmente pelo fato de entrar em contato com essas famílias”, propõe Calvo.

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