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As mortes de negros nos EUA colocam a polícia sob os holofotes

Com um ano do caso de Ferguson, se consolidou o debate sobre as práticas policiais

O parque de Cleveland, na sexta-feira, onde morreu um menino que portava uma arma de brinquedo.
O parque de Cleveland, na sexta-feira, onde morreu um menino que portava uma arma de brinquedo.

No vestíbulo da sede do sindicato CPPA da polícia de Cleveland (Ohio), há um cartaz pendurado que diz: As Vidas Azuis Importam. É a resposta ao emblema As Vidas Negras Importam, símbolo dos protestos contra a reiteração de mortes, por parte de policiais, de pessoas negras desarmadas nos Estados Unidos.

A morte de um jovem afro-americano em Ferguson (Missouri), assinado a tiros por um policial branco mediante circunstâncias confusas, no dia 9 de agosto de 2014, há exatamente um ano, desencadeou uma onda de distúrbios, e um debate nacional sobre as práticas policiais e como tratam a comunidade negra.

Depois de doze meses, o debate se consolidou. E cada vez que ocorre um caso parecido, cresce o escrutínio em relação à polícia e a realização de protestos, como no caso de Tamir Rice. Em novembro, em Cleveland – no centro-oeste dos EUA - Rice, um menino negro de apenas 12 anos, foi morto vítima de disparos de um policial que se sentiu ameaçado ao pensar que a arma de brinquedo que ele tinha era real.

Um júri deve decidir se o oficial será acusado. A melhor prova é uma gravação confusa de uma câmara de segurança. Outros episódios similares no último ano dificilmente teriam adquirido notoriedade ou sido esclarecidos sem a difusão de vídeos gravados pelos celulares de pessoas que passavam pelo local.

Ferguson desencadeou uma cascata de consequências: uma investigação federal revelou um padrão racista na polícia local, mais corporações colocaram câmeras nos uniformes de seus agentes, o FBI garantiu que muitos deles têm preconceitos raciais; e a Casa Branca lançou um plano de melhora das práticas e estatísticas policiais, e reduziu a entrega de material militar às corporações locais.

Nos primeiros cinco meses de 2015, a polícia matou 385 pessoas, mais de duas por dia. E a taxa de vítimas negras é o triplo da de brancas

Mas as causas que formam o contexto são complexas e deram origem a um exame de consciência. A polícia dos EUA é agressiva demais? Atua da mesma maneira com um branco, um negro e um latino? A justiça ampara em excesso o direito de autodefesa dos policiais? O cartaz no sindicato de Cleveland evidencia a polarização desse debate.

"Sempre há espaço para melhorar, mas acho que o escrutínio é intenso e injusto", diz Stephen Loomis, presidente do CPPA, em entrevista em seu escritório. Loomis – que trabalha há 22 anos como policial e representa 12.500 agentes - nega que exista um problema racial e tampouco de agressividade, e atribui o efeito Ferguson a um desapego social, à falta de respeito à autoridade, a que a polícia é um alvo fácil, e a uma campanha de desprestígio do Governo.

O que mais parece incomodá-lo é que agora se questione a essência policial: o risco de serem atacados, a heroicidade dos agentes que arriscam suas vidas, o direito de se defenderem e a importância de seguir suas ordens.

Sempre há espaço para melhorar, mas acredito que o escrutínio é intenso e injusto"

Stephen Loomis, presidente do sindicato CPPA da Polícia de Cleveland

No entanto, diz que se sente reconfortado pelo papel da Justiça, que levou à exoneração do policial de Ferguson por autodefesa, e defende a condenação daqueles que abram fogo sem justificativa, como o policial branco da Carolina do Sul que, em abril, disparou oito tiros pelas costas de um homem negro desarmado. Também garante que ele e seus companheiros de corporação nunca tinham recebido tantas demonstrações de carinho nas ruas.

Nos primeiros cinco meses de 2015, a polícia matou 385 pessoas nos EUA, mais de duas por dia, segundo uma investigação realizada pelo The Washington Post, um número que dobra as incompletas estatísticas oficiais. A taxa de vítimas negras é o triplo da de brancas. E 80% delas estavam armadas. Das desarmadas, dois terços eram negras ou hispanas, muito acima de seu peso demográfico. São indicadores inéditos em outros países desenvolvidos. Em um ano, morrem, na Alemanha, oito pessoas por disparos de policiais, e no Reino Unido e Japão nenhuma, segundo o The Economist.

Enquanto isso, cerca de 50 policiais morreram no ano passado vítimas de disparos nos EUA. Loomis, que é branco, considera uma "idealização" pensar que restringir as vendas de armas (existem cerca de 270 milhões de uso privado em um país de 321 milhões de habitantes) reduziria as mortes porque, de uma maneira ou de outra, os criminosos sempre acabam tendo acesso a elas.

Sobre ao debate em relação à gravação de imagens, alega que o papel dos vídeos de celular feitos por testemunhas é superestimado, e defende a instalação de câmeras de segurança em todos os carros policiais em vez de nos uniformes dos agentes porque considera que oferecem imagens mais fidedignas.

Stephen Loomis, o presidente do sindicato CPPA da polícia de Cleveland ampliar foto
Stephen Loomis, o presidente do sindicato CPPA da polícia de Cleveland

O chefe sindical faz poucas autocríticas. Sua maior reprovação é em relação aos cortes no orçamento destinado às despesas policiais em Cleveland realizados nas últimas décadas, o que reduziu sua presença nas comunidades. O "maior problema" nos EUA, afirma, é a ausência de um canal de comunicação entre a polícia e a comunidade. Isso, especula, poderia ter evitado a morte de Rice, de 12 anos.

No entanto, existem problemas prévios, que Loomis minimiza: uma investigação federal revelou um padrão de uso excessivo da força por parte da polícia de Cleveland e um rigor muito baixo no processo de recrutamento de agentes.

Tamir Rice morreu em um parque infantil ao lado de sua escola, em um bairro pobre no oeste de Cleveland. O motivo da chegada da polícia, no sábado, 22 de novembro, foi uma ligação que denunciava a presença de um homem "provavelmente menor de idade" com uma arma "provavelmente falsa", mas esses detalhes não foram transmitidos aos policias pela central telefônica. O agente que abriu fogo alega que Rice - que media 1,70 m - parecia ter 20 anos.

Na tarde da sexta-feira, havia vários ursos de pelúcia colocados no local do assassinato. Em um poste, havia uma mensagem de parabéns pelos 13 anos que Rice nunca chegou a completar. E, a alguns metros, várias crianças negras brincavam felizes nos balanços.

"É um problema que continuará até que façam algo", disse, sobre a polícia, Michael, um afro-americano de 40 anos que trabalha na limpeza do parque. Um trajeto de apenas cinco minutos, de carro, separam o parque da sede do sindicato policial, mas a distância entre ambos os mundos parece ser um abismo.

Ferguson, ano I

Nem todos os policiais pensam, como o chefe sindical de Cleveland, que Ferguson não deva representar um ponto de inflexão. “Foi um ano muito importante para reconhecer que devemos encontrar formas de melhorar as práticas policiais, especialmente em comunidades diversas”, afirma por telefone Chuck Wexler, diretor da Police Executive Research Forum, uma organização com sede em Washington que tem como membros os chefes das corporações da maioria das grandes cidades americanas. “Muitas cidades do país estão analisando o uso da força e a confiança pública”.

O centro de análise defende uma maior restrição em relação aos agentes e tomadas de decisão mais pausadas. Wexler acredita que se deve atuar nos processos de seleção e treinamento de policiais, em fortalecer os laços com as comunidades, e em saber agir melhor diante de determinados coletivos, como os doentes mentais e vagabundos. E não se queixa do maior escrutínio proporcionado pelo caso de Ferguson: “Pela natureza do que fazemos, temos uma responsabilidade perante o público”.

No primeiro aniversário da morte de Brown, estão previstos vários atos de comemoração em vários pontos do subúrbio de Saint Louis, que conta com 21.000 habitantes, no centro-oeste dos EUA. Tory Russell, um homem negro de 30 anos, participará deles. “Estou orgulhoso deste ano”, afirma o co-fundador de Hands Up United, um dos principais grupos de ativistas que se originaram dos protestos após a morte de Brown. “Eu gostaria que se realizassem mais ações contra a polícia”, acrescenta em referência ao relatório do Departamento de Justiça que revelou um padrão de discriminação racial na corporação local. A Hands Up United promove atividades de apoio social a comunidades afro-americanas pobres em Ferguson e possui ligações com outros grupos similares nos EUA e no exterior.

Russell diz que uma característica que diferencia os ativistas de Ferguson dos demais é que estão diretamente “conectados à luta” das classes trabalhadoras e “não são um conceito abstrato”. E se gaba de não agir em conjunto com as tradicionais organizações nacionais negras de direitos civis.

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